Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

CHARLES PRETTO, dono do PACOTÃO”

Brasília, (fevereiro) Carnaval de 1997

 

Ele é muito mais estranho do que a vitória de Antônio Carlos Magalhães no Senado. Mais misterioso do que o veto do governador Cristóvam Buarque à Fazenda Santa Prisca. Muito mais esquisito do que o Secretário de Turismo, Rodrigo Enrollemberg. Mais temeroso do que o próprio Michel Temer. E muitíssimo mais arredio a entrevistas do que o deputado José Genoíno. Todos os anos, no Carnaval, um estranho, inusitado, misterioso e arredio personagem aparece fugaz nas crônicas de jornais, tevês e rádios de Brasília. Jornalistas do mundo inteiro fazem de tudo para conseguir dele um único depoimento, uma única frase que seja. E nada. Para os repórteres mais novos, isso pode até valer uma promoção. Para os experientes, quem sabe, um Prêmio Esso. Quem for de Carnaval, já matou a charada. Estamos falando, é claro, de Charles Pretto, o ditador perpétuo e vitalício da "Sociedade Armorial Patafísica Rusticana - O Pacotão", o mais famoso e irreverente Bloco Carnavalesco de Brasília, melhor dizendo, do Brasil. O Pacotão comemora esse ano 20 carnavais, sempre na contramão da avenida e da história, consolando os fracos e reprimidos e aterrorizando os poderosos de plantão...sejam eles os carrancudos generais da falecida ditadura militar, príncipes de carteirinha da sociologia ou os barbudos, carecas e barrigudos petistas dos governos democráticos e populares.
Recém chegado de Miami, onde deixou seu cunhado vistoriando a reforma de seu barraco em West Palm Beach, Charles Pretto concordou em falar. Depois de mil subterfúgios, concedeu essa entrevista inédita. Primeira e única, garante ele. Evoluindo na boquinha da garrafa, com revelações destampadas sobre o poder, o PT, o FHC, o prazer e, é claro, sobre Brasília e o Pacotão, Charles Pretto não está nem um pouquinho preocupado em segurar o tcham. Abre a Janela da Corte deste domingo de Carnaval e coloca seu tcham de fora. Um horror!

1) O que o incomoda mais:
Em Brasília: as gambiarras do Governo do PT e o Principado do Palácio da Alvorada.
No Governo do PT: a liderança do senador José Roberto Arruda.
Na ARUC: a concorrência que fazem ao meu Bloco
No Carnaval: o de sempre, a falta de quorum do Congresso.

2) Qual foi a melhor marcha do Pacotão?
Sem dúvida nenhuma, o Aiatolá, de 1979. Aliás, ela não foi apenas a melhor. Foi a única. Até hoje o povo só sabe cantar “Ga-gá, ga-gá, Geisel/ Você nos atolou /E o Figueiredo também vai atolar/ Aiatolá, Aiatolá, venha nos salvar / Que esse governo já ficou gagá/ Ga-gá, ga-gá, Geisel...”

3) Três carnavalescos de Brasília que sabem acontecer na Sapucaí?
Antigamente era o Haroldo Meira, que foi Administrador de Brasília, não gostava do Carnaval da cidade e fugia na véspera para desfilar na Mangueira. Hoje é o Moa, que vai desfilar na ARUC no domingo, pega um avião depois do desfile e na segunda-feira desfila na Portela. Pena que ele não queira mais saber do Pacotão. O terceiro maior carnavalesco parece que este ano vai dar o cano: Itamar Franco, o rei da Sapucaí, porta-estandarte do Fusca e topete de honra do Grêmio Recreativo Unidos do Pão-de-Queijo.

4) A reeleição foi um “pacotão”?
Ixe! Não passou de um “pacotinho”. O príncipe Fernando II ainda tem muito que aprender comigo. Pra que reeleição, professor? Por que ele não faz como eu, que sempre me declarei ditador perpétuo e vitalício do meu Bloco? É verdade que eu não tinha o Serjão pra atrapalhar, nem o Maluf pra ajudar... Tem nada não, um dia ele aprende. Se o Toninho Perdura não lhe der a receita, é só me procurar. Afinal de contas, depois de quarta-feira, eu entro no PLV (Plano de Licença Voluntária), e vou gastar minha grana em Miami, num barraco com privada de ouro que eu aluguei ao lado da mansão do outro Fernando, o Primeiro. Terei muito tempo livre.

5) Cristovão rima com Estevão? Isso dá samba ou atravessa na avenida?
Dá um sambão rasgado, com direito a socos e caneladas. Dinheiro pra gravar o CD não vai faltar. É só pedir pra Odebrecht ou sacar a fundo perdido nas sobras da “Operação Uruguai”. Dá também frevo, maracatu, salsa, merengue, bolero e samba-canção. Quem sabe o mestre Jamelão não topa gravar? O risco é que, com tanta baixaria, vão acabar reinventando a “dança da bundinha”...

6) E o que você faz quando o Pacotão está de recesso?
Bem, não consegui arrancar do “Duque de Águas Claras”- Grão-Senhor do Governo Democrático e Popular do DF - um DAS compatível com as minhas qualidades de estadista. Assim, não me resta outra alternativa senão apelar ao “Barão da Santa Prisca” para conseguir uma boquinha como prefeito biônico da "OKlândia", a nova cidade que vai nascer ali, desinteressadamente. OK, deputado?

7) É verdade que este ano você vai distribuir frango, a âncora do Real, na concentração do Pacotão?
Injustiça. Será frango com iogurte, a mais nova receita do cardápio do chef Malan. Será minha contribuição para a estabilidade da moeda. Assim, quem sabe, acabam com os estoques de frango e iogurte, que ninguém agüenta mais, e eles resolvem baixar o quilo do filé mignon e o preço do passe do Ronaldinho.

8) O que você acha do Joãozinho Trinta ter trocado o Carnaval do Rio pelo de Brasília?
Uma questão de oportunidade. Pelo visto ele descolou alguma boquinha com o “Duque de Águas Claras”. O perigo é ele aprender a fazer Carnaval com o pessoal da ARUC, enlouquecer de vez e querer comprar a Mocidade Independente do Gama. Ou então ter um filho com a Marilena Chauí e se candidatar a Secretário de Cultura do Governo Democrático e Popular. Já pensou!

9) Qual a virtude capital do Pacotão?
Não ter capital. Infelizmente...Se tivesse, quem sabe, meu cunhado poderia terminar o meu barraco em West Palm Beach!

10) Qual o pecado capital de Brasília?
Ter um Pacotão em cada Palácio e uns pacotinhos em cada gabinete. Infelizmente...

silvestre@gorgulho.com