Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

BRASÍLIA. o ESTÁDIO e a COPA DO MUNDO

 

 

 A BÊNÇÃO, MANÉ GARRINCHA

  1. SILVESTRE GORGULHO - Jornalista, foi secretário da Cultura do DF


    Publicação CORREIO BRAZILIENSE EM: 28/06/2014


    A história para mim começa hoje e continua amanhã. O passado não construído e desperdiçado é triste. O Brasil sem Brasília não teria Centro-Oeste pujan...te nem cerrado com 60% do agronegócio brasileiro. No antes se faz o presente e se plantam esperanças e sonhos. Oportunidades perdidas não voltam mais. É como a alvorada ou o pôr do sol. Se acordar tarde ou dormir cedo, perdeu. Irrecuperável! Por isso, depois de vivienciar a beleza e a pujança desta primeira fase da Copa do Mundo, quero fazer um raciocínio inverso.

    Tipo assim: Brasília não fez o dever de casa. Continuou com o velho e inacabado estádio, projetado em 1972, construído em 1973 e inaugurado precariamente em 1974. E não teve a coragem de construir o novo Estádio Nacional Mané Garrincha. Em corolário, Brasília não teria Copa do Mundo, não teria o novo Aeroporto Juscelino Kubitschek, não teria os viadutos do bambolê Dona Sarah, para ficar apenas em três obras mais importantes e imprescindíveis. Mais ainda: Brasília também não teria esse fluxo de visitantes e muito menos esse astral maravilhoso de uma cidade respirando e pulsando turismo, esporte, patriotismo e beleza. Diferencial elogiado até pelo New York Times.

    Brasília sem o Estádio Nacional Mané Garrincha seria apenas um apêndice na alegria brasileira de ver uma Copa do Mundo no Brasil pela televisão. Sem a vibração das ruas, sem o destaque multimídia internacional e sem a emoção e a energia da alma candanga.

    Os brasilienses ficariam deste tamanhinho diante de uma alegria de outras cidades e praças. Alegria enrustidada por assistir de longe jogos históricos de primeira grandeza e vitórias maiúsculas ou, mesmo, minúsculas da Seleção do Brasil.

    Que tristeza sem fim para a cidade-capital em ver a Copa de longe ou em ter que viajar para outras onze sedes, com preços absurdos, para assistir a algum jogo da competição?

    Tenho a convicção de que o bom astral mexe com a gente e é ele o vetor principal para dominar o mundo. Por quê? Simples, porque não adianta brigar com a vida. Sintonia em alto astral liga uma frequência positiva. O melhor da vida é viver o melhor.

    Fui assistir ao jogo Brasil e Camarões. Orgulho de ver aquele estádio lotado, alegre, gritando feliz e espargindo energia em cada uma de suas 288 colunas de 1,2 metro de diâmetro e 48 metros de altura. Orgulho de sentir a força de uma união revigorada por um anel de concreto de duas lajes com 23 metros de largura e 1km de perímetro, onde estão ancorados 48 cabos de aço de 10cm de espessura.

    Seria triste não ter tido a oportunidade de curtir e compartilhar com os visitantes e torcedores colombianos, equatorianos, suíços, costa-marfinenses, camaroneses, portugueses e ganeses — e tantos outros que ainda virão — as belezas candangas. Bom saber que Brasília já recebeu quatro jogos da Copa e ainda tem outros três para ver.

    Pensar grande não é defeito. É virtude. Construir o melhor é não se apequenar. Brasília também nasceu sob fogo cruzado da oposição, da elite e da mídia brasileira. E Brasília está aí para provar que JK foi estadista, corajoso, ousado e estava correto em todas suas avaliações. Por causa da construção da nova capital, a 1.270 quilômetros do litoral, o Brasil renasceu e se redescobriu como nação.

    O novo Estádio Nacional de Brasília, além de honrar a memória de Mané Garrincha, que encantou multidões e ajudou a trazer duas Copas do Mundo para o Brasil (1958 e 1962), já mudou para sempre a história do futebol, do entretenimento e do lazer cultural candango.

    Tenho minha filosofia de vida: uma pessoa alegre e afável é capaz de mudar o astral de uma centena de carrancudos. Baixo astral, bola nas costas, politicagem barata, raiva, revolta, tristeza são sentimentos que não duram muito tempo em mim; não deixo que eles me afetem. Pelo menos tento viver assim. Minha felicidade vale muito mais.

    E uma lição que Brasília já deu nos seus 54 anos de vida, e continua dando, é que oportunidades perdidas por uns são usadas por outros. Oportunidade é como gol numa partida de futebol: quem não faz leva! Sempre tem alguém — pode ser outra cidade, outro país ou outras empresas — que vai aproveitar as oportunidades desperdiçadas.

    Brasília, generosa que é, continuará sendo a terra das oportunidades. A eterna Capital da Esperança.
    Obrigado, JK.
    A bênção, Mané Garrincha!
     
    silvestre@gorgulho.com