Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

D. Raymundo Damasceno

Silvestre Gorgulho

Mineiro de Capela Nova das Dores, 58 anos, D. RAYMUNDO DAMASCENO ASSIS, Bispo auxiliar da Arquidiocese de Brasília e Secretário-Geral da poderosa CNBB é um brasiliense de primeira hora, pois aqui chegou em 1960 como seminarista, com 22 anos. Depois cursou a Universidade Gregoriana, de Roma, e o Instituto Catequético de Munique, na Alemanha. Regressou à Brasilia em 1967 e foi ordenado padre em 68, na Catedral. Em 1981 foi sagrado Bispo e de 91 a 95 ocupou a Secretaria-Geral da Conferência Episcopal Latino-Americana. Calmo, metódico e organizado, dom Raymundo Damasceno consegue conciliar as atividades de Bispo-Auxiliar do DF com as de Secretário-Geral da CNBB, a maior conferência católica do mundo, em número de dioceses (270) que agora navega também nos céus da Internet.

1 - Duas coisas que mais o incomodam em Brasília.
O contraste da riqueza com a pobreza. E que as decisões dos poderes Legislativo e Executivo nem sempre vêm ao encontro dos verdadeiros interesses do povo brasileiro.

2 - Um recado para o governador Cristovam Buarque.
Ele tem projetos interessantes, como a bolsa-escola. É importante despertar mais as pessoas para o exercício da cidadania brasiliense, que ele tem feito, por exemplo, com o orçamento participativo.

3 - Dois nomes que sabem fazer Brasília ser respeitada lá fora?
Dos vivos, citaria o primeiro Arcebispo da Nova Capital, D. José Newton, a quem a Igreja deve a implantação do Seminário. das Paróquias, da Catedral e de tantas obras pastorais e sociais. E, dentre os que partiram, o sempre saudoso fundador de Brasília, JK.

4 - A lei do divórcio está desestruturando a Família?
Não sei se podemos, ainda, medir os efeitos em números. Mas a lei, em si, abre portas para favorecer a separação que, muitas vezes, com mais tempo e amadurecimento, poderia ser evitada e a união matrimonial mantida.

5 - A Igreja, na sua intransigência, não perde muitos católicos que pelas mais diversas causas chegaram ao divórcio?
A Igreja deseja que cada casal seja feliz, crie e eduque seus filhos. Ela tem o dever de proteger e defender o matrimônio que é de instituição divina e não humana. A Igreja não abandona aqueles casais que não conseguiram viver esse ideal. Ao contrário, se interessa por eles e desenvolve uma pastoral em seu favor.

6 - E essa legião de milhares de padres casados e suas famílias não é uma força que a Igreja está perdendo de graça?
A Igreja respeita a opção, para ela dolorosa, dos padres que livremente deixaram seu ministério sacerdotal e se casaram. Em muitos casos a Igreja aproveita e valoriza o seu serviço, quando compatível com sua nova condição.

7 - Qual é o exército da Igreja Católica do Brasil?
Somos, no total, 370 bispos e 14.850 sacerdotes, com 7.620 Paróquias. A nossa média brasileira é de uma Paróquia para 20 mil habitantes, enquanto na Itália, com menos da metade da população do Brasil, a média é de uma para cada cinco mil habitantes. Faltam-nos “operários para a messe” como diz o evangelista.

8 - E as campanhas pelo aborto?
O nosso Código Penal legaliza o aborto nos casos de estupro e perigo de vida para a mãe. A Igreja é a favor da vida em todas as suas fases, desde a concepção. A vida é um dom de Deus e não pode admitir concessões quanto ao aborto.

9 - Brasília é a capital do misticismo ou da mistificação?
Não é. Brasília é atípica no urbanismo, mas habitada por pessoas que têm a mesma sede natural de Deus, do transcendente. E essa sede encontra expressão nas diferentes religiões. É uma cidade pluralista e esperemos que esta busca do Absoluta encontre sua expressão mais autêntica, como nos propõe a Revelação.

10 - O crescimento de igrejas pentecostais preocupa?
Os novos movimentos religiosos sempre representam um desafio para nós, porque esses movimentos conseguem muitos recursos financeiros e um tipo de proselitismo que influencia parte dos fiéis, que não podem ser atendidos por nós como desejados, em virtude do número ainda insuficiente de nossos evangelizadores.

11 - Como o senhor vê a questão dos padres que entram na política partidária e se candidatam a cargos eletivos?
A Igreja quer que os leigos participem da política partidária e os incentiva a isso. A política é uma forma de solidariedade. Já a vocação do padre é anunciar o Evangelho, administrar os sacramentos e estar a serviço do bem de todos, sobretudo, dos pobres.

12 - Qual o pecado capital de Brasília?
Brasília é o retrato do Brasil e o pecado capital é essa diferença social escandalosa e anti-cristã.

silvestre@gorgulho.com