Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Darcy Ribeiro

 

Silvestre Gorgulho (Brasília, 01  de março de 1997)

Hoje é dia de Páscoa. Dia de exorcizar a morte. Dia da Ressurreição. Dia da Vida. Feito imortal pela Academia Brasileira de Letras e considerado imortal pelos amigos, o Darcy Ribeiro parece que não nos deixou. Ele continua entre nós com seus delírios intelectuais, com suas declarações polêmicas e com sua obra fantástica. Para matar a saudade de sua irreverência e de sua inteligência, de sua ternura e de sua luta, a "Janela da Corte" se abre hoje para o educador, escritor, antropólogo, político, romancista e poeta Darcy Ribeiro que está com dois livros prontinhos para serem lançados: "Confissões", que conta toda sua história, e um livro de poemas "Eros e Tanatos", concluído há dois anos e que a família vai publicar.

Antes das perguntas, feitas evidentemente com a ajuda de São Pedro, pois Darcy morreu há um mês (fevereiro/1997) é bom saber duas coisas importantes: há exatos 33 anos, Darcy Ribeiro deixava a Chefia da Casa Civil do Governo João Goulart, deposto pela Revolução de 1964; e também vale a pena conhecer um pouco da sua biografia: Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, MG (26/10/1922) e graduou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia Política de São Paulo (1946) com especialização em Antropologia. Foi professor de Etnologia e Antropologia na Universidade do Brasil, primeiro Reitor da UnB e também romancista e indianista. Dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia. Neste período fundou o Museu do Índio e ajudou a criar o Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Viveu em vários países da América Latina onde, conduzindo programas de reforma universitária, com base nas idéias que defende em A Universidade Necessária. Foi assessor do presidente Salvador Allende, do Chile, e Velasco Alvarado, do Peru. Escreveu neste período os cinco volumes de seus Estudos de Antropologia da Civilização (O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina, Os Brasileiros: 1. Teoria do Brasil, e 2. Os índios e a Civilização), que têm 96 edições em diversas línguas. Foi Ministro da Educação (18/09/62 a 23/01/63) e Ministro Chefe da Casa Civil de Jango Goulart. Exerceu cargos Técnicos e Administrativos no Rio de Janeiro, foi Senador da República, eleito em 1991, e Membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1993. Darcy morreu em fevereiro de 1997, mas todas as respostas foram tiradas de seus livros e artigos.

1 - Darcy, o que mais lhe aborrece no Céu?
Ficar perto dos amigos que já vieram para cá, é ótimo. Ficar longe dos amigos que ficaram na terra, é ruim. Mas o que me aborrece mesmo, aqui no Céu, é Anjo não ter sexo.

2 - Agora já dá para fazer uma avaliação: qual foi o melhor momento lá na terra?
Olha, vivi muito porque vivi intensamente, porque trabalhei intensamente, porque amei intensamente. Foram muitos os momentos bons, mas aquele título de "Honoris Causa" que recebi da UnB foi especial. O Campus da UnB passou a ter o meu nome. A modéstia é uma atitude dos medíocres. Daqueles que estão contentes consigo mesmo e com o mundo. Não é comigo.

3 - Você sempre disse que o Senado é o paraíso. Diga aí: valeu a pena trocar de paraíso?
Essa pergunta é boa. Difícil de responder. Mas uma coisa é certa, já apresentei uns projetos para São Pedro para melhorar o paraíso de cá.

4 - O governador Cristóvam Buarque diz que você foi único. Foi exemplo. Soube gozar a vida e soube até zombar a morte. Para ele, você é imortal. É mesmo?
Imortal é quem planta e sabe cultivar o que plantou. E o Cristóvam está plantando uma semente fundamental em Brasília. A semente da Educação. O Cristóvam é meu amigo. Aqui mesmo na "Janela da Corte" ele já me homenageou dizendo que, na Educação, eu era o exemplo profissional do Brasil. Eu quero ajudá-lo a cultivar o que ele está plantando...

5 - Que tal ser imortal?
Olha, depois do nascimento, a morte é o episódio mais importante na vida do Homem. Passei pelos dois. Aliás, na Academia Brasileira de Letras também sou imortal. Depois da morte a gente vira santo, faz milagre e pode até nascer de novo. Se eu for nascer de novo, estou pensando nascer índio para escrever sobre os brancos.

6 - Darcy, o mundo ficou órfão de você. Você que já fugiu de hospital, não dá para dar uma fugidinha aí do Céu?
Por enquanto não. Estou curtindo meus amigos Araribóia, Cláudio Villas Boas, Carlos Drumond de Andrade, João Goulart, Tom Jobim, Austregésilo de Athayde, Oswald de Andrade, Callado, o Francis, Simonsen e muita gente mais.

7 - E como foi o encontro com o Carlos Drumond de Andrade?
Ótimo! Ele foi logo dizendo: - A cachoeira de Sete Quedas acabou. Mas você é o cara mais Sete Quedas que conheço. Não acaba!

8 - Você acha que a Vera Brant se chateou com sua brincadeira lá no hospital Sarah quando você disse para ela: - "Ô Verinha, vamos fazer uma troca. Você morre e eu fico por aqui".
A Verinha? Nunca! Você não conhece a Verinha. Ela é o único e verdadeiro Anjo que tem sexo!

9 - Diga uma coisa, Darcy: depois disso tudo, você acha que foi um vencedor?
Olha, tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não salvei. Tentei fazer uma universidade séria, fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas detestaria estar no lugar de quem me venceu.

10 - Aqui na terra você não perdia tempo. Amava seus projetos, seus livros, seus alunos, seus amigos, suas mulheres e seus sonhos. E agora?
Ah! agora é melhor. Quem morre antes tem uma vida eterna maior...

11 - Há dez anos Brasília foi declarada pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade. Valeu esse Tombamento de Brasília?
Se valeu! Só assim Brasília não será esquartejada. O Zé Aparecido fincou uma lança na lua...

12 - E a Fundação Darcy Ribeiro?
Espero que vá ficar lá no Campus da UnB. Quero que todos meus livros, meus quadros, meus objetos pessoais, minha vida vá lá para a Fundação. Sabe, vai ter até "Beijódromo", um pequeno anfiteatro ao ar livre para os estudantes olharem a lua, ouvirem músicas, estudarem, fazerem teatro e, evidente, se beijarem.

13 - E quais os próximos lançamentos?
Tenho dois livros que serão lançados em breve. Um de poesia "Eros e Tanatos" que é um negócio todo sem vergonha em que eu me entrego todo. E "Confissões", de 500 páginas, onde falo de todas as minhas vidas, desde Montes Claros, passando pela selva, pelos meus amigos, por Brasília, pelos meus inimigos, pelo exílio, pelo Rio, pela política e falo da minha guerra de 23 anos contra o câncer. Sem nenhum compromisso com a verdade histórica, mas sim com minha memória. Mas não é um livro de memórias, que é coisa de velho, de quem vai morrer. É um livro onde conto tudo. Uma confissão.

14 - Darcy, você não vai aparecer aqui? O Brasil está com saudades.
Vou aparecer, sim. Vou com o pessoal do MST que faz essa marcha para Brasília. Tenho que dar força a eles. Já imaginaram, eu - Sem Corpo - com o pessoal do Sem Terra!

15 - Agora, uma mensagem a seus amigos.
Prestem atenção e não se esqueçam nunca: os mortos são apenas invisíveis, mas não são ausentes.

silvestre@gorgulho.com