Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Gustavo Pena

 

Setembro 1996

Silvestre Gorgulho

Brasília está prestes a ganhar um novo monumento. Um novo espaço cultural para projeções multimídia, exposições, encontros e eventos: o “Monumento à Liberdade de Imprensa”, que ficará no Setor Sudoeste onde a Federação Nacional dos Jornalistas tem um terreno ou, como quer o Governador Cristovam Buarque, no Eixo Monumental, em frente ao Palácio do Buriti. Liberdade é como a luz do sol. Bate na cara. E este será um Monumento de luz para projetar a própria Liberdade. É um gesto em dois tempos, uma caixa de vidro especial translúcido, captando luz de um dos extremos, onde será fixado um fac-símile do 1o jornal impresso no Brasil. Um raio laser aponta o céu de Brasília, aponta o infinito como se apontasse, também, a busca permanente da Verdade e da Liberdade. E quem é o autor deste traço de luz que Brasília vai ganhar no Dia da Imprensa, em 10 de setembro de 1997, quando a Fenaj completará 51 anos? É o jovem arquiteto mineiro GUSTAVO PENNA que tem sua vida misturada com a arte, com a música, com a poesia e, não podia faltar, com a imprensa. Ele é neto de José Oswaldo de Araújo, poeta e fundador do Diário de Minas, que teve como colaboradores Carlos Drumond de Andrade, Otto Lara Resende e Fernando Sabino. Gustavo é filho de Roberto Penna, pioneiríssimo de Brasília e um dos construtores do Catetinho. Ele é pai dos projetos da Escola Guignard, da Casa do Jornalista de Minas, da Escola de Artes e Ofício, da Academia Mineira de Letra, do prédio da Rede Globo, em BH, da TV Bandeirantes-Morumbi. Carlos Drumond costumava dizer ... “Nem tudo está perdido em BH, pois os moços, como Gustavo Penna, apontam o caminho”. E Carlos Bracher pinta seu amigo como pinta esmeradamente seus quadros. Diz Bracher que “Gustavo tem a Arte do projetar, do refletir. Tem Arte no sangue. E no cérebro”. Para falar do Monumento, de Arquitetura, de Brasília, da Imprensa e da Liberdade, o arquiteto Gustavo Penna está hoje na JANELA DA CORTE.

1 - Duas coisas que mais o incomodam na arquitetura e no urbanismo de Brasília.
Essa briga feroz, que talvez pudesse ser evitada, entre a cidade ideal e a cidade real. A segunda coisa é, certamente, a tremenda confusão que isso causa.

2 - Quais os três arquitetos brasileiros que estão fazendo um trabalho de vanguarda, atualmente.
O mineiro Éolo Maia, o gaúcho Edson Mahfuz e o capixaba Alexandre Feu.

3 - Quais os três monumentos que mais lhe enchem os olhos no mundo?
Por razões profundas e pouco razoáveis: A Escola de Sagres, em Portugal; o Portal de São Francisco de Assis, em Ouro Preto; e quadro “La Danse de Matisse”, de Henri Matisse, hoje no Museu de Arte Moderna de Nova York.

4 - Dê 3 adjetivos que traduzem bem o seu “Monumento à Liberdade de Imprensa” ?
Prefiro três substantivos: Idéia, Nação e Liberdade.

5 - Dizem que a diferença entre o arquiteto e o jornalista é esta: o arquiteto acha que é o dono do mundo e o jornalista não quer nem saber quem é o dono do mundo. A causa disto é tanta Liberdade?
Quem falou isto não sabe como é penoso ser arquiteto ou jornalista em tempos tão materialistas. Como o jornalista, o arquiteto sintetiza as idéias. A Liberdade é poder expressar isso sem medo.

6 - Esse será o primeiro Monumento que o Governo do PT constrói em Brasília. Como se sente, vendo que o próprio Oscar Niemeyer foi preterido?
O convite foi da Fenaj - Federação Nacional dos Jornalistas, o que me honra e me entusiasma. Quanto ao mestre Oscar, que tanto admiro, este nunca será “preterido”.

7 - O Monumento à Liberdade de Imprensa será um espaço importantíssimo em Brasília onde está instalada a Radiobrás, o órgão oficial que só divulga as coisas boas de Governo e não trata das coisas ruins. Liberdade de Imprensa combina com Radiobrás?
A Hora do Brasil criada na ditadura de Vargas está com o tempo contado. O Monumento quer evocar um novo tempo. O tempo e a hora do Brasil ser grande, ser justo e ser feliz.

8 - Há conflito entre Brasília ser sede da Radiobrás e ser sede do Monumento de Liberdade da Imprensa?
Talvez sim. Mas os conflitos de idéias são fundamentos da Democracia.

9 - Qual é a maior censura à Imprensa: a política ou a econômica?
A censura política é mãe de todas as outras.

10 - Você diz que a liberdade de Imprensa é um caminho de vidro. Límpido, nítido mas delicado. Como o Monumento ajudará percorrer esse caminho, a favor da classe jornalística?
É uma forma clara, simples, concisa, como uma manchete permanente que nos lembra a luta dos idealistas, o que falta ainda conquistar é o necessário cuidado de toda a sociedade na preservação dos direitos da cidadania.

11 - Nos dois últimos anos, 241 jornalistas, em todo mundo, foram mortos no exercício da profissão. No Brasil foram sete. Como o Monumento reverenciará a memória destes profissionais?
O lugar é criado para a Memória que vive no encontro das pessoas, através de imagens, sons, documentos e esperança.

12 - Qual o pecado capital de Brasília?
O paradoxo que é termos espaços monumentais abrigando quase sempre sentimentos mesquinhos.

silvestre@gorgulho.com