Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Jack Correa

 

JACK CORREA: cidadão do mundo

Silvestre Gorgulho (outubro 1996)

JACK CORREA só podia ser um cidadão do mundo: nasceu em Curitiba, toda formação cultural e profissional foi nas Minas Gerais, durante vinte e um anos foi o brasileiro mais italiano (e vice-versa) da Fiat Automóveis, responsável, inclusive, por instalar, em 83, sua representação em Brasília, e agora, dia primeiro de novembro, Jack deixa a Fiat para assumir a Diretoria Institucional e Marketing da empresa mais popular do mundo: a Coca-Cola. Parece, mesmo, que este é o seu mês da sorte, pois em novembro Jack Corrêa vai virar escritor. Durante o IV Congresso Brasileiro de Cerimonial Público, em Belo Horizonte, estará lançando o livro “Sem Cerimônia”, dedicado aos amantes da Comunicação Social, com destaque para o setor de Relações Públicas e Cerimonial, documentando de maneira leve, didática e espirituosa as conflitantes relações do poder, as “sacais” liturgias das solenidades públicas, sem deixar de analisar um mercado que sempre está em alta: o mercado das vaidades. Portanto, ninguém melhor para abrir, sem nenhuma cerimônia, a JANELA DA CORTE deste domingo.

1 - Duas coisas que mais o incomodam numa solenidade pública?
Quando noto que quem a organiza perdeu o controle e quando os convidados não respeitam uma boa organização, que visa o seu conforto e a boa observação do evento.

2 - Duas coisas que mais o incomodam nas solenidades dentro do Palácio do Planalto?
Primeiro, o pouco cuidado com o sistema de sonorização. Por mim era tudo caixa Bose de última geração. A voz do Presidente da República merece. E, segundo, o convidado que acha que está na sala de estar de sua casa e fica tricotando no fundo do salão. O Presidente FHC teve razão ao passar um pito expresso em vários convidados que, animadamente, conversavam na posse de Raul Jungmann. Foi inusitado mas educativo.

3 - Cerimonial é sinônimo de organização ou é pura frescuragem?
É verdade que tem muita gente fresca aproveitando-se das funções do Cerimonial, mas quem trabalha sério e competentemente não aparece e engrandece a pessoa física ou jurídica a que serve. O Cerimonial do Itamaraty é exemplar, uma escola de verdade, que dá show em muito país de Primeiro Mundo.

4 - Sem cerimônia, dê o nome de profissionais que sabem trabalhar uma solenidade, fazendo do Cerimonial uma atividade correta e bonita. Três nomes de Brasília e três nomes de fora.
Em Brasília, a amizade pode causar suspeição, mas o Conselheiro Paulo Campos, o famoso “POC”, Chefe da Divisão de Visitas do Itamaraty, é imbatível na prática. Na teoria, o Embaixador Augusto Stellita Lins tem uma obra incomparável. Vale a pena lê-la. Já a Labor Consultoria de Relações Públicas usa toda a competência do Prof. Newton Garcia, o mais conhecido e respeitado expert da cidade. Fora da cidade, Marcílio Reinaux, Presidente do Comitê Nacional do Cerimonial Público-CNPC de Recife é daqueles valores tradicionais, que mais parecem uma enciclopédia. Sabe tudo! Ronan Ramos, Chefe do Cerimonial de Minas Gerais tem marcado a agenda de Eduardo Azeredo com eventos irrepreensíveis e, por fim, em homenagem à mulher brasileira: Vera Simão, do Cerimonial de Paulo Maluf, que tem uma classe de dar inveja, com um trabalho limpo e de alto nível. Tem mais moral e presença do que muito profissional que se acha bom de sela.

5 - Seu livro “Sem Cerimônia” será lançado agora em Belo Horizonte, durante o IV Encontro Nacional do Cerimonial Público. É um livro de causos muito interessantes sobre solenidades, sempre com uma “moral da história” que pode ser uma conclusão acadêmica. Dê três adjetivos para seu livro.
Prático, pois se aprende com casos do dia-a-dia. Divertido, pois todo erro, toda gafe tem seu lado hilário. Despretensioso, pois não visa ser best-seller, mas contribuir na formação dos profissionais de Comunicação Social e Cerimonial.

6 - Cerimonial é só importante no Governo e nas solenidades públicas ou também na iniciativa privada?
Na vida pública, a meu ver, deveria ser uma obrigação inarredável.
Na vida privada, sua atuação é prova de que há profissionais de nível, que se preocupam com a formação da imagem. No final, a boa imagem afeta até mesmo no incremento de vendas, direto sobre o produto.

7 - Dê três justificativas para que um Chefe de Governo ou um Presidente de uma grande empresa dê mais valor aos profissionais de Relações Públicas e que lidam com o Cerimonial?
Primeiro, a imagem é tudo: sem ela não há voto, não há venda e não há vantagem; segundo, quem prevê, não erra. E o presidente ou chefe de governo que se meter a prever e coordenar tudo, não terá tempo de governar ou administrar a atividade fim; E, terceiro, é muito bom ver tudo funcionar bem. Tira a ânsia e evita o stress. Quer testar? Experimente organizar ou participar de um evento mau organizado. Incomoda tanto quanto dor de dente.

8 - O que o povo gosta mais: de uma noiva sem cerimônia ou de um casamento cheio de cerimoniosos salameleques.
A solenidade perfeita é aquela que ninguém dá conta de quem a organizou. Tudo funciona a tempo e a hora, sem afetações pessoais. Casamento aparecem os noivos. Missa aparece o padre. Posse aparece o empossado. Julgamento aparece o juiz. Quando o locutor resolve fazer discurso, há alguma coisa errada!

9 - Conte o caso de uma oportunidade de marketing perdida e de uma imagem arranhada por um erro do Cerimonial.
O Presidente da República não ter recebido os Rolling Stones em Palácio foi demais! Toda uma geração que amou e bailou com Mick Jagger morreu de inveja de ver o Carlos Menem abraçado com seus ídolos na Casa Rosada, tão logo deixaram o Brasil e foram apresentar-se na Argentina. Também tem o caso de um ex-ministro do Governo Geisel que, desatento, foi de smoking no Itamaraty onde o jantar previa traje passeio completo. Sério e competente, amargou gozação e o conceito de desligado até o fim do governo. Não cito o nome porque ele ainda anda por aí. Só sei que ele nunca mais usou um smoking.

10 - Quem tropeça no Cerimonial cai na galhofa?
Se fosse só cair na galhofa estava bem. O pior é quando cai do cargo.

11 - Um nome que sabe fazer Brasília ser respeitada?
Juscelino Kubitschek de Oliveira.

12 - O “Tempra” é o senhor da razão ou a hora é da onça beber Coca-Cola?
O “Tempra” teve seu tempo e foi muito bom. Agora a onça vai beber Coca-Cola, porque Coca-Cola é isso aí.

13 - Quem passará a faixa presidencial para o Presidente da República reeleito?
Presidente reeleito nem precisa de faixa presidencial. Já vem enfaixado.

14 - Qual o pecado capital de Brasília?
Não ter o mar do Ceará, a comida de Minas, o dinheiro de São Paulo, o bronzeado do Rio, o friozinho de Gramado, a água de São Lourenço e o pé-de-moleque de Piranguinho.

silvestre@gorgulho.com