Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

LUIZ SIMÕES LOPES - Entrevista

 

 

 

O HOMEM QUE PENSOU O BRASIL

 

Entrevista LUIZ SIMÕES LOPES

 

Por Silvestre Gorgulho

 

Silvestre Gorgulho e o professor Luiz Simões Lopes

 

 

 

( Rio de Janeiro – Junho de 1989) Mais atual, difícil. Mais oportuno, nunca. Quando vemos hoje a ONU e outras entidades propondo estratégias para se obter um desenvolvimento sustentável, recomendando maneiras e ajudando a definir noções comuns relativas a questões ambientais, não podemos imaginar que, neste mesmo Brasil, tão alvo de agressões do exterior, há 59 anos, precisamente em março de 1930, um brasileiro reformista, inconformado, empreendedor e sonhador já estava lutando pela nossa natureza. É fantástico ver que, este brasileiro, com 86 anos, despachando oito horas por dia em seu gabinete, ainda propõe soluções para o hoje e para o amanhã, com a mesma serenidade, lucidez e competência com que, em julho de 1938, por exemplo, promoveu o divisor de águas da administração pública brasileira com a criação do DASP, ou quando assinou a Exposição de Motivos ao presidente da República, para a criação da Fundação Getúlio Vargas.

 

 

 

O professor Luiz Simões Lopes, gaúcho, agrônomo formado em Belo Horizonte, um dos criadores da FBCN - Fundação Brasileira para Conservação da Natureza, mentor e primeiro diretor geral do Serviço Florestal, lançador de revistas sobre cultura e educação, como a Revista Florestal, de onde foram tiradas estas citações, desde a década de 20, sinalizava, pela primeira vez no País, "que a Terra era uma bola frágil e pequena, dominada não pela ação e pela obra do homem, mas por um conjunto ordenado de nuvens, oceanos, vegetação e solos" (Comissão Brundtland-1988) Simões Lopes vislumbrou, desde então, a grandiosidade desta tarefa. A humanidade precisava agir conforme essa ordenação natural. Há mais de meio século, este brasileiro - único na sua medida do País - deu seu grito de alerta. Viva a vida... Silvestre Gorgulho foi até sua sala na FGV, no Rio, e conversou com o professor.

Eis a entrevista publicada na Folha do Meio, em 1989:

 

 

 

FMA - Seu pai, Idelfonso Simões Lopes, foi ministro da Agricultura de Epitácio Pessoa. Este fato influenciou sua formação de agrônomo?
Simões Lopes -
 Não, talvez tenha me interessado por agronomia, porque meu irmão mais velho estudou agronomia na Argentina. E, também, porque nós tínhamos fazenda. Formei-me em Belo Horizonte, mais fui aluno da Escola Luiz de Queiroz, em Piracicaba. Lá fui presidente de uma associação de classe, que estava parada e que incluía também professores da escola. Consegui uma coisa muito importante que foi reviver a revista da associação que se chamava "O Solo". Sou um criador de revistas. Em Niterói, trabalhei na revista "A Rama" e, no Ministério da Agricultura, criei a "Revista Florestal".

 

 

 

FMA - Todos os movimentos de saúde, de educação, de cultura e de valorizado do patrimônio têm seu apoio. Há 31 anos o senhor criou a FBCN...
Simões Lopes -
 Não, eu não fui o criador. Fui um dos que tomou parte naquele movimento. A fundação foi criada por um grupo grande. Nesta época, eu trabalhava com e presidente JK.

 

 

 

FMA - Quando o senhor começou a trabalhar com floresta?
Simões Lopes -
 Eu fui, em 1925, oficial do Gabinete do ministro Miguel Calmon. Fui convidado para ser secretário da Comissão, que ele tinha designado para preparar a legislação inicial do Serviço Florestal.

 

 

 

FMA - O senhor também foi o criador de várias revistas.
Simões Lopes - 
É que eu já tinha um interesse muito grande pelo assunto. Em 1930, eu já tinha a "Revista Florestal". Este aqui é um número bonito que consegui fazer (mostrando o exemplar). Eu era o diretor técnico, e o Francisco Rodrigues de Alencar, o gerente. Foi em 1930, era impressa no Rio de Janeiro e à minha custa.

 

 

 

FMA - Como compatibilizar ecologia e desenvolvimento?
Simões Lopes - 
Não há incompatibilidade. O território onde está situado Berlim, uma das grandes cidades do mundo, tem 75% de cobertura florestal.

 

 

 

FMA - Como o senhor vê a ocupação da Amazônia?
Simões Lopes - 
Considero uma destruição. Ela deveria ser ocupada, mas de maneira racional. A tecnologia tem que ir na frente. Conservando as matas densas, explorando, de maneira racional, as florestas. As nossas florestas, inclusive, são muito ricas até em remédios. Tirar uma floresta nativa e substituí-la por uma floresta produtiva é perfeitamente justificável. É só fazer um manejo. As árvores também têm vida e não vivem para sempre. Há uma certa época em que elas podem ser cortadas.