Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Oliveira Bastos

Evandro de OLIVEIRA BASTOS nasceu no Pará, colonizado por franceses, e talvez por essa herança cultural tenha sido o maior crítico literário brasileiro, antes de ser o diretor de jornais importantes de todo o País, inclusive este Jornal de Brasília. Fundou uma enorme escola de Jornalismo, sem cadeiras e sem diplomas. Descobriu, por exemplo, o incrível poeta maranhense da virada do século, Sousândrade, e o revelou aos irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Foi secretário de Oswald de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, Anísio Teixeira e Roberto Campos. Conviveu com Governos e Presidentes e está preparando suas memórias num livro sobre Imprensa e o Poder. Aliás, um livro muito esperado por quem admira a pena ferina de um dos textos mais brilhantes do País. Hoje é a vez de Oliveira Bastos debruçar-se sobre a Janela da Corte.

1 - Duas coisas que mais o incomodam em Brasília.
Em primeiro lugar o clima de secura, acompanhada de frio e ventos. Incrível como a meteorologia e os veículos de comunicação ainda associam “tempo bom” à ausência de chuvas...
Outra coisa detestável, pelo ridículo, é a caricatura em que se transformam muitas pessoas que perderam o poder e necessitam mostrar que ainda possuem alguma importância, como se o poder fosse a melhor, ou talvez a única característica de suas personalidades. Drumond dizia: “Como são tristes as coisas (quando) consideradas sem ênfase”.

2 - Duas coisas que mais o incomodam no Governo Cristovam.
Primeiro, não ser Governo. Depois pensarem que o governo é do Cristovam.

3 -Quem precisa cair no Real?
A sociedade brasileira que está custando a entender que um Presidente como Fernando Henrique não acontece em todas eleições.

4 - Para quem vai a Medalha de Ouro e a Medalha de Lata no Governo de Brasília, na equipe de FHC, no Congresso e na Imprensa?
Pensar coisas tão sérias em termos de medalhinhas é ridículo. Depois, corre-se sempre o risco da síndrome de Zagalo que consiste em destinar medalhas de ouro a quem nunca mereceu a de lata.

5 - Um recado para o governador Cristovam Buarque.
Mestre: faça uma reforminha agrária no DF, começando pelas “posses” improdutivas e pelos arrendamentos não cumpridos. Tem muito chão bom de palanque...

6 - Quais foram o pior e o melhor Governador de Brasília?
Brasília sempre foi bem administrada e por dois motivos: sempre teve recursos e sempre foi muito vigiada e até perseguida pela opinião pública nacional. Mas o Roriz, realmente, mudou o metabolismo da cidade, tirando-a da fantasia (“Capital da Esperança”) e fincando-a de vez na pobre realidade de Goiás. Foi o maior de todos os governadores, mas dizem que quer voltar, o que seria um erro trágico. Sua campanha, com os bandidos que ele deixou órfãos, não seria eleitoral mas criminal.

7 - Dois nomes que sabem fazer Brasília ser respeitada lá fora?
Kássia Éller e Joaquim Cruz.

8 - Quem daria um bom governador de Brasília?
O Cristovam.

9 - Quem jamais deveria governar Brasília?
Quem quer muito ser governador. A escolha deveria sempre recair em alguém que não queira. Não é assim que são escolhidos os Papas? Talvez, por eleger os que não querem ser Papa, a Igreja tem 2.000 anos e seus Chefes são infalíveis.

10 - Qual o pecado capital de Brasília?
Não ter estrutura para estimular os pecados veniais, ligados ao ócio com dignidade.

11 - O brasileiro quer revolução ou quer espetáculo?
O velho Rivarol disse que o povo não se interessa por revoluções, mas pelo seu espetáculo. Os Sem Terra parecem confirmar isso. Brasília, como cidade, é uma revolução que precisa de espetáculos. Tudo aqui, com exceção da cidade e do pôr-do-sol, é medíocre. Como a cidade é monumental, a vida transcorre nesse limite perigoso entre o tédio e o deslumbramento. É preciso fazer a cidade chegar ao povo. Até hoje o Lago Paranoá é uma miragem para a maioria dos brasilienses. Pode?!

silvestre@gorgulho.com