Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

CORREIO BRAZILIENSE - ONTEM E HOJE - DE 1808 e de 1960

 

DE LONDRES, O CORREIO BRAZILIENSE LUTA PARA FAZER DO BRASIL UMA NAÇÃO

FROM LONDON, CORREIO BRAZILIENSE STRIVES TO TURN BRAZIL INTO A NATION

 

Silvestre Gorgulho Jornalista e ex-Secretário de Estado de Cultura de Brasília (Journalist and former Brasília Culture Secretary)

 

Trabalhando sozinho, em difíceis condições, Hipólito José da Costa conseguiu produzir em Londres 175 edições de seu Correio Braziliense, um jornal que se tornou a melhor fonte de notícia de uma época turbulenta.

Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (17741823) inaugurou o jornalismo no Brasil com o Correio Braziliense - Armazém Literário guiado por seu pensamento liberal inglês, da monarquia limitada e repelindo as tendências revolucionárias e democráticas da igualdade rousseaunista. Formado em Coimbra, com um estágio de estudos nos Estados Unidos, Hipólito José da Costa buscou de todas as maneiras conduzir a construção do Brasil como Nação. Editado em Londres entre 1808 e 1822, o Correio Braziliense, segundo o diplomata e doutor em Ciências Sociais Paulo Roberto de Almeida, foi mais importante para o Brasil do ponto de vista das lutas políticas e jornalísticas pela liberdade de expressão do que como arauto de políticas ou doutrinas econômicas e comerciais.

O PRIMEIRO CORREIO BRAZILIENSE

O primeiro Correio Braziliense foi impresso na Inglaterra devido à Censura Régia que proibia a presença de tipografias na Colônia. Qualquer material impresso, que não tivesse a aprovação oficial, era considerado de caráter subversivo. O desrespeito a essa lei, imposta pela Coroa Portuguesa em 1747, trazia, de alguma forma, resultados funestos a qualquer indivíduo que se atrevesse a descumpri-la. Um exemplo de perseguição foi o que ocorreu, em 1747, no Rio de Janeiro, com Antônio Isidoro da Fonseca, responsável pela impressão do primeiro folheto no Brasil, Relação da Entrada. Antônio Isidoro foi punido, sua tipografia confiscada e ele obrigado a retornar para Portugal.

175 EDIÇÕES

O Correio Braziliense - Armazém Literário (1808-1822) circulou em 175 edições de 80 a 140 páginas cada volume. Foi uma verdadeira enciclopédia, “na qual seu diretor, redator e revisor registrou, em Português, a partir de Londres, os fatos mais importantes no aspecto sociopolítico, cultural e econômico que ocorreram naquele período da nossa História” (Raul Quevedo (1926-2009), em seu livro Em Nome da Liberdade / A saga de Hipólito da Costa, editado em 1997). As ideias liberais de Hipólito José da Costa foram importantíssimas para dois fatos que fizeram o Brasil maior:

1) Influenciaram a elite política responsável, em 1822, pela “Independência do Brasil”.

2) Motivaram a transferência da Capital para o Brasil Central e a construção de Brasília.

PRAGMATISMO E BOM SENSO

O mensário Correio Braziliense foi um prodígio. Era trabalho de um homem só. Hipólito José da Costa dependia de informações que vinham do Brasil e de Portugal — e que, depois de processadas e impressas, eram enviadas aos assinantes pelos navios ingleses que frequentavam a Costa brasileira. Para o diplomata e pesquisador Paulo Roberto de Almeida, um estudo sobre o pensamento econômico de Hipólito José da Costa ainda “está por ser feito, mas não parece deslocado afirmar que ele ostentava o mesmo pragmatismo e bom senso que o caracterizavam na área política, combinando um liberalismo de princípio com a aplicação de algumas medidas ‘industrializantes’ que ele tinha observado nos Estados Unidos”.

ARMAZÉM LITERÁRIO

Explica o escritor Mecenas Dourado, autor do livro Hipólito da Costa e o Correio Braziliense que as páginas do jornal sobre política eram mais imponentes que as páginas comerciais.  “Ocorria, também – diz Mecenas Dourado – que muitos instrumentos econômicos ou comerciais eram por ele transcritos na seção ‘miscelânea’ do Correio, em meio a comentários sobre eventos de natureza política, o que confirma a confecção artesanal do seu ‘Armazém Literário’. “Em diversos números do Correio, a seção comercial abrigava informações práticas sobre os preços de mercadorias de interesse do Brasil na praça londrina, dados que constituíam uma espécie de pesquisa de mercado à intenção dos comerciantes e um levantamento das restrições não tarifárias aplicadas a produtos de produção brasileira que entrassem em competição com mercadorias similares vindas das colônias britânicas do Caribe”.

DEFESA DA MUDANÇA DA CAPITAL

O sonho da mudança da capital para o interior já estava na pauta dos Inconfidentes Mineiros. Os depoimentos contidos nos “Autos da Devassa” mostram que a interiorização da capital do Brasil Independente fazia parte do ideário de Tiradentes.

Justamente por esse motivo, a mudança da capital para o interior do País assumiu a conotação de elemento subversivo da ordem colonial. Este sonho da instalação da Capital no interior ficou adormecido até 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa e a instalação do Reino Unido de Portugal e Algarves. O motivo era claro: a cidade do Rio de Janeiro foi considerada imprópria para abrigar a Corte Portuguesa (SILVA, E. 1999, p. 24).

A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA CIDADE

Hipólito José da Costa tornou-se um dos mais entusiasmados defensores da transferência da capital para o interior. Para ele, a elevação do Brasil à categoria de sede do Reino Unido de Portugal e Algarves era prenúncio de transformações ainda mais significativas que acabariam por concretizar a independência política brasileira. Por isso, em 1813, nas páginas do Correio Braziliense, Hipólito José da Costa defendia a transferência da capital do Reino Unido de Portugal e Algarves para uma região mais aprazível, localizada precisamente nas “cabeceiras do São Francisco” (OLIVEIRA, apud SILVA, E., 1999, p. 24-25). Importante salientar que Hipólito da Costa pelo seu Correio Braziliense defendia a construção de uma nova cidade e não a mera transferência da capital para uma cidade já existente. Ele citava como exemplo bem-sucedido o caso da construção de Washington, concebida com o fim específico de sediar a capital dos Estados Unidos da América, país que havia conquistado há pouco mais de 30 anos a sua independência da Inglaterra. (OLIVEIRA, apud SILVA, E., 1999, p. 30).

CORREIO BRAZILIENSE DE ONTEM E DE HOJE

O tempo passou. Ainda na construção de Brasília, o presidente da República, Juscelino Kubitschek, chama o maior empresário de comunicação do Brasil, Assis Chateaubriand (1892-1968) e lhe faz um desafio: criar um jornal para a nova capital. Na época, o mega empresário tinha sob seu comando o grupo Diários Associados que administrava 34 jornais, 36 emissoras de rádio e 18 canais de televisão. Assis Chateaubriand, ex-embaixador do Brasil em Londres, topou o desafio. E escolheu para nome do jornal justamente o histórico mensário publicado em Londres por Hipólito José da Costa. Motivo: além de ter sido o pioneiro da imprensa brasileira, os escritos de Hipólito José da Costa defendiam ideias favoráveis à transferência da capital do Rio de Janeiro para o interior. Assis Chateaubriand decidiu retomar o título, aproveitando o termo braziliense que começava a ser empregado pelos moradores da cidade em construção.

 

FROM LONDON, CORREIO BRAZILIENSE STRIVES TO TURN BRAZIL INTO A NATION

 

Working alone and facing enormous difficulties, Hipólito José da Costa managed to print 175 issues of the Correio Braziliense in London. His publication became the best news source at a turbulent time.

Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (17741823) was a pioneer in Brazilian journalism with his Correio Braziliense – Literary Warehouse. His political and economic views were strongly influenced by English liberalism, which advocated for a limited role for the monarch, while repelling Rousseau’s revolutionary and democratic fight for equality. After obtaining his degree from the Coimbra University, Hipólito José da Costa continued his studies in the United States, and later sought in every way to support the construction of the Brazilian nation. According toPaulo Roberto de Almeida, diplomat and doctor in Social Sciences, the Correio Braziliense, published in London between 1808 and 1822, was very important to Brazil – more in terms of its support for political and journalistic fights for freedom of expression than as a herald of economic or commercial policies or doctrines.

THE FIRST CORREIO BRAZILIENSE

The first Correio Braziliense was published in England due to the Royal Censorship Act imposed by the Portuguese Crown in 1747, which banned printing in Portuguese colonies. Any printed material lacking official approval was considered subversive, and any individual daring to breach the law would suffer disastrous consequences. A clear example of such persecution took place in 1747, in Rio de Janeiro. It affected Antônio Isidoro da Fonseca, responsible for the first booklet ever printed in Brazil, ‘Relação da Entrada’. Antônio Isidoro was punished, his printing press was confiscated, and he was forced to return to Portugal.

175 ISSUES

In total, 175 issues of the Correio Braziliense – Literary Warehouse were published between 1808 and 1822, containing from 80 to 140 pages each. ‘It was a true encyclopaedia. From London, its director, editor and reviewer recorded – in Portuguese – socio-political, cultural and economic aspects of the most important events taking place in that period of our history’ [Raul Quevedo (1926-2009), in his book ‘In the Name of Freedom / The Saga of Hipólito da Costa’, published in 1997]. Hipólito José da Costa’s liberal ideas were very important for two reasons, which helped to raise Brazil’s international profile: 1) They influenced the political elite that, in 1822, supported the ‘Independence of Brazil’. 2) They motivated the transfer of the capital to central Brazil and the construction of Brasília.

PRAGMATISM AND COMMON SENSE

The monthly Correio Braziliense was the work of one man only – a real prodigy. Hipólito José da Costa had to rely on information he received from Brazil and Portugal. After processing such information, he would print the papers and send them back to his subscribers via English ships that sailed to the Brazilian coast. For diplomat and researcher Paulo Roberto de Almeida, a study on the economic views of Hipólito José da Costa ‘is yet to be developed, but it does not appear inappropriate to claim that he displayed the same pragmatism and common sense (regarding the economy) as he did in the political arena, combining liberalism – in principle – with the implementation of some ‘industrialising’ measures he had observed in the United States’.

LITERARY WAREHOUSE

Mecenas Dourado, author of the book Hipólito da Costa and the Correio Braziliense, explains that the political pages of the newspaper were more important than the commercial ones. ‘In addition,’ says Mecenas Dourado, ‘many economic or commercial articles were included in the ‘miscellaneous’ section of the paper, amidst comments on political events, which confirms the idea that his ‘Literary Warehouse’ was truly artisanal. In several issues, the commercial section contained practical information on the London prices for goods of interest to Brazil. Thus, they served the purpose of a market research on business intentions and a survey on non-tariff restrictions applying to Brazilian products that directly competed with similar goods from British colonies in the Caribbean’.

IN SUPPORT OF A NEW CAPITAL

The dream of moving the capital to the hinterland was already on the agenda of the Inconfidentes. The statements contained in the ‘Autos da Devassa’ (the proceedings of the court case filed by the Portuguese Crown against the rebels) confirm that establishing the capital of Independent Brazil in the hinterland was already part of Tiradentes’ plan. Precisely for this reason, moving the capital was seen as an act of subversion against the colonial order. The dream of establishing the capital in the hinterland remained dormant until 1808, when the Portuguese Royal Family moved to Brazil and installed the United Kingdom of Portugal and Algarves. The reason was very clear: the city of Rio de Janeiro was considered improper to house the Portuguese Court (SILVA, E. 1999, p. 24).

THE CONSTRUCTION OF A NEW CITY

Hipólito José da Costa became one of the most enthusiastic supporters of transferring the capital to the hinterland. For him, raising Brazil to the status of capital of the United Kingdom of Portugal and Algarves was an indication of even more significant transformations that would eventually bring about Brazil’s political independence. Hence, in 1813, in the pages of his Correio Braziliense, Hipólito José da Costa supported transferring the capital of the United Kingdom of Portugal and Algarves to a more pleasant region, located near the ‘headwaters of the São Francisco River’ (OLIVEIRA, apud SILVA, E (I.e., 1999, p. 24-25). It is important to point out that Hipólito da Costa advocated for the construction of a new city and not the mere transfer of the capital to an already existing city. He cited the successful example of Washington DC, designed with the specific purpose of hosting the capital of the United States of America, a country that, at the time, had been independent from England for little more than 30 years (OLIVEIRA, apud SILVA, E., 1999, p. 30).

CORREIO BRAZILIENSE YESTERDAY AND TODAY

That was a long time ago. During the construction of Brasília, President of the Republic Juscelino Kubitschek, called Assis Chateaubriand (1892-1968), then Brazil’s top communications entrepreneur, and presented him with a challenge: creating a newspaper for the new capital. At the time, Chateaubriand headed a media group known as Diários Associados (Associated Press), which managed 34 newspapers, 36 radio stations and 18 television channels. Assis Chateaubriand, who had also been Brazil’s Ambassador to the UK, accepted the challenge, and decided to name his newspaper after the monthly publication run by Hipólito José da Costa in London. There was a reason for that: besides being the pioneer of Brazilian press, Hipólito José da Costa had always been favourable to the idea of transferring the capital from Rio de Janeiro to the heart of Brazil. Another reason behind Chateaubriand’s decision to use the same title was the fact that Braziliense, a term which formerly meant ‘Brazilians’ in general, was now being used to refer to the residents of the new city under construction.

Legendas de fotos

Fac-simile de algumas páginas do Correio Brazilliense - Armazém Literário , que circulou de 1808 a 1822, em 175 edições de 80 a 140 páginas cada volume. O mensário de Hipólito José da Costa era uma verdadeira enciclopédia com fatos sociopolíticos, culturais e econômicos que ocorriam naquele período da História do Brasil.

Facsimile of some pages of Correio Brazilliense - Literary Warehouse , which circulated from 1808 to 1822. In total, 175 issued were published, with 80 to 140 pages each. Hipólito José da Costa’s monthly publication was a veritable encyclopaedia focused on Brazil’s socio-political, cultural and economic life.

 

Foto - Pedra fundamental CB 1959

O presidente Juscelino Kubitschek prestigia o lançamento da Pedra Fundamental do Correio Braziliense, em Brasília, em 13 de setembro de 1959. Na foto, Teresa Medeiros Calmon, esposa de João Calmon, também pega sua “colher de pedreira” e, com cimento e cascalho, fecha a urna da pedra fundamental. Além de JK, dona Sarah, a filha Márcia, estão na linha de frente o cearense Francisco Martins, Diretor de Redação do Diário de São Paulo e João de Medeiros Calmon, Diretor-Geral dos Diários Associados representando Assis Chateaubriand, que estava em Londres. Entre João Calmon e Francisco Martins está a filha de JK, de cabelos pretos, Maria Estela.

Maria Estela Kubitschek Lopes recorda que a solenidade foi muito tocante por estar no meio de uma floresta de árvores contorcidas do Cerrado. “Uma coisa inacreditável!”. E a cerimônia foi encerrada com as palavras de JK: “Estamos aqui – minha família e a família dos Associados - vivendo um momento histórico. Estamos plantando o quarto poder da República. Neste chão, nesta cerimônia cívica, plantamos mais do que uma pedra fundamental. Plantamos a esperança do empreendedorismo do novo Brasil que nasce no coração do Cerrado. Informações, notícias, com críticas ou não, são alicerces da Democracia. O mundo real da divulgação, dos informes, das notícias e das análises jornalísticas representam a vigília da sociedade e a memória de um povo”.

President JK attended the Correio Braziliense’s foundation stone laying ceremony in Brasília, on 13 September 1959. In the picture, Teresa Medeiros Calmon, João Calmon’s wife, holds a trowel and covers the foundation stone with mortar and gravel. In addition to JK, his wife Sarah and his daughter Márcia, in the foreground of the picture we can see Francisco Martins, Editor of the Diário de São Paulo, and João de Medeiros Calmon, Director General of Diários Associados, representing Assis Chateaubriand, who was in London at the time. The dark-haired lady between João Calmon and Francisco Martins is Maria Estela, JK’s older daughter.

Maria Estela Kubitschek Lopes recalls that it was a very touching moment. They were surrounded by wild cerrado vegetation, mostly contorted trees. ‘It was unbelievable!’. JK closed the ceremony with the following words:  ‘We are here – my family and the Associados – witnessing a historic moment. We are planting the seeds for Brazil’s fourth branch of power. On this ground, in this civic ceremony, we have placed more than a foundation stone. We have planted our hope in the entrepreneurship of a new Brazil, born in the heart of the cerrado. Information – whether praising or criticising us – is the very foundation of Democracy. In the real world, disclosure, reporting, news, and journalistic analyses represent the watch of society and the memory of a people’.

 

Foto: Primeira página CB 21 de abril 1960

Página da primeira edição do Correio Braziliense , jornal inaugurado em 21 de abril de 1960,  no mesmo dia da inauguração de Brasília.

First issue of Correio Braziliense , the local newspaper launched on 21 April 1960,  the same day when Brasília was inaugurated.