Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Oscar Niemeyer

 

NIEMEYER: O MESTRE DO CONCRETO

Silvestre Gorgulho (dezembro de 1997)

Aos 90 anos ele continua um jovem revolucionário. E de uma coerência política que faz inveja. Trabalhando normalmente, ou melhor, trabalhando anormalmente 12 horas por dia, Oscar Niemeyer surpreende a família, os amigos e os admiradores a cada momento. De carro, como sempre, veio na segunda-feira do Rio para passar esta semana em Brasília. Saiu de Ipanema às 5 horas da manhã e, à tardinha, já estava aqui. Deixou sua filha Ana Maria Niemeyer no hotel e avisou: - Fica aí descansando um pouquinho que eu vou visitar umas obras. Assim é Oscar, um gênio da raça, segundo Darcy Ribeiro. E para o ex-senador, o único brasileiro a ser lembrado no Ano 3.000. Lembrado ou não nos próximo milênios, o fato é que o arquiteto maior, Oscar Niemeyer Soares Filho, carioca, que dia 15 de dezembro completa 90 anos, é referência mundial. Suas obras estão espalhadas por este mundo a fora: no Brasil, na Europa, no Oriente Médio, na África e nos Estados Unidos. Prêmios? Já recebeu os mais importantes e nem vale a pena enumerar. De Oficial da Legião de Honra da França, passando pelo Pritzker de Arquitetura dos EUA até chegar ao de Comendador da Ordem de São Gregório Magno, do Vaticano. Durante esta semana, quando o Legislativo, o Executivo e toda a sociedade de Brasília desdobrou-se em homenagens a Oscar Niemeyer, ficaram várias lições para nossa geração: Primeiro: Oscar, onde coloca sua prancheta, onde deixa a tinta de sua pena, onde põe sua marca, faz qualquer um sonhar. Segundo: do cimento ele tira imagens leves, verdadeiras asas que ensinam a voar...Terceiro: nas suas poesias ele projeta o protesto pelas desigualdades, a revolta pelas injustiças e acende na alma de cada um o desejo de luta. De revolução. Nada de se conformar, porque há de ter um jeito de se fazer esta vida melhor. Antes de voltar para o Rio, de carro evidentemente, Oscar Niemeyer abriu esta JANELA DA CORTE e deixou recados importantes. Confira.

1 - Fazer 90 anos em plena forma. Qual o segredo?
Pensar que tem 60 anos.

2 - O que é melhor no Rio e ruim em Brasília. E vice-versa?
O que é bom no Rio é o mar, as praias, a natureza convidando o carioca a brincar um pouco. Em Brasília, são os habitantes satisfeitos em morar nesta cidade. E ver que ela provoca desenvolvimento nas cidades vizinhas, conforme JK previa. Ruim para as duas, para todo o País, é a miséria que cresce e se multiplica.

3 - Qual a maior lição de vida que o senhor pode nos dar depois de viver 90 anos?
Desprezar os 90 anos e viver como se tivesse 60.

4 - Qual o trabalho que lhe deu maior realização profissional?
Cada projeto tem objetivo diferente. É difícil compará-los. Mas quando a idéia é inovadora, sua realização correta e sem modificações, é claro que fico satisfeito.

5 - Sua luta maior é pela justiça social. Quando o Homem vai conseguir ficar livre das amarras de tanta opressão?
A luta não é minha, mas de todos que não aceitam a miséria em protesto e se manifestam.

6 - Brasília foi uma utopia social?
Brasília foi o sonho predileto de JK. Criou progresso nas cidades vizinhas, mas os pobres, os que de longe a procuraram, pensando ser ela a terra da promissão, continuam pobres como antes.

7 - O que representou a nova Capital Brasileira nesta luta por uma vida mais digna?
Nada! É uma cidade capitalista, uma cidade de ricos e pobres, apenas isso. A cidade do futuro será feita em bases e programas diferentes, voltada para o povo e não para uma minoria privilegiada.

8 - Lúcio Costa fez um plano urbanístico inovador que correspondeu a uma arquitetura igualmente arrojada. Brasília foi o maior desafio de sua vida?
Não. Foi uma aventura. Uma aventura coberta, como a própria vida, de alegrias e tristezas. Prevaleceu o entusiasmo e, durante muito tempo, um otimismo que até então desconhecíamos.

9 - O que mais lhe incomoda na Brasília de hoje?
Como arquiteto, não ver o Eixo Monumental terminado, e a idéia de que a unidade arquitetural que deveria caracterizá-lo está ameaçada demais. Vale explicar: unidade arquitetural existe, quando um grupo de edifícios se correspondem plasticamente.

10 - Qual o pecado capital do capitalismo?
É a desigualdade, a falta de solidariedade entre os homens, a ignorância dos mais ricos que deveriam olhar para o Céu, para este universo fantástico e compreenderem que não têm importância nenhuma. Diante dele são pequeninos demais.

11 - Toda vez que o senhor vem a Brasília, vem de carro. Qual a emoção que o senhor tem quando começa a ver lá de longe esta cidade que o senhor ajudou a construir e que, com apenas 37 anos, já conta com dois milhões de habitantes?
Quando eu penso que Brasília foi construída em quatro anos apenas, e a vejo de longe, surgindo, parece-me que um milagre qualquer aconteceu.

12 - A Catedral de Brasília é símbolo de beleza, de leveza, uma manifestação do espírito, da imaginação, da poesia e da fé. Tantas características são bases para uma boa arquitetura?
Quando não há invenção, criatividade, poesia não há arquitetura.

13 - Dizem que quando o Papa João Paulo II veio pela 1a vez a Brasília ele ficou encantado com a Catedral. Aí ele cochichou com o D. Ávila: - “O arquiteto da Catedral deve ser de uma sensibilidade religiosa muito grande!” Os Céus lhe inspirou neste projeto?
Realmente a idéia de que os que tivessem na nave pudessem ver os espaços infinitos, foi uma solução que me ocorreu e me agradou muito.

14 - Um conselho para que o mundo seja um pouquinho melhor.
Quando a sociedade se degrada, a miséria se multiplica e a esperança foge do coração dos homens, a solução é a revolução.

silvestre@gorgulho.com