Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Vladimir Carvalho

 

VLADIMIR CARVALHO , memória do cinema brasiliense

 

Silvestre Gorgulho (01/09/1996)

A atuação de VLADIMIR CARVALHO tem dois aspectos importantes: sua obra cinematográfica e sua militância no meio cultural de Brasília. Como cineasta, Vladimir se destaca pela dedicação ao filme documentário e nestes 30 anos de realizações construiu uma obra singular. Seus principais longas-metragens: “O País de São Saruê”, “Conterrâneos Velho de Guerra” e “O Evangelho Segundo Teotônio”. Outro aspecto é o Vladimir fermentando e fertilizando a atividade cinematográfica no DF. Já formou 3 gerações de técnicos e cineastas, fundou a Associação Brasiliense dos Produtores de Cinema e Vídeo, lançou a idéia do Pólo de Cinema, inventou o Festival Brasiliense de Cinema e criou a Fundação Cinematográfica do DF, onde tem bibliotecas, salas de leitura e de projeção. Edita revista e embala dois sonhos: reunir o acervo da memória cinematográfica de Brasília e o de ser sua própria casa, pois é na Fundação que ele come, dorme e até sonha na vida real. São estes sonhos e estas realidades do DF que Vladimir traz hoje para a Janela da Corte.

1 - Duas coisas que mais o incomodam em Brasília.
Os meses de seca, quando a paisagem calcinada concorre para a depressão e outros achaques. É como atravessar o deserto sem a motivação da aventura. É o declínio da qualidade de vida depois do inchaço da periferia.

2 - De 1 a 10 dê sua nota para essas personalidades:
Fernando Henrique: 5
Governador Cristovam Buarque: 9
Senador Lauro Campos: 8
Senador Arruda: 8
Senador Valmir Campelo: 3
Joaquim Roriz: 3
Ministro Francisco Weffort: 5
Vice-Governadora Arlete Sampaio: 6
Deputado Luiz Estevão: 1
Paulo Octávio: 1
Jarbas Passarinho: 3
Darcy Ribeiro: 10
J.Carlos Azevedo: Zero

3 - Quais foram o pior e o melhor Governador de Brasília?
O óbvio ululante: Roriz é o lanterninha, imbatível, por sua herança maldita, a bomba de efeito retardado que nos legou com seu populismo irresponsável. Cristovam sairá nos braços do povo, como entrou.

4 - Um nome que sabe honrar o nome de Brasília?
O arquiteto Filgueiras, o Lelé.

5 - Alguém chegou pela primeira vez em Brasília e disse: “Essa parece uma cidade cenográfica. Quando acabar o filme vão desmanchar tudo”. Você tem essa impressão?
Pelo jargão do cinema: Brasília foi uma superprodução bancada por JK, com roteiro de Lúcio Costa e direção de Niemeyer. Não emplacou na bilheteria; é um “miura” urbanístico, um belo “filme”, ao mesmo tempo obra aberta e hermética. O Brasil todo vem, assiste, mas não compreende.

5 - Você gosta de fazer documentários. O filme de ficção é pura fantasia?
A realidade dá de dez a zero na ficção mais delirante!

6 - O DF tem mesmo condições de se transformar num pólo de produção cinematográfica? Ou é tudo um sonho eleitoreiro de verão?
Depois do palanque de Joaquim Roriz veio a indiferença atual. Isso tira o sono do nosso dileto Sílvio Tendler.

7 - Qual é sua preferência: seu “ciclo paraibano” ou seu “ciclo brasiliense”?
Os dois se fundem. Sou um cineasta retirante, trago a terra no coração, como São João Evangelista.

8 - O trabalho em vídeo e o trabalho em película. Qual o realiza mais?
Nenhum preconceito. Mas ainda curto uma gostosa nostalgia do cinema antigo, sua mística agora centenária, seu heróico artesanato. Tem mais poesia...

9 - O episódio “Tiririca” ressuscitou o debate sobre o que parecia extinto: a censura. Você sofreu muito com a censura, pois “O país de São Saruê” ficou muito tempo interditado. Existe censura politicamente correta?
Censurar e coçar é só começar. Se é censura não pode ser correta. Sou contra toda e qualquer...

10 - E o sonho da Fundação Cinememória do DF virou realidade?
Esse é um sonho de 20 anos que nasceu para proteger a memória da produção cinematográfica de Brasília, para promover exposições, debates e cursos. Fizemos muito, mas tem muito ainda a fazer. Para visitar é só ir na 703 Sul, Bloco G, casa 73.

11 - “O Evangelho Segundo Teotônio” e “O Homem de Areia”. Quem viu os dois filmes seus acha que seu coração pendeu mais para Teotônio Vilela do que para José Américo de Almeida. É isso mesmo?
Sou um híbrido de razão e emoção como todo mundo. A emoção arrastou-me para Teotônio. Zé Américo era imenso bloco de rocha granítica: enfrentei árdua jornada para “esculpí-lo”.

12 - Qual o pecado capital de Brasília?
É querer e não poder. Passa uma sensação de impotência à cidadania em geral.

13 - Qual o melhor ângulo de Brasília?
É o ângulo da História, da intervenção humana no espaço e na natureza, criando o novo. Como cinema, é qualquer ângulo.

silvestre@gorgulho.com