Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Brasília Capital Americana da Cultura 2008

Senhores prefeitos de cidades capitais ibero-americanas aqui presentes:

Confiou-me o Excelentíssimo Senhor Governador de Brasília, Deputado José Aparecido de Oliveira, a honrosa missão de representá-lo nesta reunião. Motivos de saúde o afastaram deste encontro com os dirigentes das Capitais Íbero-Americanas membros deste Conselho.

Missão duplamente gratificante: revejo a inesquecível Madrid e tenho o prazer de conhecer algumas personalidades internacionais que fazem parte do cenário político dos dois mundos de línguas latinas, as civilizações semeadas por Portugal e Espanha.

Estive aqui recentemente com o Senhor Governador José Aparecido. Tivemos então a felicidade de conhecer o saudoso Alcaide de Madrid, Don Enrique Tierno Galván, cujo passado constitui uma das melhores páginas da história ao povo espanhol. Dele recolhemos alguns ensinamentos sobre a UCCI e pudemos auferir de sua sabedoria a perspectiva histórica que representa este organismo para as nações a ele agregadas. Quero, nesta oportunidade, prestar, em nome do Governador José Aparecido e do meu País, uma sentida homenagem a esse vulto histórico que foi Tierno Galván, cujo desaparecimento encerrou uma longa vida integralmente dedicada à democracia e à liberdade.

Daquele momento até agora não temos perdido de vista a ação construtiva desempenhada no âmbito dessas duas civilizações pela Union de Ciudades Capitales Iberoamericanas.

E foi com entusiasmo que voltei a conversa com o Senhor Governador José Aparecido sobre a possibilidade de Brasília vir a integrar este importante Colégio. Por algumas razões fundamentais – a primeira delas, recolher desse ilustre Conselho a sabedoria secular que amalgama sua própria razão de ser. Outra ainda mais importante é a oportunidade que se apresenta, no convívio de lideranças tão expressivas, de trocar experiências capazes de melhorar a qualidade de vida de nossos povos irmãos. E essa possibilidade se nos apresenta no exato instante em que o nosso País vive a aurora de um novo tempo, pela reconquista de seu lugar entre as Nações democráticas.

Na realidade, o Brasil dá os primeiros passos para a construção de uma Nova República, sonho de Tancredo Neves, uma espécie de construtor da nova nacionalidade. E é nesse clima de retorno a democracia com o comando firme do Presidente José Sarney que Brasília desempenha um papel fundamental como partícipe do universo das cidades capitais que se convertem em repositório das liberdades. O Brasil está às vésperas de elaborar uma nova Constituição. Em novembro, seus quase sessenta milhões de eleitores elegerão a Assembléia Nacional Constituinte. O direito de cidadania passa a ocupar um espaço ainda mais profundo na consciência do povo. O Presidente José Sarney direciona seu governo para a reconquista dos direitos do cidadão e para o alargamento das conquistas sociais. A cidade tornou-se ainda mais sensível à identidade coletiva. Daí revestir-se de significação especial participar desta Assembléia.

Os movimentos de independência de Portugal enfatizavam a mudança da capital para o interior. No século dezoito, São João Bosco profetizou seu surgimento no planalto central brasileiro. Essa profecia antecipou-se à decisão de José Bonifácio de Andrada e Silva, consolidador da Independência do Brasil, de interiorizar a sede do Governo Nacional. E foi Juscelino Kubitschek quem tomou nas mãos o cumprimento dessa tarefa histórica. O impulso que se seguiu à interiorização da Capital ocorreu simultaneamente aos diversos impactos sofridos pela sociedade brasileira num tempestuoso quadro internacional. Impôs-se, então. Às economias em desenvolvimento, rigorosa dependência econômica. Era o dique oposto às aspirações de soberania dos povos do Terceiro Mundo. Nossas nações Ibero-Americanas, felizmente, souberam arrostar as tormentas do obscurantismo. E a Espanha de hoje é bem um exemplo candente desse esforço em busca da democracia, pela reconquista das liberdades. Nossas cidades conseguem ser humanas sem deixar de ser belas, sem perder o rumo do futuro. Nossas contradições culturais formam a teia maior da moderna civilização que formamos hoje.

Brasília, senhores, é em si mesma um sonho de liberdade: já o retrata a arquitetura mágica de Oscar Niemeyer. O urbanismo de Lúcio Costa é um apelo à libertação. As paisagens urbanas de Burle Max encantam até hoje o mundo com suas revoluções estéticas. A monumentalidade das obras de Bruno Di Giorgio, que embelezam suas praças e pórticos, traz, enfim, um complemento futurístico ã Capital Brasileira. Mas, aos 26 anos, com hum milhão e seiscentos mil habitantes, Brasília vive o drama do gigantismo. Tem de enfrentar agora os problemas vislumbrados para o século vinte e um. Cidade laboratório, mergulhada num inesperado capítulo de obscurantismo, Brasília reencontra os seus quatro construtores, graças a Deus ainda vi vos, convocados pelo Governador José Aparecido para uma nova e indeclinável missão: a de cortar os desvios e devolver a Capital do Terceiro Milênio – corno o mundo a chama hoje – aos balizamentos que nortearam sua criação. Trata-se, na verdade, de recolocar Brasília nos caminhos traçados pelo seu fundador, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Ao transformar em realidade o sonho de Dom Bosco, o Presidente da Esperança, como a Nação ainda hoje o reverencia, teve a visão do futuro: Brasília haveria de ser a eterna primavera dos trópicos pelos tempos afora. E no marco desse esforço de reorientação da cidade, o Governador José Aparecido tem sido fiel aos ideais de Juscelino Kubitschek. E não são poucos os desafios encontrados. Foi preciso remover alguns entulhos do regime militar para que a cidade respirasse outra vez as aspirações do povo. Cidade síntese do Brasil, Brasília tornou-se, nestes novos tempos, um santuário das aspirações de todos os brasileiros. Suas praças públicas estão constantemente tomadas pelas manifestações através das quais o povo leva ao seu governo e ao Congresso Nacional suas bandeiras de luta. E é respirando esse ar de liberdade que Brasília se apresenta diante deste Egrégio Conselho, para dizer que seus quase 26 anos estão cheios de lições a repassar aos povos e plenos desejos de integrar-se à grande família universal as democracias pela via de entidades como esta. É a busca da fraterna convivência com cidades mais antigas e mais sábias. É a certeza de ser uma delas no futuro, partindo da experiência que vive no presente. Nossa cidade apresenta uma experiência muito bem sucedida na associação entre o verde e o equipamento urbano. Nossas quadras residenciais, criação genial da prancheta de Lúcio Costa, corporificam as melhores idéias sobre a cidade-subúrbio. O trânsito flui com facilidade e grandes distâncias são vencidas em poucos minutos.

Não há engarrafamentos. Eis algumas experiências que oferecemos, com justo orgulho, à irmandade das cidades-capitais Ibero-americanas. Contudo, embora seja saudada como um marco da arquitetura e do urbanismo de nosso século, não obstante sua extraordinária beleza plástica e seu arrojo urbanístico, que a tornam, por assim dizer, um cartão postal, nosso turismo é ainda muito incipiente. O transporte de massas, nessa cidade do futuro, figura entre os mais caros, em comparação com outras cidades do mesmo porte no Brasil. Um acelerado e, podemos dizer,desordenado processo de fuga de populações do campo para a cidade, cria-nos problemas, como o déficit habitacional, que requerem soluções a um só tempo criativas e lastreadas na experiência. Eis alguns males para os quais, estamos certos, a troca da conhecimentos com nossas irmãs ibero-americanas apontará caminhos novos e proveitosos.

O Governador José Aparecido de Oliveira, por meu intermédio, agradece a oportunidade destas palavras. E deseja, em nome de Brasília, a todas as cidades co-irmãs aqui representadas a conquista dos sonhos que acalentam seus povos.

Antes de encerrar, quero formular nossos votos de pleno êxito a Don Juan Barranco, em sua nova e dupla missão, como Alcaide de Madrid e presidente da UCCI. Estamos certos e nisso expresso o pensamento do Governador José Aparecido de Oliveira, de que Don Tierno Galván tem um sucessor à altura das ações que desenvolveu.

Sou também portador de um convite que muito honra a todos nós brasileiros: o Senhor Governador José Aparecido oferece Brasília para sede da próxima reunião desta Entidade. É a jovem cidade dos trópicos abrindo suas portas à visita de um sábio Conselho de líderes mundiais.

Aqui ficam nossos agradecimentos e o nosso convite.

Muito Obrigado

Madrid, 24/fevereiro/1986