Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Formatura Faculdade Administração

Amigos,

Ninguém mora num País - mesmo que esse país seja o Brasil.

Ninguém mora num Estado - mesmo que esse estado seja Minas Gerais.

Todos somos cidadãos. Moramos numa cidade.

Digo isto, em primeiro lugar, porque este Centro de Ensino - a Faculdade Santa Marta de Administração e Pedagogia e o Centro Educacional - nasceu do esforço, do trabalho e de grandes sacrifícios de um grupo de sanlourencianos. E seu crescimento e seu sucesso se devem a outros tantos sanlourencianos que se juntaram a nós. Juntos, todos, conseguimos fazer do sonho a realidade que se concretizou neste encontro solene de hoje.

Longe de São Lourenço desde meus 11 anos, quando fui estudar fora, nunca, em tempo algum, deixei minha cidade. Continuo cidadão sanlourenciano. Pelos mundos que passei, estudando ou exercendo minha atividade profissional, sempre tive São Lourenço nos meus objetivos. Ajudei viabilizar esta Faculdade, seu Reconhecimento e o Centro de Ensino de Primeiro e Segundo Grau. Aqui eu nasci, aqui tenho minha família e aqui plantei meus sonhos. São Lourenço é parte de mim. Tenho consciência que, construindo minha cidade, ai sim, estarei construindo meu Estado e engrandecendo o Brasil.

Falamos de sonhos. É bom que continuemos a sonhar juntos.

Vamos imaginar que vai abrir aquela porta ali e entrar o primeiro professor deste País. O primeiro fundador de colégios do Brasil. Vamos abrir esta porta, com todas as reverências, para o Padre José de Anchieta. E aqui no nosso meio, vendo as autoridades deste município, vendo esta nova escola, vendo tantos profissionais do ensino, tantas famílias e vendo estes novos administradores de empresa, o que é que o primeiro Mestre brasileiro iria nos dizer? Talvez nos perguntasse:

- O que é que vocês fizeram da Educação que eu comecei há 400 anos?

- Como é que vocês continuaram nosso trabalho, meu e de meus irmãos jesuítas, o Padre Manoel da Nóbrega e tantos outros?

- Vocês estão honrando nossa memória? Vocês estão cumprindo o dever de educar todos os filhos desta Terra, de não deixar um só sem ler, sem escrever, sem aprender, sem saber?

Padre José de Anchieta viveu há quatro séculos.

Chegou de Portugal em julho de 1553, com 19 anos. Ele nasceu em Tenerife, nas Ilhas Canárias, que então pertenciam a Portugal e hoje pertencem à Espanha. No Brasil, viveu só pela Educação. Morreu em julho de 1597, no Espírito Santo. É até bom lembrar para os nossos professores. No ano que vem fazem exatamente quatro séculos de sua morte.

E o que nos legou Padre Anchieta?

Nos legou a semente da Educação, nos legou os primeiros colégios brasileiros, nos deixou livros e nos deixou - pouca gente sabe - até uma peça de teatro trilingüe - em latim, espanhol e português - dedicada - sabe a quem? Ao nosso padroeiro São Lourenço.
Pois bem, quatrocentos anos depois dele, ainda temos 30 milhões de analfabetos, ou seja, 20% da população com 15 anos, ou mais, segundo o IBGE, não sabem ler nem escrever.

Somente 37% dos jovens brasileiros, entre 12 e 17 anos, estão recebendo educação secundária. No Chile essa percentagem é de 72%. E na Coréia, mais de 90%.

Portanto, na Educação, ainda não merecemos nem medalha de bronze.

Esta é nossa primeira festa. Formatura da primeira turma de nossa Faculdade Santa Marta de Administração.

Como Presidente da Sociedade Mantenedora Santa Marta posso dizer com segurança que estamos fazendo nossa parte neste imenso e insubstituível mutirão nacional que precisa ser a educação e o ensino no Brasil.

Nossa luta aqui é pela medalha de ouro.

Do Paraninfo, José Maria Alves Ribeiro; do Patrono, professor Francisco Pereira da Silva; e do colega Orador, Ubirajara de Castro Motta, vocês vão ouvir as lições deste dia, vão ter a alegria, a emoção e curtir a vitória de terem chegado até aqui.

Queria, com muito orgulho pelo que aqui realizamos e com uma grande satisfação por ver os frutos de tantos anos de trabalho, deixar com cada um de vocês o meu abraço e o abraço especial de minha esposa Regina, de meu irmão João Vitor Gorgulho, vice-presidente da Sociedade Educacional Santa Marta, e de sua esposa Jovelina Cabral Gorgulho.

Não posso deixar de falar de meus pais Amélia e Miguel Gorgulho. Por vários motivos, mas um muito especial. Da mesma forma que meu pai acolheu as crianças de São Lourenço na Casa dos Meninos, foi ele quem primeiro acolheu a nós e a vocês, caros formandos e professores, cedendo seu prédio na rua Olavo Gomes Pinto, onde funcionou os primeiros anos desta Faculdade.

O grande jornalista e escritor inglês Chesterton disse que “a educação é a alma de um povo passando de geração a geração”. Por isso, por trabalhar com a alma e o cérebro, com a vida e com o amanhã, educar é a mais difícil das tarefas. Mas também é a mais gratificante, a mais iluminada e a mais próxima de Deus.

No dia em que deixou a Presidência dos Estados Unidos, perguntaram a Lindon Johnson se aquela tinha sido a tarefa mais difícil de sua vida.

Não, respondeu ele. A mais difícil foi educar minhas filhas.

É justamente por isto, caros formandos, que é tão fácil ver o brilho nos olhos dos mestres de vocês. É a luz de vitória, porque eles sabem que estão, e jamais sairão, de cada um dos diplomas que vocês vão receber. Todos nós aqui já tivemos nossos professores e nos formamos um dia. Os nossos professores entraram na nossa vida e nos nossos corações. E não sairão jamais. Até hoje tenho dentro de mim os primeiros ensinamentos que recebi no antigo Colégio Santa Úrsula, de dona Eunice e dona Maria da Penha Sacramento. Elas fizeram e fazem parte de minha vida.

Aprendi com dona Maria da Penha que educar, ensinar, sempre foi o destino, a missão dos deuses, dos santos e dos grandes líderes da Humanidade.

O que é que Jesus fazia à beira dos mares da Judéia, do Lago de Tiberíades?

- Ensinava.

Como os Apóstolos o chamavam?

- Mestre!

O que é que disse aos Apóstolos quando os mandou mundo a fora?
- Ide e Ensinai...

O que é que eles fizeram para implantar a Igreja dentro do Império Romano?

- Pregaram e ensinaram...

Como é que os gregos criaram a filosofia, a cultura e a civilização ocidental?

- Ensinando...

Sócrates, Platão, Aristóteles foram, sobretudo, professores.

A história, meus amigos, é um catálogo, é uma crônica de professores.

O Brasil nasceu nas aulas de Anchieta, de Manuel da Nóbrega, de Antônio Vieira - professores.

O pai da China foi um professor de sabedorias, Confúcio.

Ghandi libertou a Índia, como professor da Paz.

George Washington, Thomas Jefferson, Lincoln, Benjamim Franklin - os construtores do país mais rico do mundo, os Estados Unidos, foram sobretudo professores de sua gente.

Churchill salvou a Inglaterra ensinando a resistência com “sangue, suor e lágrimas”.

E deixo aqui, com vocês, na abertura desta bela e histórica noite, a lição de uma fábula oriental.

Em um açude, à beira de um rio, viviam três peixes. Passaram por ali pescadores que os viram e foram buscar suas linhas e anzóis.

Um peixe firme, esperto e decidido, tinha estudado bem o açude e aprendeu que ele desembocava no rio. Fugiu e foi viver longe.

O segundo peixe nadava numa boa. Não queria saber de esforço. Demorou a tomar uma decisão. Mas quando os pescadores chegaram, não se desesperou, fingiu de morto, boiou de costas sobre a água e foi cair no rio.

O terceiro peixe não queria saber de nada. Mas quando viu o perigo, passou a dar voltas alucinadamente de um lado para outro, até que foi apanhado.

Eram três: um, decidido, ganhou a vida. Outro, medroso, se safou. E o terceiro, preguiçoso, já era.

Na vida, caros formandos, é preciso saber lançar-se ao rio, mesmo, às vezes, com medo.

A vida vale pelo aprender e o viver.