Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Intenção e Gesto

Meus amigos,

O mundo está cheio de intenções.

Aliás, está cheio de boas intenções. Mas o mundo está carente de gestos.

Gostaria de ler para os senhores um editorial da Folha do Meio Ambiente, que tem uma importância histórica: foi escrito há onze anos. Na primeira página da primeira edição do primeiro jornal. E o título era justamente INTENÇÃO E GESTO. Ei-lo:

n O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é o detentor da inscrição número 2 nos arquivos do Tombamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ostenta, ainda, a condição de primeiro Jardim Botânico das Américas. E, oportuno lembrar, reúne o mais rico acervo florístico dos trópicos.

n Vizinho da quarta maior rede de comunicação do mundo, ancorado bem no coração da Cidade Maravilhosa, o mais tradicional centro cultural do País, visitado por todas as personalidades mundiais que aportam no Brasil, e, principalmente, guarnecido por um dos mais atuantes e incisivos exércitos de “Verdes” deste hemisfério, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro exibe, com justiça, a aura de um Santuário. A mística do exemplo.

n Pois bem, o exemplo se desmistifica e o Santuário se conspurca. No Jardim Botânico, as majestáticas palmeiras imperiais escondem um câncer: um riacho, que nasce límpido nas matas do Parque Nacional da Tijuca e que, cristalino, adentra os limites do Jardim, ali se polui, indo desaguar poucos metros fora dos seus limites, na Lagoa Rodrigo de Freitas, com sua carga de culpa e frustração. Poluído que está por esgotos da rua Pacheco Leão e por mais de três mil invasores, habitantes de 530 residências que intrusamente se instalaram ao longo dos últimos anos, mercê da negligência do Poder Público e do beneplácito de parte da sociedade e dos políticos, no mínimo equivocados.

n As contradições do Jardim Botânico do Rio são praticamente as mesmas de toda a questão ambiental no Brasil. São as mesmas contradições que afetam os Parques Nacionais, as Estações Ecológicas, as Áreas de Preservação, as Reservas Nacionais. E as lições que elas encerram estão aí para serem debulhadas e aprendidas por todos nós.

n É preciso cessar a prática de dois pesos e duas medidas, que conduz a um imobilismo danoso ao exercício democrático. Não é admissível que a sociedade delegue ao Executivo a missão de zelar pelo patrimônio ecológico e cultural e esta mesma sociedade - através de seu braço político - impeça esta missão em nome de uma filantropia imediatista e eleitoreira, que favorece a bem poucos.

n Num País de dimensões continentais, de fantásticos recursos naturais e humanos, não se pode aceitar que a solução de problemas sociais localizados se dê através da criação e manutenção de uma dificuldade política que contamina a ação do poder público. Perderemos todos.

n Cumpre, pois, a toda a sociedade e às instituições que ela mesmo erigiu e a quem confiou poder específico, resolver estas contradições.

E o texto termina: A vitória está em que se reduza a dura distância entre INTENÇÃO E GESTO.

Pois bem, esta terrível situação impera ainda hoje, com mais invasões e mais poluição no Jardim Botânico do Rio. E quantas situações idênticas à do Jardim Botânico do Rio de Janeiro nós temos por aí? Aqui, mesmo, em Brasília e por este Brasil a fora?

Vejam bem, está aí a Lei contra os Crimes Ambientais conspurcada por interesses vários. Estão aí as queimadas, as biopiratarias, os esgotos que teimam em chegar brutos, sem nenhum tipo de tratamento, ao rios que vão dar de beber as cidades seguintes, numa cascata de sujeira e abandono. Estão aí os interesses pessoais e de indústrias que buscam apenas o lucro.

É hora de estabelecer um convívio permanente, salutar, com a correta e consciente utilização dos recursos naturais. É hora de fazer e de seguir regras claras que considerem e respeitem a disponibilidade e vulnerabilidade da Natureza.

Felizmente, algumas luzes se acendem nesta escuridão: o próprio Prêmio Qualidade Verde criado pela Secretaria de Meio Ambiente do DF, como os trabalhos específicos que são aqui hoje premiados feitos pela SKOL, pela CAESB, pelo SESI e pelo Edgar Hiroshi são luzes. E são gestos. Grandes e eloqüentes gestos. Gestos que falam, que mostram, que despertam e, principalmente, gestos que ensinam uma verdade: ninguém deve deixar de fazer por só poder fazer muito pouco.

Muito grato