Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Prêmio José Aparecido de Oliveira

Depois da odisséia empreendida por José Aparecido de Oliveira na luta pela preservação de Brasília, conquistando da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade para uma cidade de apenas 27 anos, chegamos a um segundo momento: o governador José Roberto Arruda, ainda pela força e história de vida do ex-governador, marca sua posição pela legalidade e pelo respeito ao tombamento conquistado ao instituir o Prêmio José Aparecido de Oliveira.

O prêmio será oferecido anualmente em reconhecimento àqueles que tenham ações voltadas para o estudo e preservação de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Eu pessoalmente – e o próprio governador Arruda, como seus secretários - acompanhamos de perto toda luta e determinação do Zé Aparecido em defender Brasília.

Não foi fácil. Chego a afirmar que esta luta pela preservação custou-lhe o governo de Brasília e a volta para o Ministério da Cultura.

Por quê?

Aparecido brigou muito, mas não deixou retalhar o solo do DF em loteamentos irregulares. Abriu o Lago para a ciclovia e derrubou muitas cercas-vivas de poderosos para fazer as calçadas - sim, no Lago Sul não havia calçadas.

E culminou com a defesa máxima do Plano Piloto ao conseguir da Unesco, em 7 de dezembro de 1987, o seu Tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Interesses foram contrariados. Zé Aparecido era uma muralha contra a indústria das invasões, os puxadinhos, a mudança de gabarito, troca de destinação de área, contra o sétimo pavimento e o retalhamento das terras públicas.

 

Aparecido promoveu as primeiras eleições no Distrito Federal em 1986. Mas não conseguiu segurar a campanha promovida contra ele para liberar a especulação imobiliária. Uma especulação pelo dinheiro fácil e pela politicagem em busca de votos. 21 anos se passaram.

Coube ao governador José Roberto Arruda dar uma freada de arrumação. Teve a coragem de abrir feridas expostas pela omissão e pelo populismo: implodiu prédios irregulares e abandonados, combateu a ocupação irregular do solo de ricos e pobres, regularizou condomínios, colocou fim no transporte pirata e, agora, dá uma lição eterna: pelo Prêmio José Aparecido de Oliveira valoriza as ações anuais em defesa de Brasília.

A verdade é que Brasília, como diz Maria Elisa Costa, não é capital nem da Suécia e nem da Finlândia. É capital do Brasil, com todos os nossos problemas de distribuição de renda, de educação, de pobreza e de migração.

E todos estes problemas estão no âmago de uma cidade de apenas 48 anos. São 48 anos de muitos sonhos, de alguns pesadelos, imensas esperanças, mas com uma realidade mais forte em ações positivas do que negativas.

Se Brasília fosse, ainda, a bucólica aldeia dos anos 60, a pequena cidade dos anos 70 sem semáforos e engarrafamentos, se fosse apenas uma cidade de funcionários públicos, embaixadas e serviços especializados, estaria hoje com os seus 500 mil habitantes programados. Com certeza, seria um oásis dinamarquês na imensidão de tantos Brasis pobres e esquecidos.

Não! Brasília é Brasil com todos seus problemas, violências, lutas, diversidades, riquezas e pobrezas, alegrias e tristezas. Não são os 500 mil programados, mas 2 milhões e meio a pedir oportunidades. Muitos a pedir moradia e emprego. Alguns pão e água.

O Prêmio José Aparecido de Oliveira é a oportunidade de uma reflexão: se Brasília significou a interiorização da economia, a ocupação do Centro-Oeste e a produção de mais de 50% da colheita de alimentos do Brasil, Brasília como metrópole também significou o adensamento como porto seguro e inseguro de brasileiros de todos os cantos.

Esta é nossa missão: harmonizar o desenvolvimento, a migração e a oportunidade de ocupação com qualidade de vida e bem estar.

Para terminar, até em homenagem a Oscar Niemeyer que acaba de nos visitar e que hoje completa 101 anos, deixo nas palavras do Mestre a ultima homenagem a Zé Aparecido:

"Quando soube da morte do Zé Aparecido, passou diante de mim um filme-relâmpago. E me lembrava do Aparecido a declarar, quando tomou posse: - Vou governar com os olhos do Oscar. Durante todo seu governo, mantive o prazer de conhecê-lo melhor. Lembro-se que até meu medo de avião consegui controlar. Vinha a Brasília de 15 em 15 dias para colaborar um pouco.

Um dia, visitando seu sítio em Miguel Pereira, ele me disse: - Oscar, eu tinha vontade de construir uma capela. Um presente para minha filha Maria Cecília. Ali mesmo desenhei a igrejinha, toda branca com um pequena cruz na cobertura. E, para agradá-lo, eu mesmo fiz o altar. Não sei por quê, estudei a iluminação da capelinha de forma que de noite apenas a cruz aparecia sozinha a flutuar entre as árvores do jardim..."

Pois é, Oscar, dona Leonor, Maria Cecília, Zé Fernando, Virgínia, Fernandinho e todos os premiados...

Pois é, governador Arruda, Dr. Bigonha, Evelise Longhi, Carlos Magalhães, Paulo Castelo Branco e Fernando Andrade...

Pois é, Beto Sales, Elaine Ruas, Rosa Coimbra, Luiz Mendonça e toda equipe da Secretaria de Cultura que com tanto carinho preparou esta celebração... Pois é, Alfredo Gastal, Vincent Defourny, Jurema e todos os amigos aqui presentes...

Nós aqui estamos como a cruz da Igrejinha Santa Cecília, lá do sítio do Aparecido, em Miguel Pereira.

Estamos sozinhos a flutuar entre as árvores e jardins desta fantástica cidade-parque que só precisa de nós mesmos para ser defendida, preservada e amada.