Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Ary Pára-Raios

 

 

Dia do Cerrado, dia de Ary Pára-Raios
Ary José de Oliveira fez palhaçadas sérias e do riso promoveu mudanças que o meio ambiente agradece

Por Silvestre Gorgulho (setembro de 2003)

O 11 de setembro ficou marcado na história contemporânea pelos atos terroristas que atingiram os Estados Unidos e derrubaram o símbolo maior do capitalismo: as duas torres do World Trade Center. Mas o 11 de setembro é também uma data para celebrar a vida, pelo menos aqui no Brasil: é o Dia do Cerrado. A partir deste ano, todo 11 de setembro será dedicado a uma reflexão sobre a preservação do maior e mais agredido ecossistema brasileiro, graças a um decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Toda essa deferência tem uma explicação. No dia 11 de setembro nasceu uma das figuras mais populares do Planalto Central: o artista plástico, diretor de teatro, jornalista e ambientalista Ary José de Oliveira, mais conhecido por Ary Pára-Raios - histórico e contuntente defensor do Cerrado.

Uma palhaçada...
Era 31 de agosto de 1995. Reunião solene do Conama, o famoso Conselho Nacional de Meio Ambiente. O auditório do Ibama estava lotado. O tema de discussão era sobre as alterações substanciais que o governo federal pretendia promover no decreto 750 que estabelece a proteção da Mata Atlântica. Conselheiros, ambientalistas e funcionários do próprio Ibama aguardavam ansiosos o desfecho da discussão.

Ao mesmo tempo, na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 3825/92, que também trata da Mata Atlântica, era aprovado na Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias. Quando a notícia chegou ao plenário do Conama, em comunicado do então secretário de Meio Ambiente de São Paulo, Fábio Feldmann, o Esquadrão da Vida, liderado por Ary Pára-Raios, entrou no auditório entoando a canção "Bichos Escrotos", da banda Titãs. Foi apoteótico! Quem estava lá não esquece. Assim era Ary Pára-Raios: um palhaço, um artista, um jornalista, um tumultuador do bem.
Ary Pára-Raios fazia da arte uma brincadeira de gente grande. Era coisa séria para dar o recado exato. Sempre à frente de seu Esquadrão, esse palhaço das causas humanitárias, colocou sua arte a serviço do movimento ambientalista. Nos últimos anos, no auge da polêmica em torno do Código Florestal não foram poucas que ele surgia vendendo alegria e cobrando posições das autoridades. Ary Pára-Raios era único. O Cerrado merece ter o mesmo dia de seu nascimento.

O profissional
Muita gente conheceu apenas o palhaço de rosto pintado e plantando bananeira pelas ruas de Brasília ou à frente de seu Esquadrão mandando algum recado para o poder. Mas Ary Pára-Raios ia além: jornalista profissional, trabalhou no Correio Braziliense e, em 1989, criou seu próprio jornal: o Viva Alternativa.

O teatro engajado
Pioneiro do teatro de rua de Brasília, o grupo criado por Pará-Raios baseou seus trabalhos na mistura de experimentalismo artístico e compromisso social. Entre os espetáculos produzidos pelo grupo estão O Bicho Homem e Outros Bichos, Na Rua com Romeu e Julieta e Folia Real. Ao longo de duas décadas, mais de 150 pessoas passaram pela companhia, que registrou 21 peças, 25 campanhas e mais de 20 oficinas.
"Ary era um radical bem-humorado e sua vertente palhaço estava sempre presente. Ary não gostava de facilidades, sempre trilhava o caminho mais difícil", diz Sérgio Henrique Guimarães, do Instituto Centro Vida (ICV) de Cuiabá - MT.

silvestre@gorgulho.com