Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Catarina e Evandro

Brasília, fevereiro de 1997 

Silvestre Gorgulho

Enquanto os visitantes, os amigos e os visitantes que se tornaram amigos vêm e vão curtindo o domingo ensolarado na fazenda Vagafogo, Catarina Schiffer e Evandro Ayer, proprietários desse santuário de vida silvestre no município de Pirenópolis, dão duro desde a manhã até à noite. É um corre-corre para atender a média de 100 pessoas que aparecem todos os fins de semana para passear na trilha interpretativa “Mãe da Floresta”, se refrescar nas águas do córrego Vagafogo, admirar as fotos dos livros que mostram as belezas da natureza, saborear as delícias produzidas na fazenda ou simplesmente tomar um cafezinho e bater papo com o atencioso casal.

A vida de Catarina nos fins de semana é na cozinha, preparando as refeições para o pessoal da casa e oferecendo um conselho aqui e outro lá para aqueles que buscam a sua disponibilidade e compreensão. Durante a semana ela já cuidou da manutenção de casa, paiol, curral e centro de visitantes, providenciando o abastecimento que depende das coisas da cidade, onde vai trabalhar todas as tardes.

Evandro passa a semana trabalhando na produção da fazenda e transformando o leite e as frutas em finas iguarias com ajuda do filho Uirá. Aos sábados e domingos, eles recepcionam as pessoas que chegam, mostrando-lhes o santuário e servindo o brunch – um misto de café da manhã e almoço preparado com os produtos da fazenda. A fartura é um escândalo: são oito tipos de geléia, doce de leite, granola, mel, salada e sucos de frutas, chá, leite, queijos, requeijões, coalhada, pães, panetone, biscoitos, waflles, tortas, omelete e lagarto frio.

Foram seis mil visitas registradas no ano passado, fora as que não assinaram o livro de presença e aquelas que não assinam mais porque estão sempre voltando. Esse eterno retorno é uma das maiores gratificações para a dedicação do casal. Não há nada que eles mais gostem do que esse constante fazer amigos, prazer esse que garante a qualidade dos produtos e serviços e faz do santuário Vagafogo um modelo de unidade de conservação auto-sustentável, com escoamento de toda a produção.

Vocação mineira encontra talento goiano
Ao fim de mais um fim de semana corrido, exaustos, porém, relaxados porque tudo correu bem, Catarina e Evandro escolhem suas poltronas preferidas e conversam sobre seu projeto de vida.

Não, eles não podiam imaginar que dariam tão certo e chamariam tanta atenção, a ponto de receber ilustres visitantes d’além mar e freqüentar constantemente a mídia nacional. Afinal, quando chegaram em Pirenópolis, nos idos de 74, eram conhecidos como hippies. Vinham de uma vivência em comunidades alternativas européias e, ao comprar a fazenda Vagafogo, a seis quilômetros da cidade, Evandro tinha em mente a roça tradicional – arroz, feijão e milho. Queria viver disso e logo viu que não dava certo. Experimentou pipoca, gergelim e azuki, mas a terra não correspondeu. Foi então que descobriu o talento da região – as frutas. Natural de Minas, ganhou um tacho de cobre da família e algumas receitas de conservas. Logo a seguir, vieram as receitas de doce de leite e queijos.

O filho Uirá nasceu em 75, a filha Maíra em 76. Enquanto Evandro estruturava a fazenda, construindo e experimentando diversas culturas, Catarina foi morar em Brasília com as crianças. Evandro ia para a capital nos fins de semana, vender plantas ornamentais na feira hippie.

Catarina voltou para Pirenópolis em 82. Ao buscar os papéis de seu fundo de garantia em Brasília, uma amiga do Iphan, a instituição onde trabalhava, pediu que ela trouxesse um queijinho da fazenda.

Levou cinco queijos e algumas rapaduras. Vendeu tudo e ainda faltou para atender aos pedidos.

Estava aberto o roteiro que o casal passou a fazer durante anos, vendendo em Brasília os produtos que Evandro preparava na fazenda. Além das conservas e laticínios, havia ainda os pães, doces e panetones. Na época, já hospedavam amigos na fazenda, e foram esses mesmos amigos que os acolheram em Brasília para efetuar as vendas.

Se continuassem nessa vida, não iriam tão longe, comenta Evandro. Era muito estressante viver na estrada e depender da capital. Não foi para isso que eles escolheram morar na roça.

Em 1990 procuraram a Funatura, organização não governamental ligada ao meio ambiente e sediada em Brasília, que estava disposta a consolidar santuários de vida silvestre em propriedades particulares, visando a conservação e a auto-sustentação de áreas nobres. Dos 23 hectares da Vagafogo, 50% se converteram em reserva. Em 92, estavam prontos o plano de manejo da fazenda, com classificação das espécies vegetais, e o centro de visitantes. O apoio e o patrocínio vieram da Fundação Boticário e do Fundo Mundial para a Natureza – WWF.

Desde então, as visitas só fizeram aumentar. De março a junho e de agosto a novembro, os visitantes vêm do Centro-Oeste, principalmente de Brasília e de Goiânia. Em julho, dezembro, janeiro e fevereiro, vem gente de todo o país. Foi desafiado e vencido o mito de que viver no mato, com uma produção artesanal , em harmonia com a natureza, não dá sustento para ninguém. Evandro e Catarina podem se dar ao luxo hoje de viajar pelo mundo, como gostavam de fazer na juventude. Só que agora, não precisam mais pedir carona.

Receita do sucesso? Nascer sob o signo de Capricórnio e gostar de trabalhar ajuda, mas não resolve. O segredo, como ensina Evandro, é estabelecer uma relação amorosa com a terra, dando a ela tudo o que se tem e recebendo em troca o que ela pode dar.

Por acreditar na terra, respeitar a natureza e viver bem em harmonia com o meio ambiente, o casal Catarina e Evandro é Gente do Meio e, por isso, recebe, com toda a justiça, a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente.