Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Cecília Meireles

 

CECÍLIA MEIRELES:

SOU POETA!

 

Por Silvestre Gorgulho (setembro de 2009)

Foi longa a caminhada literária de Cecília Meireles. Muito além de seus 63 anos de vida. Aos 16 anos, Cecília se formou professora e, aos 18, lançou seu primeiro livro: Espectros. Na literatura fez de tudo. Era poetisa, jornalista, cronista, tradutora, pedagoga e contadora de histórias. Estudou o folclore e comandou um programa radiofônico sobre literatura. Em 1934, realizou um sonho: fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil, no pavilhão Mourisco, no Rio de Janeiro. Foi uma grande escritora, uma das maiores do Brasil. Tinha um carinho todo especial pelas crianças, mas também se dedicou a escrever poemas para os adultos. "Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se cerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo” (Paulo Ronai)
Cecília Meireles virou nome de rua em São Domingos de Benfica, nome de avenida na cidade de Ponta Delgada, capital dos Açores e sua efígie está na cédula de cem cruzados novos, lançada pelo Banco Central, em 1989.

Cecília por Cecília

(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder.
“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Leilão de jardim

Quem me compra um jardim com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
Uma estátua da Primavera?


Quem me compra este formigueiro?
E este sapo que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é o meu leilão!)

Epigrama nº11

A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu,
um largo véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.

Canção Mínima

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.

E no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem -Fim,
a asa de uma borboleta.