Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Cristina Portella

Silvestre Gorgulho

Cristina Portella é mais do que uma artista plástica: ela sabe aprofundar o mistério da arte e consegue dar asas à imaginação. Sua arte toca o coração de quem tem a graça de ver com os olhos e de quem só consegue ver com a alma. Pois não é que Cristina Portella acaba de expor, no Senado Federal, sua arte visual para cegos? Ela imaginou e fez de “Olhos da Alma” – Artes visuais para deficientes visuais” uma exposição onde o tradicional aviso “Proibido tocar” foi substituído por um convite irrecusável: “Por favor, toque”.

Composta por 14 telas, que já foram vistas – e tocadas – em Paris e Tóquio e viajaram por 14 estados brasileiros sob o patrocínio da IBM, “Olhos da Alma” tem como tema “Peixes da Amazônia”. Usando técnica que mistura tinta acrílica a materiais orgânicos como esqueleto de tucunaré e escamas de pirarucu, a artista cria os peixes brancos que nadam nas águas brancas. Branco sobre branco?! Sim, mas só à primeira vista.

Por exemplo: o peixe branco que aparece nadando, em relevo, na tela branca “Visão dorsal de um peixe-serra” não é branco, mas cinza arroxeado, como qualquer cego pode ver. Basta percorrer, com a ponta dos dedos, os contornos do peixe e depois ler, dentro dele, a legenda escrita em braille: peixe cinza arroxeado. Em seguida, tateando as formas revoltas do fundo, também em relevo e aparentemente todo branco, é possível “ver” que ele é feito, na verdade, de águas barrentas profundas, como informa o texto em braille.
Quem tem a glória de enxergar com os olhos, sentiu na pele o valor da exposição de Cristina justamente pelas reações do público que só pode enxergar com os dedos: “Oh, um peixe amarelo!”, surpreendeu-se um cego, ao ver o aruanã amarelo nadando nas águas doces com grande correnteza. “Vejo a sombra de uma árvore refletida na água”, descreveu outro cego, ao deslizar os dedos e o coração sobre o lago de águas calmas onde nada o peixe róseo.

Além das telas, “Olhos da Alma” conta também com instalações sensoriais, feitas a partir de materiais coletados na Amazônia pela própria artista. Da floresta, Cristina Portella trouxe folhas, terra, pedras, madeiras aromáticas. Enquanto toca com as mãos o tambaqui verde-escuro que nada na floresta tropical alagada, o deficiente visual fareja o cheiro da mata e tem, sob os pés, folhas trazidas diretamente da floresta tropical alagada onde vive o tambaqui.

“Olhos da Alma” nasceu de um sonho. E o sonho, por sua vez, nasceu de uma experiência de vida, das muitas vividas intensamente pela artista. Entre 1995 e 2000, Cristina Portella, que é formada em psicanálise clínica e faz pós-graduação em Arteterapia, foi professora de artes de crianças internadas no Hospital de Base de Brasília. O trabalho, que era voluntário, revelou-se lucrativo: a partir dele, Cristina Portella passou a exercitar aquela que, para ela, é a grande função da arte. “Creio no papel social da arte, creio na arte solidária, humanitária”, afirma.

Último recado de Cristina: a exposição “Olhos da Alma” não foi feita apenas para deficientes visuais. “Quero que meu trabalho ajude as pessoas que vêem a entrar no mundo dos cegos, e que essas pessoas percam o preconceito contra os cegos, porque o preconceito, na verdade, é um só: contra os cegos, contra os negros, contra as mulheres, contra os muçulmanos…”, desabafa a artista.

Outros trabalhos, em Braille, de Cristina Portella: capa da Constituição do Brasil e capas do Estatuto da Pessoa Portadora de Deficiência, da Constituição Federal, do Código Civil, dentro das comemorações dos 180 anos do Senado Federal.
Pior cego é o que não consegue