Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Jurema de Medeiros

 

Brasília, setembro de 1997

Silvestre Gorgulho

Como fazer para proteger uma área contra o desmatamento?
Provar que a sua vegetação original oferece mais riquezas do que qualquer empreendimento que se possa fazer para substituí-la é uma saída. E foi esse o princípio que norteou a ação dos ambientalistas que fundaram a Asflo (Associação dos Pequenos Extrativistas de Flores do Cerrado da Chapada dos Veadeiros), entidade que tem como presidente Jurema de Medeiros.

Ela conta como foi que aconteceu: os lençóis freáticos do Pouso Alto, berço das nascentes que abastecem as principais bacias hidrográficas do País, estavam baixando assustadoramente devido ao desmatamento. Surgiu a idéia de se fazer uma reserva extrativista apoiada por uma associação que defendesse as espécies nativas do cerrado. Identificada como produto nobre, a flor serviu de inspiração para o grupo de ambientalistas liderado por Jurema de Medeiros e Peter Mikdiff. Fizeram levantamento biológico e aerofotogramétrico, demarcaram os campos de flores e fundaram, em 1993, uma organização ambientalista que traz também uma proposta social, pois cria as condições para que os catadores de flores se profissionalizem e se organizem. A proposta da Asflo é treinar esses catadores para que beneficiem as flores em buquês e arranjos que valorizam o produto e possibilitam uma renda melhor para suas famílias. Eles são estimulados também a só colherem as flores perfeitas, sem as raízes, deixando pelo menos 50% de cobertura florística nos campos.

A coleta feita de maneira predatória, sem manejo adequado, somada à expansão urbana e ao desmatamento para culturas extensivas, já acabou com as flores do Distrito Federal. Embora continuem sendo um símbolo de Brasília, as flores do cerrado, vendidas hoje na cidade, vêm em grande parte da Chapada dos Veadeiros.

Com prédio próprio na cidade de Alto Paraíso, corpo ativo de associados e prestígio junto à comunidade local, a Asflo é o coroamento de 15 anos da luta empreendida por Jurema em defesa da chapada.

Rumo ao sol
Ela chegou na região com os integrantes do Projeto Rumo ao Sol, que pretendiam formar uma comunidade rural. Eram 250 pessoas que não conheciam o Planalto Central e chegaram com barracas na temporada de chuvas. A permanência do grupo todo ficou difícil e muitos voltaram para seus lugares de origem, à espera de um momento melhor para se estabelecerem na região.

Em vez de voltar, Jurema seguiu adiante: foi morar na Farm, uma comunidade norte-americana, onde aprendeu a beneficiar os derivados da soja. O vínculo com a Chapada, entretanto, já estava formado: Jurema mantinha a comunicação com os remanescentes do Rumo ao Sol, enviando livros e notícias para Alto Paraíso. Depois de um ano e meio de estágio na Farm, ela aportou em Alto Paraíso, disposta a implantar a tecnologia da soja. Foi morar no Povoado do Moinho, onde começou a sua batalha ambientalista. A primeira vitória aconteceu contra a mineração que ameaçava poluir o rio São Bartolomeu, o mais importante manancial do Moinho. Foi uma vitória popular: deu carreata até a entrada da mineração e passeata até a gruta da Igrejinha. Conclusão: o local onde ficava armazenado o ouro foi tombado como patrimônio histórico do município.

Convidada para o cargo de secretária do Meio Ambiente de Alto Paraíso, Jurema desenvolveu projetos como a Coleta Seletiva de Lixo e a Oficina de Educação Ambiental, onde funciona atualmente o Centro de Atendimento ao Turismo. Desgastada pela falta de apoio da estrutura governamental, deixou a secretaria antes do término do mandato para fundar a Asflo, acreditando ser mais produtiva a sua ação à frente de uma organização não-governamental.

Animada com o processo efervescente de conscientização sobre a necessidade de preservação ambiental que se vive hoje na região, Jurema divide seu tempo entre a casa no Povoado do Moinho e a sede da Asflo em Alto Paraíso. Junto à natureza, se exercita fazendo arranjos florais. Nada mais natural para quem cursou a Faculdade de Artes. Na cidade, idealiza projetos que revelam seu amor pela Chapada dos Veadeiros. Pelo seu trabalho, pela sua dedicação às coisas da terra, Jurema de Medeiros é Gente do Meio e recebe a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente

silvestre@gorgulho.com