Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Porfírio Carvalho

O milésio gol do Porfírio

Silvestre Gorgulho (outubro de 2003)

Médio volante, goleiro e atacante de um time campeão, Porfírio Carvalho fez seu milésimo gol. Não foi de pênalti, como o milésimo de Pelé. Mas foi de placa como tanto outros que Pelé andou fazendo nos gramados deste mundo a fora. Não foi para as criancinhas negras e brancas como o de Pelé. Foi para as criancinhas índias. O gol de Porfírio não foi televisionado e nem tão fotografado como o de Pelé, mas foi também documentado e entrou para a história dos homens de boa vontade. O milésimo gol do indigenista Porfírio Carvalho foi de vida: ele é o pai, mãe, avô e tutor da família Waimiri Atroari: nasceu a criança índia número 1.000 de uma tribo em extinção.

É bom lembrar que esta nação indígena está situada entre os estados do Amazonas e Roraima. Os Waimiri Atroari sempre foram guerreiros bonitos e determinados. Mas a colonização branca provocou uma tragédia. Desde o primeiro contato com o homem branco, as cerimônias e cânticos de fé dos Waimiri Atroari foram dando lugar aos lamentos e pedidos de socorro: a fome substituiu a fauna, a subnutrição tomou conta da tribo e vieram o alcoolismo, suicídios e os terríveis massacres.

Em 1986, eles eram menos de 300 e mendigavam famintos e doentes, às margens da BR-174.

Da cultura restou a lembrança. De caçador, o índio se transformou em presa fácil.

Até que um dia, em 1988, apareceu um anjo artilheiro que resolveu jogar no time dos Waimiri Atroari. Era o indigenista Porfírio Carvalho, baiano, na época com 45 anos. Bom de bola, de negociação e corajoso na área dos adversários, Porfírio começou conseguindo um bom patrocinador para o time: a Eletronorte.

No primeiro tempo, Porfírio organizou um jogo de confiança, reconhecimento do terreno e de planejamento. No segundo tempo foram atividades voltadas para a educação, saúde, defesa do território, agricultura e tradições culturais. O resultado não podia ser outro: vitória de goleada que possibilitou o resgate da existência, da cultura e da auto-estima dos índios tantas vezes ameaçadas pelo homem branco. Aí as coisas começaram a mudar. A verdade é que os Waimiri Atroari vêm colhendo os frutos das sementes plantadas por um programa desenvolvido pela Eletronorte e Funai desde a construção da Usina Hidrelétrica Balbina.

Agora vem o milésimo gol de Porfírio Carvalho: os Waimiri Atroari estão comemorando o nascimento do milésimo descendente. Após o gol, ainda no gramado, o artilheiro Porfírio não teve como fugir do microfone de um jornalista:

"O nascimento do milésimo Waimiri Atroari é realmente um marco na história daquele povo. E também na minha vida. Imagina, em 1986 eu reencontrei aqueles índios doentes, morrendo, perambulando pela estrada. Um contato difícil, pois parecia, até, que eu estava contra eles, porque era a estrada, era a mineração, era Balbina... Pensei comigo: será que a história não muda? Fui em frente... Vou tentar convencer a Eletronorte a assumir um programa de vida para este povo. Vou sim. Vou procurar alianças, vou procurar ajuda de todos, mas vou tentar salvar este povo. E, sonhando, iniciei o trabalho. Tive e tenho até hoje muitas dificuldades, incompreensões, discriminação, perseguições, mas também tive muito apoio, amizade e respeito... Devo muitos agradecimentos. Devo a muitos a vida de um povo, devo a vida dos 1000 Waimiri Atroari. E eu quero agradecer sempre... Agradecer a todos que me ajudaram e ainda têm me ajudado a levar adiante este trabalho".

Cartolas, técnicos, jogadores e torcedores fanáticos deste jogo pela vida, não dá como não se emocionar. E aqui das arquibancadas da Folha do Meio Ambiente, toda nossa equipe grita a todo pulmão o nome de Porfírio Carvalho pelo seu milésimo gol:

Dá-lhe Porfírio! Valeu sua luta dentro e fora de campo. Seu milésimo gol merece o aplauso dos brancos, negros, amarelos e índios. Foi um gol de raça. A torcida brasileira agradece. 

silvestre@gorgulho.com