Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Brasília não pode ser a ovelha Dolly

Silvestre Gorgulho  (2/julho/2002)

Brasília, uma quarentona de dois milhões de habitantes, não pode ser Dolly, a ovelha clonada. O que são 42 anos para uma cidade? Nada! Ainda está na placenta da história. Mas será que Brasília não está lembrando uma clonagem? Como a ovelha Dolly, concebida com os mais modernos avanços tecnológicos, será que Brasília não está sofrendo de envelhecimento precoce!

Salvador, a velha cidadela barroca no coração do Brasil recém-descoberto, foi a primeira capital brasileira. Envelheceu. O desenvolvimento proporcionado pelas descobertas de ouro e diamantes em Minas Gerais e pelas fazendas que brotavam no Rio de Janeiro e São Paulo, no século XVII, deslocou o progresso para o eixo meridional. Ficou para lá Salvador e veio a necessidade de trazer a Capital para o Rio de Janeiro, que acolheu o governo da Colônia, do Império e da República. Até que chegou a hora do Brasil parar de ser caranguejo e desgrudar-se do grande litoral para embrenhar-se por esse Cerradão a fora. O Rio de Janeiro também envelheceu.

A hora era de atender a reivindicação expressa pelos constituintes de 1891: interiorizar a Capital Brasileira. Construir Brasília. O potencial brasileiro, a alma dos desbravadores, o futuro estava num ponto eqüidistante do País que pudesse irradiar transformações, nacionalidade, esperança e energia para a ocupação econômica e política do Centro-Oeste e da Amazônia.
Fêz-se Brasília. E ela nasceu questionada. Usaram de todos argumentos culturais, econômicos, políticos contra a meta síntese de Juscelino Kubitschek.

A polêmica foi mil vezes maior do que os plebiscitos para escolher entre os regimes presidencialista e parlamentarista. Do que as privatizações. Saudosistas, ainda hoje, não perdoam essa ousadia. Não fosse a determinação de JK, Brasília continuaria a ser apenas um sonho e o Brasil produtivo estaria, ainda, igualzinho aos caranguejos, arranhando esse belo e maravilhoso litoral.

Pelo progresso que Brasília trouxe para essa região, antes esquecida e que representa cerca de 70% do País, sua construção há muito pagou seu preço. Mas tem uma coisa. É hora de repensar a Brasília. Nossa Capital não pode padecer de um envelhecimento precoce. Brasília, 42 anos, dois milhões de habitantes, uma cidade tão nova e com os mesmos grandes problemas das metrópoles brasileiras. Não podemos deixar Brasília virar uma megalópole. Temos que preservar o verde, ás águas, o solo e o ar.
É bom lembrar. Se Brasília tem os mesmos problemas, diferente de todas as outras cidades, ela ainda tem as soluções muito mais fáceis. Mais fáceis, mais rápidas e muito mais baratas.

Portanto, vamos gente! Vamos preservar o Céu de Brasília, evitando novos prédios no seu centro administrativo. Vamos racionalizar seu trânsito, evitando construções de mais shoppings e edifícios nos setores comerciais, bancários e hoteleiros, norte e sul.

O departamento de engenharia da USP já provou: cada 1.200 metros quadrados de construção de prédios no centro das cidades provoca, pelo menos, 300 metros de engarrafamento. Mais importante do que asfaltar e fazer edifícios é arborizar, construir praças e parques, é arejar e deixar os olhos chegar ao infinito. Brasília nasceu assim: deixando nosso olhar chegar ao céu. Por que não continuar sendo a cidade dos espaços vazios?

Governo e povo. Empresários e políticos. Corpo diplomático e visitantes. Cada um na sua. Por favor, não vamos deixar Brasília ser a Dolly da clonagem. Ninguém quer vê-la envelhecer tão precocemente.

silvestre@gorgulho.com