Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Geraldo Gentil e Marisa Cordeiro

Silvestre Gorgulho

18 de Junho de 2008

É possível conviver com qualidade social no Semi-Árido? Estará o bioma Caatinga com os dias contados? Sessenta profissionais de nível superior de várias origens, desde instituições federais, estaduais e da sociedade civil buscam as respostas. Em Lagoa Seca, próximo a Campina Grande-PB, nos altos da Borborema, esses profissionais participaram de um seminário como parte do curso de especialização por tutoria à distância, "Desenvolvimento Sustentável para o Semi-árido Brasileiro". Meses depois, em João Pessoa, foi a vez do II Seminário Luso-Brasileiro sobre Agricultura Familiar e Desertificação. Nesses eventos foram discutidos diversos assuntos relacionados ao processo de desertificação na busca de soluções próprias para as Áreas Susceptíveis à Desertificação, que cobre mais de um milhão de quilômetros quadrados e onde vivem mais de 25 milhões de pessoas.

Geraldo Gentil e Marisa Cordeiro - Entrevista

Geraldo Gentil Vieira é engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Lavras e especializado em Irrigação e Solos:
“O importante é erradicar a pobreza e dar direito à cidadania. A questão é de sobrevivência e resistência”. O combate à desertificação é centrado na comunidade.

 

Folha do Meio - Como funciona o curso?
Geraldo Gentil -
O curso é patrocinado pelo Ministério do Meio Ambiente por meio da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano, pela Universidade Federal de Campina Grande e pela ABEAS (ver glossário) e pelo IICA. O objetivo é prover os técnicos de informações básicas de como realizar o desenvolvimento sustentável para o Semi-Árido Brasileiro, garantindo e gerando técnicas para as atuais e futuras gerações. Os técnicos precisam definir novos caminhos para a fixação do homem no campo. E o enfoque está na vocação local e regional, na educação contextualizada visando a convivência do homem com o meio ambiente. Isto possibilita o desenvolvimento sustentável por meio do uso racional dos recursos naturais.

FMA - Vamos ao cerne da questão: é possível viver na região?
Marisa -
Olha, vamos por partes. Grosso modo, é possível viver na região. Evidente que não é fácil, justamente pelas escassas e irregulares chuvas. E também pelos solos quase sempre rasos e salinos de origem cristalina.
Produzir e armazenar, tal como os povos em invernos rigorosos e climas áridos de outras latitudes, é a questão. A dificuldade é justamente sob o ângulo social e de degradação ambiental.
Isto envolve uma convivência de nebulosos 500 anos. Os primeiros passos foram dados nos anos 90 na COP-3 (Conferência das Partes das Nações Unidas), em Recife, e desde então muitos passos foram dados.

FMA - Qual o nível de conhecimento que temos sobre o Semi-árido?
Geraldo Gentil -
Quem melhor definiu isto foi José Roberto de Lima, coordenador de Combate à Desertificação do MMA.
Para ele o nível de conhecimento que temos sobre o Semi-árido, e mais especificamente sobre os processos de desertificação no Brasil, ainda é muito incipiente. Isto vem dificultando um planejamento de longo prazo mais profundo.
Aliás, José Roberto de Lima lembra que este tem sido o motivo para que tantos planos, projetos e instituições públicas e privadas naufraguem em suas tentativas de promover o desenvolvimento regional. O Curso de Pós-Graduação é justamente uma tentativa de avançar neste esforço e aumentar nosso conhecimento sobre o Semi-árido.

FMA - O que é desertificação?
Geraldo Gentil -
A desertificação é definida como a degradação do solo em regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de fatores climáticos, geológicos, antrópicos e outros.
A complexidade da desertificação é conseqüência de práticas predatórias seculares como o desmatamento e queimadas para agricultura de subsistência e latifúndios, sobrepastoreio bovino e ovinocaprino, enfim, o retirar e nada repor, gerando pobreza e êxodo rural. Envolve temas tão diversos como antropologia, solo e água, flora e fauna, a biodiversidade-mãe, as sementes e o semear, o molhar das águas do telhado e o clima seco que tudo envolve.

FMA - O que vocês chamam de oasificação?
Geraldo Gentil
- Conhecemos este neologismo em curso no Egito e, mais recentemente, citado pelo agrônomo Beranger Araújo em curso em Campina Grande. A oasificação é o processo contrário à desertificação. Não se trata de descobrir o problema da desertificação e sim de buscar soluções pela oasificação. Mediante técnicas próprias de captação e acumulação de água, solo, matéria orgânica e nutrientes, pode-se reverter a desertificação, inclusive em situações extremas. Sair da situação parda, seca e estéril, para outra, azul, verde e produtiva. Nada mais é que a formação de oásis em pequenas propriedades produtivas em torno de uma fonte d'água.
No Brasil o fazedor de oásis é o agrônomo Luciano Cordoval, da Embrapa, com as suas "barraginhas".

FMA - E quais as possíveis soluções?
Marisa -
Temos que criar com urgência programas produtivos familiares sustentáveis, unidades de conservação integrais, como parques nacionais, reservas ecológicas, RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). A biodiversidade da Caatinga é riquíssima.
O Semi-Árido clama por recursos e soluções concretas sustentáveis. A educação formal, a profissionalizante, ambiental e as redes ajudam a catalisar idéias e práticas. Temos que preparar as pessoas e estimular o intercâmbio de experiências. Sem educação e não combatendo a ignorância, não há solução. Oficinas e cursos profissionalizantes denominados "Práticas do Aprender" trabalham a concepção, refletindo e analisando criticamente a partir da prática e da inserção da realidade vivenciada.
Geraldo Gentil - O PAN Brasil e a ASA-Brasil - Articulação do Semi-Árido, ong que congrega cerca de 800 instituições da sociedade civil no Semi-Árido Brasileiro, tem apresentado grandes propostas, como o P1MC, o Uma Terra Duas Águas (P1+2), as Sementes da Paixão, e outros como os Projetos Amanhã, o Mandala.
É preciso repensar e propor políticas públicas e ações de convivência sócio-econômica para a região. Tendo vivido por um período no Nordeste semi-árido - minha filha adorava passear nas feiras - acredito que as soluções podem e devem vir basicamente do próprio nordestino e do sertanejo, antes de tudo um forte, parodiando Euclides. O importante é erradicar a pobreza e dar direito à cidadania.

FMA - Ou seja, sem educação não há solução?
Marisa
- É verdade, a educação profissionalizante é fundamental para a convivência com o Semi-árido brasileiro. Pensar urgentemente em propostas que valorizem as riquezas do Semi-árido e possibilitem oferecer um ensino mais significativo para os jovens visando sua fixação, voltadas para a melhoria das condições de vida no campo. Isto é responsabilidade de todos nós educadores, preocupados com o futuro das próximas gerações, tão desprovidas de oportunidades. É preciso pressa. Os jovens rurais são potenciais sabedores das formas de relacionar e explorar suas potencialidades, através da convivência sustentável com a região, construída com os saberes empíricos dos pais agricultores, a partir da luta pela água, pela terra, pelos seus direitos e cidadania, e principalmente pela sua própria sobrevivência. Porque não dizer, resistência.
Geraldo Gentil - Vejo o Nordeste e em especial o Semi-árido, como uma região polêmica e de grande potencial natural e social. Não fosse assim, não seria tão populosa.
Mas vejo que historicamente a região tem ficado defasada do desenvolvimento nacional, são precisos investimentos maciços para resgatá-la.

FMA - Faltam polícias públicas...
Geraldo Gentil -
Sim, a verdade é que faltam políticas públicas consistentes, apropriadas para o clima seco, que deve ser visto não como entrave, mas como um fator capaz de gerar riquezas para seus filhos de forma sustentável. Para tanto todos precisam agir: é urgente erradicar o mal maior, o analfabetismo, o pai e mãe da pobreza. E junto, de imediato, há que se revitalizar as bacias e sub-bacias nordestinas, que estão à deriva, como a do rio Paraíba e tantas outras.
Muitos não acreditam que existe desertificação, mas é um processo que vem crescendo a olhos vistos e com uma gravidade cada dia maior.

Em Campina Grande/Lagoa Seca-PB, participantes do Seminário sobre Convivência com o Semi-árido

“A educação profissionalizante é fundamental para a convivência com o Semi-árido. Pensar urgentemente em propostas que valorizem as riquezas do Semi-árido e possibilitem oferecer um ensino mais significativo para os jovens visando sua fixação, voltadas para a melhoria das condições de vida no campo, uma questão de sobrevivência e resistência”.

 

Glossário

ABEAS - Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior.
ASD - Áreas Susceptíveis à Desertificação, cobrindo mais de um milhão de km² em nove estados, cujos focos mais degradados são os do Seridó-PB/RN, Gilbués-PI, Irauçuba-CE e Cabrobó-PE; muitos outros estão em formação acelerada. Vasconcelos Sobrinho foi o pesquisador que denominou "núcleo de desertificação" a ocorrência - isolada ou agregada - de manchas de solo onde o horizonte superficial encontra-se muito erodido e, em muitos casos, aflorando a rocha.
Barraginhas - Programa de oasificação concebido por Luciano Cordoval, da Embrapa/CNMS, para coleta de água de chuva segundo o princípio indiano "colher a gota de chuva em pé", i. é, antes que as enxurradas causem erosões e atinjam os corpos d'água.
CPO-3 - Conferência das Partes das Nações Unidas, da Convenção de Combate à Desertificação, ocorrida em Recife em novembro de 1999.
DSSB - Curso de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido Brasileiro.
IICA - Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura.
PAN Brasil - Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação da Seca do MMA, é um instrumento norteador que busca harmonizar ações e maior cooperação entre todos os envolvidos com a questão da desertificação; para tanto, a participação das comunidades é fundamental.
P1MC - Programa por um Milhão de Cisternas para coleta de água de chuva do telhado, do MMA.
Projeto Amanhã - Projeto da Codevasf para capacitação e organização profissionalizante de jovens com faixa etária entre 14 e 26 anos, tendo formado 15 mil jovens em 15 anos (veja matéria nesta edição); está em estudos a instalação de uma unidade em Gilbués; o ideal seria atuar em cada núcleo de desertificação, mas a Codevasf não atua no RN/PB e CE.
RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural, proteção espontânea da biodiversidade pelo proprietário, com averbação em cartório.
Sementes da Paixão - Rede de agricultores para troca de sementes locais ou nativas, que técnicamente são chamadas de "sementes crioulas", com patrimônio genético do Semi-Árido.
Uma Terra Duas Águas (P 1+2) - Programa que propõe que cada agricultor tenha uma terra para plantar e duas fontes de água, uma para beber e outra para a produção agrícola.