Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Ierecê Lucena Rosa

Silvestre Gorgulho, de Recife

O modelo E-70 mede 135 metros de altura, pesa quase 1.000 ton e produz 2MW de potência.

Ir a Porto de Galinhas, no litoral pernambucano, faz sempre bem ao corpo e à alma. O lugar tem beleza que bate nos olhos e tem praias, artesanatos e um povo alegre e receptivo. Na minha última viagem a Porto de Galinhas acabei conhecendo um centro de pesquisa de cavalos-marinhos (o projeto Hippocampus) e fiz uma matéria sobre esses bichinhos maravilhosos que eu pouco conhecia. Mas me fascinei por eles. O que não é novidade, pois esse fascínio acontece com todos que têm a oportunidade de conhecer mais de perto o mundo dos cavalos-marinhos. Foram tantos telefonemas, e-mails e cartas que me senti recompensado pela reportagem. Mas um telefonema foi especial e me leva a escrever mais ainda sobre os cavalos-marinhos. Foi da bióloga Ierecê Lucena Rosa(foto), que coordena um projeto de pesquisa nacional sobre esses peixinhos, como parte das ações do Probio - Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira, do Ministério do Meio Ambiente. O projeto estuda a biologia e ecologia dos cavalos-marinhos e analisa o comércio desses animais no nosso País. É constituído por 21 pesquisadores e executado em parceria com o Ibama, por meio de dois centros pesqueiros, Cepsul e Cepene, e da Gerência Executiva do Ceará. E qual o motivo do telefonema? Sim, Ierecê queria dizer que a matéria de março foi uma surpresa para ela, pois o jornal dizia que o Hippocampus era o único projeto do Brasil a trabalhar com cavalos-marinhos. E não é. Veja o porquê nesta entrevista que fizemos com Ierecê Lucena Rosa.

Folha do Meio - Quando você deu início aos estudos sobre cavalos-marinhos?
Ierecê -
Foi em 1999, quando passei um ano trabalhando junto ao Project Seahorse, no Canadá. O Project Seahorse (www.projectseahorse.org) é o maior e principal projeto de conservação dos cavalos-marinhos e seus ambientes, e coordena as ações mundiais em prol desses animais.
O Project Seahorse foi oficialmente criado em 1996 e foi que revelou ao mundo a situação de ameaça que paira sobre os cavalos-marinhos. De volta ao Brasil, coordenei os primeiros estudos acerca dos cavalos-marinhos no nordeste brasileiro, com apoio da Fundação O Boticário.

O belíssimo peixe cachimbo que é da família dos cavalos-marinhos

FMA - Como está a captura de cavalos-marinhos do Brasil?
Ierecê -
Quando iniciei meus estudos, a cota de captura para cavalos-marinhos no Brasil era de 5.000 exemplares–espécie–empresa–ano. Hoje é de 250 exemplares–espécie–empresa–ano. Isto mostra a seriedade com que o Ibama tem olhado a questão dos cavalos-marinhos e também dos demais peixes ornamentais marinhos, cuja exportação foi recentemente regulamentada por Instrução Normativa.

FMA - Já que há muito interesse nos cavalos-marinhos, diga uma coisa: quem são eles?
Ierecê -
Os cavalos-marinhos são peixes ósseos, conhecidos cientificamente pelo nome de Hippocampus. Juntamente com os peixes-cachimbo e dragões marinhos constituem uma família, que tem o nome de Syngnathidae.
A maioria das espécies de cavalos-marinhos é encontrada na região do Indo-Pacífico, principalmente na Austrália.

FMA - O que os distingue de outros peixes?
Ierecê -
A cabeça dos cavalos-marinhos apresenta um focinho em forma de tubo, o corpo é revestido por anéis ósseos, e a cauda é preênsil, ou seja, tem a capacidade de se agarrar a substratos como algas, corais, raízes de mangue, entre outros. Ambos os sexos também utilizam a cauda para segurar-se ao parceiro durante o acasalamento. Como você explicou na reportagem anterior, mais surpreendente ainda é a reprodução desses animais, pois é o macho quem fica "grávido" e cuida dos filhotes em uma bolsa incubadora localizada no seu ventre. Além disso, em algumas espécies os parceiros são fiéis um ao outro.

Ierecê: é importante compartilhar pesquisas e informações
Quanto mais projetos competentes e pesquisas bem fundamentadas sobre estes peixes, muito melhor


FMA - E como eles evitam os predadores?
Ierecê -
Principalmente pela camuflagem, tornando difícil sua localização por parte dos predadores. Esses animais mudam de coloração de acordo com o ambiente onde se encontram, e muitas das suas espécies desenvolvem filamentos sobre o corpo. Além disso, sua estrutura corporal óssea faz com que não sejam tão palatáveis. Infelizmente, os mecanismos de defesa dos cavalos-marinhos tornam-se inúteis quando entra em cena o ser humano, que consegue localizar e capturar grandes quantidades para várias finalidades: comercialização como peixes ornamentais, suvenires e medicamentos.

Acasalamento: a fêmea deposita os ovos na bolsa incubadora do macho que é quem fica grávido

FMA - Como está a criação em cativeiro?
Ierecê -
Mundialmente, o cultivo comercial está centrado nos Estados Unidos e Austrália, embora países como a China e o México venham desenvolvendo já há algum tempo experimentação com essa finalidade. No Brasil, não existe uma aqüicultura de cavalos-marinhos, por uma razão simples: ainda não existe um protocolo para cultivar as espécies que aqui ocorrem, em todas as suas fases de vida.
Com relação à criação em cativeiro para fins ecológicos, esta requer um planejamento impecável, pois, caso contrário, a soltura indiscriminada de animais no meio pode acarretar em problemas genéticos para as populações naturais ou possibilitar a disseminação de doenças no meio. Estes cuidados devem ser observados também por aquaristas que, ao se desfazerem dos seus aquários, sintam-se tentados a soltar os peixes no meio natural. Esta é uma prática que deve ser evitada.
É bom lembrar ainda que de nada adianta colocar cavalos-marinhos em um ambiente poluído ou que não apresente as condições necessárias para a sobrevivência da espécie.
No momento atual, o enfoque da conservação dos cavalos-marinhos deve concentrar esforços nas populações naturais e seus ambientes, pois até que a aqüicultura possa substituir as capturas na natureza, se é que isto acontecerá a curto prazo, muitas populações naturais podem vir a ser perdidas para sempre. Mas isto não quer dizer que as pesquisas voltadas para a manutenção dos cavalos-marinhos em cativeiro não devam ser estimuladas, pois elas são importantes e necessárias.

 FMA - Por que a conservação dos cavalos-marinhos é importante?
Ierecê -
Porque além de serem animais singulares, possuidores de uma biologia e morfologia especiais, são animais "simpáticos" e inofensivos, que atraem o apoio público para a proteção de ambientes como manguezais e recifes.
Ao proteger o ambiente dos cavalos-marinhos, estaremos protegendo, além deles, muitas outras espécies que talvez não atraíssem tanto apoio para sua conservação.

Como souvenirs ou como fantasias farmacêuticas, os cavalos-marinhos são secados e vendidos livremente

FMA - Como compartilhar estas pesquisas e informações?
Ierecê -
A conservação e o manejo das populações de cavalos-marinhos e seus ambientes envolvem uma série de pessoas e instituições.
As responsabilidades são de todos os envolvidos nos processos de extração e comercialização, bem como dos pesquisadores e formuladores de políticas públicas. O importante é dialogar com todas os grupos de interesse e unir esforços. Afinal, o que todos os grupos deveriam buscar é a conservação dos cavalos-marinhos, cada um por seus motivos peculiares, sejam eles ecológicos, éticos, comerciais etc.
Nós aqui estamos dispostos a somar esforços com quer que seja. Quanto mais projetos competentes e pesquisas bem fundamentadas sobre estes peixes, melhor.

silvestre@gorgulho.com

Mais informações:
http://www. dse.ufpb.br/lapec
email: ierece@dse.ufpb.br