Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Paulo Macedo

silvestre@gorgulho.com

Silvestre Gorgulho, de Brasília

“Só a título de exemplo,
antes do programa, a emissão
média de
monóxido de
carbono (CO)
por veículo era de
54 g/km e hoje essa
emissão é 0,4 g/km”

O século 20 foi o século do automóvel. O carro passou a fazer parte da vida do homem em todas as direções: transporte, status, lazer, independência e liberdade. Por isso o carro saiu, no início do século, da idade da pedra lascada para entrar no século 21 na idade do chip. Na década de oitenta houve necessidade de se adequar o carro a alguns itens essenciais: segurança, trânsito, conforto e meio ambiente. Assim nasceram várias tecnologias e até um programa governamental que contemplasse as emissões atmosféricas de origem veicular. Tudo a partir da constatação de que a grave poluição ambiental verificada nos grandes centros urbanos era causada predominantemente pelos poluentes atmosféricos gerados na queima de combustíveis em veículos automotores. Em 1986, procurando viabilizar economicamente e tecnicamente o programa, o Conama criou o Proconve - Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores. Objetivo principal: reduzir os níveis de emissão de poluentes nos veículos automotores e incentivar o desenvolvimento tecnológico nacional, tanto na engenharia automotiva, como em métodos e equipamentos para a realização de ensaios e medições de poluentes. O governo estabeleceu, então, os limites máximos de emissão de poluentes dentro de um cronograma específico para três categorias distintas de veículos: veículo leve de passageiros (automóveis); veículo leve comercial (pick-up, van, utilitários, etc) e veículo pesado (ônibus e caminhões). E como foi desenvolvido o Proconve? Simples, com a aplicação de tecnologias e sistemas que otimizassem o funcionamento dos motores para proporcionar uma queima perfeita de combustível e conseqüente redução das emissões, bem como do consumo de combustível. O grande passo veio com a introdução da ingeção eletrônica e, depois, com o uso dos catalisadores. Em 1997, na segunda fase, essas duas tecnologias tiveram que se juntar e foi preciso ainda, acrescentar novos dispositivos, como sensor de oxigênio e outros componentes que compõem a chamada eletrônica embarcada. Para explicar toda essa evolução tecnológica e o futuro dos automóveis em relação ao meio ambiente, ninguém melhor do que o analista ambiental Paulo Macedo, coordenador de Gestão da Qualidade Ambiental do Ibama e coordenador do Proconve.

O que o Proconve mudou no automóvel brasileiro nestes 16 anos de implantação do programa?
Passados 16 anos, podemos afirmar, com total segurança e orgulho, que o Proconve é um programa de enorme sucesso. Nesse período, os resultados alcançados mostraram que a estratégia adotada para implantação no Brasil de um programa de controle de emissão de poluentes por veículos automotores foi corretamente montada.
O êxito do programa se deve a um cronograma bem elaborado, com etapas cada vez mais restritivas, mas sempre em sintonia com a realidade brasileira.
Hoje, nossos automóveis não podem mais ser chamados de "carroças", pois são produzidos de acordo com as mais avançadas tecnologias utilizadas pela industria automobilística mundial, não apenas em controle de emissão de poluentes, mas também em segurança, desempenho, estilo, conforto etc.

 

Toda mudança não é fácil. Quais foram os momentos críticos nas negociações para implantação deste processo tecnológico?
PM -
Os momentos críticos sempre são aqueles das negociações iniciais, onde cada uma das partes tenta convencer a outra com seus argumentos. No final, acordadas as etapas e as exigências, todos, sem exceção, passaram a se empenhar na execução das metas traçadas.
Cabe aqui ressaltar, que tudo que foi conseguido, somente o foi, porque todos os envolvidos assumiram suas responsabilidades e se empenharam ao máximo na implantação do Proconve.
 

Há que se destacar o mutirão de colaboradores. Várias entidades e empresas deram uma contribuição valiosa: a Anfavea, representando as montadoras, a Cetesb com sua excelência técnica, a antiga Sema, a STI, o CNP, o DNC, o Inmetro, a Petrobrás, a Feema, Denatran, Sindipeças, enfim, todos participaram deste processo.
Folha do Meio - Quais os primeiros e principais resultados?
PM -
Os mais expressivos são: a modernização do parque industrial automotivo brasileiro; a adoção, atualização e desenvolvimento de novas tecnologias; a melhoria da qualidade dos combustíveis automotivos; a formação de mão-de-obra técnica altamente especializada; o aporte no Brasil de novos investimentos, de novas indústrias, de laboratórios de emissão; e, o maior de todos os seus feitos, a redução na fonte, ou seja no veículo, em até 98% da emissão de poluentes.

Dá para comparar a emissão média na década de 80 e hoje?
PM -
Só como exemplo, antes do programa, a emissão média de monóxido de carbono (CO) por veículo era de 54 g/km, hoje essa emissão é 0,4 g/km. Mesmo com o significativo aumento da frota brasileira de veículos automotores, estes resultados fizeram com que tivéssemos condições de exercer um melhor controle sobre a poluição atmosférica, garantindo a qualidade do ar em nossas grandes cidades.
Somente na região metropolitana de São Paulo, comparando-se os índices de poluição do ar de 1985 para 1999, houve uma redução média de 17,5% na concentração dos principais poluentes. E olha que houve, neste período, um aumento de 145% da frota.

Agora é a vez de adequar as motos
E conheça os próximos passos do Proconve ainda para 2004

Existe ainda algum passivo por parte da indústria automobilística nesta história de 16 anos do Proconve?
PM -
No meu entender não. Todos cumpriram com suas obrigações, alguns problemas de percurso foram resolvidos de forma eficaz pelo Ibama. Hoje, estamos no início de colheita dos frutos plantados.

Existe algum combustível não poluente?
PM -
Dizer que esse ou aquele combustível não é poluente não seria uma forma correta de abordar o tema. O controle de emissão se dá através da conjugação de dois fatores: tecnologia de motor e qualidade do combustível.
Quando essa duas coisas se completam, temos então uma baixa emissão. Todo motor a combustão interna emite gases com qualquer combustível, o que fazemos é controlar, através da aplicação de tecnologias e da melhoria na qualidade do combustível, a emissão dos gases mais nocivos ao ser humano e ao meio ambiente.

Nem o gás natural, o carro elétrico?
PM -
O exemplo do gás natural veicular (GNV) é atual e ilustrativo. É um combustível de grande potencial ecológico se usado adequadamente, ou seja, se for aplicada aos veículos que o utilizam, a tecnologia adequada. Se isso não ocorrer, este potencial do GNV é totalmente desperdiçado e estes veículos passam a poluir muito mais do que um veículo movido a gasolina ou álcool.
Quanto ao carro elétrico, este, como transporte regular, ainda está muito distante de nossa realidade.

Dá para dar exemplos?
PM -
Dá sim, veja uma situação bem prática: se você estiver com a boca do seu fogão desregulada, o que acontece com o fundo da panela? Vai ficar preto, que não aconteceria se a boca estivesse bem regulada. Coisa parecida acontece quando um motor é convertido para o uso do GNV sem a tecnologia adequada.

Mas o carro elétrico tem futuro comercial sim, já não são usados nos aeroportos e campos de golfe?
PM -
Sim, acredito que em um futuro não muito perto pode ser que venha ser usado em larga escala. Mas no momento ainda deve continuar tendo só esse tipo de aplicação.

Por que o Proconve só trabalha com automóveis. E as motos?
PM -
As motos não foram esquecidas, era uma questão de prioridade. Desde 1993 já controlamos os níveis de ruído.
A discussão sobre emissão de gases poluentes começou 2000, mas desde 1997, após a constatação da tendência de crescimento da produção nacional de motocicletas, vimos acompanhando o comportamento deste mercado.
Assim, em 2001, criamos o Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares - PROMOT que se propõe a alcançar, para as motocicletas, os mesmos resultados obtidos com os automóveis.
A sua primeira fase teve início em janeiro de 2003. Mais duas estão previstas para 2005/2006 e 2009, todas buscando a aplicação de novas tecnologias de controle de emissão de poluentes e conseqüentemente trazendo todas as atualizações tecnológicas. Isso vai fazer nossas motos darem um salto em modernização.

Qual o próximo passo para o Proconve?
PM -
Parte significativa dos benefícios do Proconve ainda está por vir, pois depende do sucateamento natural dos veículos da fase pré-1989 e da implementação de programas de inspeção e manutenção dos veículos em uso.
A implementação destes programas certamente contribuirá para a manutenção dos níveis de emissões homologados para os veículos novos.
Apesar da inspeção de emissões estar regulamentada pelo Conama desde 1993, apenas o estado do Rio de Janeiro tomou alguma iniciativa de implementar programas dessa natureza. Nos demais estados, seja por falta de interesse ou por questões político/burocráticas, ou ainda, pela alegada dependência da regulamentação, pelo Contran, da inspeção de segurança, ainda não foi efetivamente posta em prática a inspeção veicular.
Estes programas são necessários para que os proprietários de veículos automotores dêem sua efetiva contribuição na redução da poluição do ar.

E o que o Conama já regulamentou para 2004?
PM -
Bem, para 2004 vamos trabalhar na implementação das novas etapas já regulamentadas pelo Conama, iniciando-se com as novas exigências para os ônibus urbanos que passarão a vigorar, também, em 2005, 2006 e 2007, para todos os outros veículos pesados.
Novas etapas com limites mais exigentes também entram em vigor em 2006 e 2007 para veículos leves. E ainda, para 2009, novas etapas, tanto para veículos leves como para veículos pesados, já estão regulamentadas.
Nestas novas fases os alvos prioritários são os hidrocarbonetos(HC) e os óxidos de nitrogênio(NOx), por serem precursores de ozônio. Os maiores ganhos da implementação das novas fases do Proconve estarão na indução de aperfeiçoamentos tecnológicos nos veículos do ciclo diesel.

Qual é o ranking nacional dos veículos construídos ambientalmente mais corretos?
PM -
Organizar esse ranking é uma meta antiga, mas sempre aparecem outras questões mais prioritárias. O importante é lembrar que todos os nossos veículos estão emitindo muito abaixo do limites legais estabelecidos. Logo, logo vamos incentivar a realização desse ranking.

Paulo Macedo é coordenador de Gestão da Qualidade Ambiental do Ibama e coordenador do programa

Paulo Macedo -