Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

MÁXIMAS DA CORTE

            (Brasília, 10 de janeiro de 1995)

  Conheça bem as 17 máximas da Corte e

saiba curtir as maravilhas do poder

 

Silvestre Gorgulho


Viver é um perigo e requer cuidado. Onde tem chefe, têm subordinados. Onde tem chefes e subordinados, tem poder, tem rico, tem pobre, têm puxa-sacos, têm conquistas, têm galanteios, tem mesura, tem lobby, tem bajulação, têm interesses e, é lógico, tem Corte. Quanto mais concentração de poder, mais a Corte funciona. Assim é numa tribo do Xingu, assim é no Rio de Janeiro, Paris, Moscou, São Paulo, Europa, França e Bahia. E, por que não, na Capital da República. Quem quiser se dar bem na Corte precisa conhecer as regras, os comportamentos e entender o maior recado do século 21: na sociedade de informação, tudo é milimetricamente calculado. E tudo acaba em marketing. Não vale mais aquele velho slogan do sabão “Vale quanto pesa”. O slogan é outro: “Vale quanto parece”. Explicando melhor: o sucesso é medido menos pelo que se é, menos pelo que se faz e muito mais pelo que se aparece. Vamos às regras que fazem o bom cortesão ou a boa cortesã. A primeira regra é, logicamente, identificar quem é bom de Corte:

1 — Faz sucesso na Corte quem levanta cedo, dorme tarde e tem cacife para entrar direto no gabinete do Grande Chefe. Sem passar pelo ajudante-de-ordens.

 

Quem é bom de Corte sabe diferenciar uma informação de um boato. A Corte é recheada de DENOREX: parece que é, mas não é. A informação pela manhã é uma, à tarde é outra e à noite mudou tudo. Viver a Corte é conhecer esta segunda regra:

2 — O boato tem que ter lógica, a informação não. Quem acha que está entendendo tudo, é porque está mal informado.

 

Preste atenção porque a terceira regra da Corte é de vida ou morte:

3 — SE VOCE TEM 10 MINUTOS RESERVADOS COM UMA AUTORIDADE, SAIBA QUE OS 9 PRIMEIROS MINUTOS É PARA FALAR O QUE ELA QUER OUVIR. SEU PEDIDO NÃO PODE LEVAR MAIS DE UM MINUTO. E NO FINAL.


O difícil para quem está no poder, será sempre a guerra entre os subalternos e os amigos dos subalternos: os “aspones” do primeiro e do segundo escalão. O mercado de vaidades nunca está em baixa. Ciúme de homem é fogo. Nem o cacique Juruna largava seu gravador. E se deu bem. A quarta regra da corte mostra que as gravações são feitas para tornar os amigos mais espertos e os inimigos menos poderosos. Quem filma e grava, vira herói:

4 — A MÍDIA, A JUSTIÇA E OS BLOGs ADORAM A TRANSCRIÇÃO DE UM TELEFONEMA. MELHOR, SÓ UM FILMINHO COM CÂMERA ESCONDIDA.

 

 

 

 

Mas um bom assessor tem jogo de cintura. Sabe sair de qualquer enroscada. Decide tudo e não assina nada. Sua máxima é a máxima de quem quer ficar sempre bem com todos os chefes possíveis e imagináveis. É que os chefes são muitos: existe o chefe propriamente dito, mas chefe também é a mulher do chefe, a secretária do chefe, a amante do chefe e até a mãe do chefe. Bom assessor é aquele que cumpre à risca a quinta regra da Corte:

5 — SE VOCÊ RECEBER DUAS ORDENS CONTRADITÓRIAS, CUMPRA AMBAS.

 

 

 

Quem é de Corte precisa agradar. Simpatia, ombro amigo, apoio logístico, quebra galho são adjetivos que viram substantivos e funcionam como verbo e verba numa Corte. A sexta regra é clara:

6 — Para ganhar confiança é preciso ser íntimo. Aquele que trabalha pouco, mas circula muito terá sempre maior reconhecimento e oportunidade de servir.

 

 

Mas viver na Corte não é fácil. Exige etiqueta, diplomacia, humildade, cavalheirismo e muito jogo de cintura. Sobretudo criatividade. Se, por acaso, algum dia, em pleno Itamaraty, ou qualquer outro salão real, acontecer um desastre, cuidado! Muita serenidade. Busque logo uma saída que seja engraçada, mas ao mesmo tempo politicamente correta. Se cair no meio do salão principal do Palácio da Alvorada, por exemplo, não titubeie, pegue uma flor ou sua própria comenda na lapela e ofereça à primeira dama que passar. A sétima regra da Corte é da própria sobrevivência:

7 — Aconteça o que acontecer, aja como se tivesse sido proposital.

 

 

Mas não se esqueça nunca de uma verdade: é sempre difícil corrigir o mal feito. Num improviso, por exemplo. Nem sempre uma escorregadela é passível de muita explicação. Na maior parte das vezes o melhor é deixar correr... Corrigir chamará mil vezes mais atenção. A oitava regra da Corte é definitiva:

8 — Cuidado! Quando se fala uma besteira ao microfone, qualquer tentativa de explicá-la deixa você pior.

 

 

A mulher é sempre um charme, mas a vida é machista. Há de ter muita categoria para enfrentar a Corte. Estar com o poder significa estar com quem decide. Significa estar com quem assina as portarias que podem lhe dar oportunidade de ganhar ou de perder. Não só pelo negócio em si, mas também por antecipar e desvendar o segredo de um Decreto que só será assinado amanhã e conhecido pelo Diário Oficial de depois de amanhã. Isso vale ouro! Isso vai obrigar o nosso cortesão a ter muita tolerância pelo chá de cadeira, pelos coquetéis e pelas noitadas. Não vá naquela de responder tudo, tim-tim por tim-tim para sua esposa. Na primeira briga ela vai contar para a irmã, que vai contar num absoluto segredo para a amiga mais íntima, que conta para a vizinha, que conta o marido que conta para a amante e... pronto. Três dias depois a informação privilegiada está no bar do Piantela. Daí, a nona regra da Corte é extremamente machista:

9 — Os homens mentiriam muito menos se a mulheres fizessem menos perguntas!

 

Na Corte, agrado é meio de vida. O elogio é mais importante do que o ar que se respira. Sempre. Em qualquer situação. Um cortesão que se preza é um gentleman. Por isso, a décima regra da Corte é eficaz, mas há que ter muita experiência para implementá-la.

10 — Nunca deixe uma história ficar menos excitante. Elas devem ser enfeitadas pela arte de exagerar e até, se preciso, mentir.

 

Mas, se por acaso, você quiser deixar de ser um simples coadjuvante. Quiser ser um personagem, um artista de primeira grandeza na Corte, não pestaneje: entre na política. Se candidate a alguma coisa. Pode ser a deputado, senador, a governador. Coisa boa. Ai você vai precisar de dinheiro para campanha. Caixinha da campanha! Preste atenção: nunca chegue pedindo dinheiro para ninguém. Diga, sempre, que tem um projeto político importante, precisa defender algumas idéias que valorize a responsabilidade social e cidadã. Eleito, valorize e prestigie sempre quem tem a chave do cofre. Mas lembre-se: quem tem a chave nem sempre é aquele que carrega a chave... A décima-primeira regra, é uma lição que vai além da Corte:

11 — Um bom político nunca pede dinheiro. Diz, com convicção, quanto o doador poderá ganhar com seu mandato.

 

Agora uma regra para quem vive na Corte, mas não é político e passa por dificuldades financeiras. Nunca abra o jogo que o negócio vai mal... que precisa de ajuda. Pedir socorro é pedir para todo mundo sumir. Espanta! Se a chefia é tucana ou petista, então, nem brinque. É isolamento certo. A décima-segunda regra da Corte é justamente para esses casos:

12 — Se seu negócio não vai bem, procure expandi-lo mais ainda.

 

A troca de poder é um perigo. Largar o poder, nem se fala. Exige mudança rápida de comportamento, de amigos e, quando em vez, de partido político. Aí aprende-se que a Corte é uma ilusão. É um toma lá-dá-cá. A Na corte, como sapo: pula-se não por boniteza, mas por necessidade. Não se vive na Corte só por gosto, vive-se também por obrigação e por profissão. Com o poder lá longe, aprende-se a décima-terceira regra da Corte:

13 — Os amigos vêm e vão. Os inimigos se acumulam.

 

 

É sempre bom lembrar os estímulos do poder, as festas, as lindas damas, algumas piscadelas, os sorrisos, os presentes, os elogios, o jogo de sedução, os ciúmes e tudo mais que faz o poder tão afrodisíaco. Aí é que se aprende a décima-quarta lição, que não deixa de ser a lei da compensação:

14 — Cada lugar tem suas vantagens: o céu, pelo clima.  e o inferno, pela vida social.

 

 

Mas o verdadeiro cortesão é sempre autodidata. Se mira no conselheiro Chalaça. Dá conselhos sobre tudo e para todos. E, de tanto dar conselhos, ele próprio cunhou a décima-quinta lição da Corte:

15 — Não adianta dar conselhos racionais a um homem em quatro situações: quando está apaixonado, quando está bêbado, quando é candidato e quando tem o poder supremo.

 

 

Quem é da Corte está acostumado a assistir entrada e saída de governos. A entrada é sempre triunfal e a saída é melancólica. O cortesão pode até ter dúvida de quem vai passar a faixa para o eleito, mas, se acompanha esse entra e sai de governo, sabe muito bem que os órfãos de hoje podem voltar ao poder amanhã. Assim, vale conhecer bem a décima-sexta lição:

16 — Tudo que deu certo num governo será alterado pelo próximo.

 

 

Por fim, a décima-sétima lição, felizmente ou infelizmente, é uma lição de vida:

17 — Quem não puxa-saco, puxa carroça.

 

 


 silvestre@gorgulho.com