Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Poesia - Tributo aos Poetas

Brasília,  24 de janeiro de 2010

Sem poesia, não há salvação. A economia fica terrivelmente árida, a religião sufoca, o esporte perde a graça, a política embrutece, a justiça não humaniza, o administrador desmobiliza e o professor não emociona. A poesia salva. Como salvou a Biblioteca Nacional de Brasília (BNB).
Quando assumimos a Secretaria de Cultura, em janeiro de 2007, a Biblioteca Nacional de Brasília não era apenas um prédio inacabado. Era um prédio inacabado que já precisava de reformas. O governador Arruda não só encarou a reforma como promoveu uma reunião entre o GDF e os ministros Sérgio Resende (Ciência e Tecnologia) Gilberto Gil (Cultura) Fernando Haddad (Educação) e a Universidade de Brasília, para formarem uma comissão intergovernamental que estudasse o futuro e a gestão do Complexo Cultural da República. Foi o primeiro passo para se conseguir chegar ao sucesso que são hoje Museu e Biblioteca.
Por que é importante relembrar estes fatos? Porque o problema não era só de recursos financeiros. Era, sobretudo, de gestão. De buscar um caminho criativo, uma vocação cultural e social para os dois espaços.
Na BNB, o sucesso veio graças ao incondicional apoio do IBICT (Emir Suaiden e Cecília Leite) e da RNP – Rede Nacional de Pesquisa (Nelson Simões) que, somado à determinação e dedicação de Antonio Miranda, Sandra Furlan, Lúcia Moura, Liliane Bernardes, Angélica Torres, Edlúcia Manduca, Fernando Vasconcelos e Elmira Simeão, conseguimos colocar a Biblioteca para funcionar. E bem!
Hoje a BNB, que tem mais de trinta mil pessoas cadastradas, promove oficinas, cursos, exposições de arte e ainda conseguiu as bênçãos de Oscar Niemeyer para adequar um novo salão de leitura à Praça da Língua Portuguesa, que recebeu os azulejos do mestre maior Júlio Pomar.
E não parou aí: ao tempo que recebia e catalogava o seu acervo, que chega hoje a cem mil volumes, enquanto ligava e criava novas redes de computadores, Antonio Miranda, Sylvia Cyntrão, Wagner Barja, Salomão Sousa, Liliane Bernardes, Graça Pimentel e Angélica Torres plantaram um projeto que desembarcou na I Bienal Internacional de Poesia de Brasília: o Tributo ao Poeta.
O Tributo ao Poeta foi uma iniciativa que deu alma à Biblioteca e mais vida à Brasília. Como nos saraus e recitais, o Tributo formou uma corrente pela poesia e incentivou outras iniciativas que brotaram em cafés, bares, residências e até em barcos, nas noites enluaradas pelo Lago Paranoá. Afinal, Brasília nasceu na prancheta do arquiteto maior, sob a aura da poesia em concreto, inspirada “na curva livre e sensual das montanhas de meu país, no curso sinuoso dos rios, nas nuvens do céu e no corpo da mulher amada”.
O projeto, ao homenagear os poetas, encantou os brasilienses. Se nem todos fazem poesias, não há quem não goste de ouvi-las e não sinta necessidade de embarcar numa nuvem de rimas e ritmos. Só a poesia dá aos mortais a imortalidade da ventura, dos desejos e das esperanças mais remotas.
Foi na voz, na sensibilidade, na história e nos poemas que fazem a obra de Fernando Mendes Vianna, Cassiano Nunes, Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, José Godoy Garcia, José Santiago Naud, Marly de Oliveira, Anderson Braga Horta, Carlos Vogt e Viriato Gaspar, Ronaldo Costa Fernandes, Lina Tâmega Peixoto, Affonso Ávila, Renata Pallottini, Haroldo de Campos, Afonso Félix de Sousa, Cecília Meireles e, por fim, Oswaldino Marques, que Brasília prestou este tributo à poesia. Tributo àqueles que fazem a vida mais leve, mais solta e mais romântica.
Na vida, apenas uma certeza: a beleza acaba, o tesão diminui e a admiração pode decepcionar. Apenas a poesia faz amar sem explicações.
A força da edição deste livro está no resgate de uma iniciativa vitoriosa que comprova o milagre da poesia: fazer as pessoas mais sensíveis. Este é o diferencial para se mudar o mundo.
Sem poesia, não há salvação!

silvestre@gorgulho.com