Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Quinta das Lágrimas

“Coimbra do Choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal,
Ainda...

Coimbra, onde uma vez,
Com lágrimas se fez
A história dessa Inês
Tão linda!”

Silvestre Gorgulho, de Coimbra  (Coimbra - abril de 2002)

A história é longa, antiga, bonita e emocionante. Estive na Quinta das Lágrimas na Páscoa de 2002, com o jornalista Sebastião Nery, minha mulher e meu irmão João Vitor Gorgulho e minha cunha Jovelina Cabral. Vimos com nossos próprios olhos a beleza do lugar e aprendemos que o amor quanto mais intenso e quanto mais trágico, mais ele se eterniza na mente dos homens.

Os casais apaixonados fazem nossa cabeça. E, se há tragédia, fazem História. É o caso de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta que vem encantando gerações com livros, poesias e filmes. Mas, nada mais emocionante, mais arrebatador e mais comovente do que o amor de Pedro (Príncipe filho de Afonso IV) e Inês de Castro. Simplesmente porque, além de fascinante, comovente, bonito e trágico, essa é uma história real. Não tem nada de imaginário. História e tragédia estão documentadas. O próprio Camões referiu-se ao romance em Os Luzíadas. Até Victor Hugo e Pound também falaram do romance de Pedro e Inês de Castro. Pedro era filho de D. Afonso IV e foi o oitavo rei de Portugal. Reinou por dez anos, ou seja, de 1357 a 1367. Não confundir com nosso Pedro I que, ao abdicar ao trono do Brasil e ao passar o reino ao filho D. Pedro II, voltou para Portugal. Lá venceu uma guerra com seu irmão D. Miguel e se tornou D. Pedro IV.

Vale a pena conhecer um pouco da história do Príncipe Pedro, filho de D. Afonso IV. O Príncipe se casou com dona Constança, Infanta de Castela, em núpcias arranjadas pela família de ambos. Já no dia do casamento, porém, o coração do futuro rei de Portugal começou a bater por outra mulher. Apaixonou-se pela bela galega Inês de Castro, dama de companhia de dona Constança. Os dois se tornaram amantes e tiveram quatro filhos. Após a morte de dona Constança, ocorrida em 1349, a ligação entre eles se estreitou. É bom lembrar que as cortes fechavam os olhos para os casos de adultério masculino, interpretados como incontroláveis manifestações da virilidade.

O romance entre o Príncipe Pedro e Inês de Castro nunca foi tranqüilo. O pai do príncipe, D. Afonso IV, a nobreza e o clero, opuseram-se tenazmente, desde o início, ao relacionamento. Temiam que um dos filhos de Pedro com Inês, na época chamados de bastardos, pudesse reivindicar o trono, em lugar da linhagem julgada legítima. Criticavam a influência dos três irmãos da dama galega, estrangeiros como ela, nas ações do Príncipe, julgando-a prejudicial aos interesses de Portugal. O trio efetivamente procurou convencer D. Pedro a tomar para si o trono de Castela.
A expedição conquistadora foi suspensa na última hora, sob pressão de D. Afonso IV. A nobreza e o clero invejavam a receptividade concedida pelo herdeiro do trono português a outros fidalgos castelhanos. A saída encontrada pelos opositores do relacionamento foi o assassinato de Inês de Castro.

O crime aconteceu em 1355. Ela foi morta na Fonte dos Amores, da Quinta das Lágrimas, onde o casal se encontrava para namorar. Os assassinos eram os fidalgos Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco.

Ao ser degolada pelos punhais de Coelho, Gonçalves e Pacheco, Inês de Castro teria manchado as pedras da fonte com seu sangue. Até hoje as pedras da fonte são avermelhadas. Hoje se saiba que o fenômeno ocorre em virtude de um mineral presente na composição da rocha.

Quando D. Pedro recebeu a notícia da morte de sua Inês, quase enlouqueceu. Pegou em armas contra o pai e avançou em direção da cidade do Porto. Mas a mãe, dona Beatriz, e o bispo de Braga, seu amigo, convenceram-no a desistir da vingança. Guardando a dor, o Príncipe teria exclamado: "Agora Inês é morta". Daí que a expressão até hoje usada como resignação por uma situação irremediável.

Os assassinos fugiram para Castela (Espanha). Mas quando D. Pedro assumiu o Reino Português, sua primeira iniciativa foi combinar com o rei de Castela a troca de refugiados.
Entregou ao rei de Castela três fidalgos estrangeiros, exilados em Portugal, e recebeu em troca Coelho e Gonçalves. O terceiro assassino de Inês de Castro, o tal de Pacheco, escapou a tempo para Aragão e dali para a França. Coelho, líder do grupo, teve o coração arrancado pelo peito. Gonçalves teve o coração arrancado pelas costas.
O amor de D. Pedro era tanto que ele deu a seguinte ordem: mandou exumar a ossada de Inês de Castro. A cerimônia foi terrivelmente patética. E mais: D. Pedro I fez questão de coroar sua Inês como Rainha de Portugal. Então, os restos mortais da amada de D. Pedro I foram colocados numa liteira de luxo e, em procissão, levados do Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, onde se encontravam sepultados, até Alcobaça. No trajeto, a nobreza e o clero, que se opuseram ao romance, tiveram que reverenciá-la como Rainha de Portugal.
Houve até coroação. O novo rei ordenou que os presentes ajoelhassem diante do cadáver e beijassem os ossos da mão. Dizem que muitos saíram dali e passaram dias enxaguando a boca. Suspeitava-se que os cadáveres transmitissem a peste.

A Quinta das Lágrimas, às margens do rio Mondego, cenário dos amores proibidos entre o Príncipe Pedro e Inês de Castro, é uma espécie de Jardim Botânico de Coimbra. Hoje funciona ali um belíssimo Hotel da rede Relais Chateaux e casais apaixonados estão sempre visitando o local.
Lá, à beira da fonte no jardim, está gravada dois versos de Os Luzíadas, de Camões. Veja que maravilha!

“As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores."

« Estavas , linda Inês, posta em sossego,
de teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano de alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos de Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Os Lusíadas (Inês de Castro) - Luís de Camões


Visitar Coimbra e não ir à Universidade é uma insciência. Não conhecer a Quinta das Lágrimas é, no mínimo, insensibilidade.

Coimbra é capital do Distrito de Coimbra, situada na região Centro e subregião do Baixo Mondego. É a terceira metrópole portuguesa e tem cerca de 140 mil habitantes. Está a 200 km de Lisboa e a 100 km do Porto. Banhada pelo rio Mondego, Coimbra foi capital nacional da cultura em 2003. O município é limitado a norte pelo município de Mealhada, a leste por Penacova, Vila Nova de Poiares e Miranda do Corvo, a sul por Condeixa-a-Nova, a oeste por Montemor-o-Velho e a noroeste por Cantanhede.

 

 

 

 

 

 

 

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