Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Fascínio e ilusão: Dia do Índio

Silvestre Gorgulho

Hoje, o homem branco comemora o Dia do Índio. Qual o significado desta comemoração? Será, verdadeiramente, um dia especial em que a sociedade procura valorizar os primeiros habitantes desta terra, anunciando aos quatro ventos que é hora de respeitar seus direitos constitucionais? Ou será, simples-mente, pela dor de consciência, pelo remorso, pelas discriminações, pelas agressões e pelas omissões do todo-poderoso homem branco contra o acuado homem índio?

Por um motivo ou outro, hoje 19 de abril, comemora-se o Dia do Índio. É uma oportunidade para que todos possamos estudar e entender um pouco da História do Brasil, conhecer mais desta nação de 270 mil índios, divididos em 519 reservas, 200 tribos e falando cerca de 160 línguas diferentes.

Para se ter uma idéia da complexidade da questão indígena, estudiosos acham que ainda existam no Brasil cerca de 24 grupos indígenas totalmente isolados, sem nenhum tipo de contato. A Funai confirma a metade desse número. Na época do descobrimento, estima-se, havia em terras brasileiras cerca de 2 milhões de índios.

Quem tem razão é o mestre Antônio Callado: "Os índios nos fascinam porque são anteriores ao tempo”. Pensando bem, é a pura verdade. Tudo o que é anterior ai tempo fascina a gente: Adão e Eva os dinossauros, os faraós, Bíblia...

Quando Cristóvão Colombo aportou em terras americanas, aqui já estavam os índios. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil com suas 10 naus e três caravelas. aqui já estavam os índios.

Que saga fantástica desse povo, dessa gente, desses guerreiros' que são anteriores ao tempo?
E esse fascínio tem um misto de deslumbramento e de oportunismo. Na primeira missa rezada em solo brasileiro por frei Henrique de Coimbra, no Ilhéu de Coroa Vermelha, em Porto Seguro, os catolicíssimos portugueses tinham percebido uma coisa importante: os índios, pela primeira vez, poderiam ser usados como marketing. Esse sagrado momento, registrado em cartas e pintura, levaria o Reino a financiar novas expedições. Afinal, para o mundo cristão, o momento não era só de descobrir riquezas, mas, também, ge salvar almas.

As cores, a terra, as crenças. a madeira, o saber da floresta, os co-lares, tudo isso é motivo de inveja, de fascínio e de cobiça. Usados na manipulação de garimpos e de madeira, ludibriados por posseiros e fazendeiros, fotografados ao lado de candidatos para marketing eleitoral, estudados para melhor conhecimento da vida e do homem e conquistados com mais de 60 grupos de missionários, o índio tem seu nome exposto para o bem e para o mal. Onde quer que estejam, nu na floresta ou de calça Lee na Praça dos Três Poderes, eles continuam sendo a referência maior de uma cultura e de um país. E um país é feito de gente.

O índio do pantanal sul-mato-grossense, Marcos Terena, funda-dor da União das Nações Indígenas, foi muito feliz ao lembrar que “as diferenças entre nossas origens e nossos costumes devem ser fatores para grande celebração da pluralidade étnica e cultural do Brasil e jamais razão para discriminação”.

Anteriores ao tempo e exóticos no comportamento, os índios sempre fascinarão o homem branco. Sempre? Bem, se em 1500 eram cerca de 2 milhões e hoje não passam de 270 mil, chegará o dia em que não mais existirão. Aí, sim, podemos dizer como Julles Petit-Senn: "O que o tempo traz de fascínio não vale, com certeza, o que leva de ilusões”.

silvestre@gorgulho.com