Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

BRASÍLIA - Catedral de perna fina - viatura e gasolina

 

Brasília
 
 
 
 
 
Catedral de perna fina 
viatura e gasolina
 
 
Silvestre Gorgulho                                                                                 (22.abril.2010)
 
 
Os brasilienses se orgulham de sua cidade, mas nem sempre se comemorou o aniversário de Brasília como a data merecia. O primeiro ano, em 1961, foi comemorado com um simples coquetel. Nos anos seguintes, às vezes tinha alguma tímida celebração e, outras, apenas uma lembrança na mídia, com anúncios ou entrevistas. Para falar a verdade, nunca se comemorou o aniversário de Brasília como vem sendo feito desde abril de 2007. O governo plantou um grande evento. Fez questão de abrir espaço no Eixo Monumental para uma megafesta.
 
Em 2007, 650 mil pessoas ocuparam a Esplanada dos Ministérios para assistir a shows de bandas e cantores, modalidades esportivas e apresentações do mundo gospel.
Em 2008, a dose foi maior: 1 milhão de pessoas passou o dia na Esplanada para ver cavalgada, cultos ecumênicos, cultura, esporte, shows e queima de fogos.
Em 2009, mais esporte, mais cultura, mais shows, mais festa, mais alegria e muito mais gente: 1,2 milhão de pessoas. Recorde! Em 2010, no cinquentenário, depois de muito vai e vem, as celebrações atingiram a temperatura máxima com um show — por assim dizer — conceitual na Esplanada: “Brasília canta sua História”.
 
É Brasília buscando sua identidade pelos artistas que nasceram ou se criaram em suas superquadras, bares e teatros. Na Escola de Música ou no Clube do Choro.
Brasília faz 50 anos e quer mostrar ao Brasil que aqui é terra de todos sabores, cores, humores e valores.
 
Brasília fez uma festa para ouvir e cantar a si mesma na voz de Digão dos Raimundos, Plebe Rude, Nilson Freire, Adriano Faquini, Reco do Bandolim, Batalá, Izabella Rocha, Mel da Terra, Marcelo Sena, Coisa Nossa, Oficina Blues, Roberto Correa, Squema 6, Trio Siridó, Japão do Viela 17, Zé Mulado & Cassiano, Renata Jambeiro, Kiko Peres, Hamilton de Holanda, Pedro Paulo & Mateus, Renato Matos, Indiana Nomma, Dhi Ribeiro, Janette Dornellas, Leo Neiva, Oswaldo Montenegro, Paralamas, Zélia Duncan e um tributo a Renato Russo e Cássia Eller.
 
O fio condutor desse espetáculo candango foi a cantora Daniela Mercury. Por que Daniela? Simples: por sua generosidade em não só dividir o palco com nossos artistas, mas se dispondo a ajudar na concepção e na direção do espetáculo. Poucos sabem, mas o primeiro show solo dela foi no Gilberto Salomão, em Brasília. Daniela Mercury, embaixadora brasileira pela ONU, foi a primeira mulher a liderar um trio elétrico. Por tudo isso, foi a convidada para assumir esse desafio: contar a história de Brasília por sua música.
Fim de show emocionante: mais de 100 artistas candangos no palco lavando culturalmente a Esplanada com músicas que reafirmam nosso amor por Brasília pelo canto de seus talentos e pelas canções que eternizaram nossa história. Hino Nacional como gran finale? Não! Ainda tivemos o Milton Nascimento fazendo uma homenagem linda a JK, cantando Peixe-Vivo.
 
Mas, para comemorar bem estes 50 anos, é bom voltar no tempo. E como foi comemorado o primeiro aniversário de Brasília, em 21 de abril de 1961? Evidentemente que com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da história. O que ficou da festa há 49 anos — além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso — foi a poesia que nasceu da pena do encarregado de fazer as comemorações: o presidente da Fundação Cultural, poeta Ferreira Gullar.
A verdade é que, com seus 100 mil habitantes, Brasília teve mais poesia do que festança no primeiro aniversário. Sem carro e sem nenhum tipo de apoio logístico para celebrar o primeiro ano de vida, Ferreira Gullar foi buscar a solução no bravo Exército Nacional.
Marcou audiência. Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa para dizer que faltava condução, o oficial se saiu com esta:
— Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.
— Eu sei, mas qual a solução?
— Dr. Gullar, não tem solução!
Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no fim de tarde de 21 de abril de 1961, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou para os convivas:
“Não adianta seu prefeito abrir estrada
Não adianta carnaval na Esplanada
Não adianta Catedral de perna fina
Rebolado de menina
Que o problema
é viatura e gasolina”.
Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:
“O problema é viatura e gasolina”.
Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.
 

22 de abril de 2010

silvestre@gorgulho.com

http://buscacb2.correioweb.com.br/correio/2010/04/22/A23-2204.pdf