Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

ARQUITETURA ANIMAL - Ninhos de passarinhos

 

 A ARTE DE MORAR

Porque os ninhos das aves são construídos das formas mais engenhosas e intrincadas.

Silvestre Gorgulho

Viver é uma graça. Morar é uma arte. Todo animal, grande ou pequeno, precisa de um lugar tranquilo para se acasalar, reproduzir e embalar suas crias. Quando o assunto é morar, os animais alados são um show a parte. Aves e insetos constroem verdadeiros apartamentos, condomínios e ninhos que surpreendem às vezes pela simplicidade, às vezes pela sofisticação, outras pela beleza e quase sempre pela originalidade. No caso das aves, isto é muito evidente. Umas gostam de confusão, como as biguatingas, as garças, os guarás e os biguás. Se juntam em ninhais. Outras se protegem ao extremo, criando mil entradas falsas e saídas de emergência. Tem aves de ninhos em folhas e tem ave, como o joão-de-barro, que prefere partir para a alvenaria. E tem aquelas que camuflam suas casas: ninhos ou plantas? Na arte de morar está uma das mais belas soluções da arquitetura animal.

A mesma diversidade dos cantos e das cores das aves está também na arte de construir
ninhos. Primeiro, a alternativa dos
lugares: a maioria escolhe as árvores, mas há as que buscam os barrancos, telhados,
iluminação pública e o chão. Também o comportamento muda. Uns ninhos são construídos pelo casal, outros pela fêmea e outros pelos machos. E quanto ao material usado? Aí é uma outra história de criatividade e
diversidade. Tem todo tipo de matéria prima para a construção de ninhos: barro, arame, gravetos,
folhas, papéis, teias de aranha, painas, seivas e até um simples
gramado. Ninguém melhor para falar sobre a arquitetura animal do que
alguém preocupado com o
paisagismo e a arquitetura humana e com sensibilidade para entender o mundo das aves: Carlos Fernando de Moura Delphim.

Quem é

Carlos Fernando é paisagista e arquiteto formado pela Universidade Federal de Minas Gerais. Técnico do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Moura Delphim é também membro da Comissão de Patrimônio Mundial da Unesco. Discípulo de Burle Marx e paisagista favorito do mestre Oscar Niemeyer, Moura Delphim trabalha com projetos e planejamento para manejo e preservação de sítios de valor paisagístico, histórico, natural, paleontológico e arqueológico.

 

ENTREVISTA - Carlos Fernando de Moura Delphim

Por  Silvestre Gorgulho

Folha do Meio – É incrível o comportamento dos animais em relação às suas casas!
Carlos Fernando – De fato, é incrível e muito interessante. É justamente o comportamento construtivo de muitos animais que dá origem às mais curiosas formas de arquitetura. Isto decorre de atividades adotadas por diferentes espécies que se utilizam dos recursos provenientes dos distintos ambientes nos quais habitam.

FMA – Tem animal que ganha sua casa da natureza e outros têm que construí-las, não é?
Carlos Fernando - Esse comportamento difere do surgimento espontâneo de abrigos como as conchas dos moluscos que crescem juntamente com o organismo dessas espécies. Não ocorre de forma inativa, é conseqüência do trabalho do animal que opera não apenas como arquiteto, mas também como mestre de obra e operário, atividades sem as quais não poderia fruir as vantagens de seu engenho.

FMA – Os humanos buscaram, de alguma forma, o know-how com os animais para construírem suas casas?
Carlos Fernando – De certa forma, sim. Mas é evidente que a racionalidade e o conhecimento levaram o ser humano ao aperfeiçoamento e a uma sofisticação maior. A arquitetura bioclimática é, muitas vezes, inspirada em padrões da arquitetura animal. O fato é que alguns animais produzem estruturas extremamente complexas, com formas aparentemente mais racionais do que algumas soluções arquitetônicas humanas, como é o caso das abe­lhas da espécie Apis melífera, cujas edificações apresentam soluções em nada menos lógicas do que a arquitetura humana. Os favos das colméias são estruturas extremamente leves, compostas de uma seqüência de compartimentos ocos e de forma perfeitamente hexagonal.

FMA – Há casos que os animais foram mais eficazes?
Carlos Fernando – Interessante, mas há um exemplo fantástico. Nenhuma obra humana pode ser comparada pela leveza, pela perfeição, despojamento e pela capacidade de cumprir suas funções com tanta eficiência como a casa da aranha. A teia de aranha serve não apenas de abrigo como também para capturar as presas nas quais são depositados os ovos que irão alimentar as pequenas aranhas recém-nascidas. Essas construções levíssimas, quase imate­riais, cuja empreitada segue uma disposição rigorosa com cada passo de construção dependendo do anterior, resistem à ventania e chuvas. Sua criação segue em ordem rigorosa, não havendo nenhuma arquitetura humana que possa a ela se comparar.

FMA – E existem outras tecnologias animais que o ser humano ainda não conseguiu copiar?
Carlos Fernando – Existem sim. Veja o caso da solução térmica adotada pelos cupins. Um cupinzeiro ou um termiteiro permite que seus moradores, os cupins, mesmo durante um incêndio, permaneçam vivos. Nos meios rurais há um costume de se cavar um cupinzeiro para em seu interior se construir fornos com a finalidade de assar alimentos. Quando não se retiram os cupins, o forno continua a crescer, mesmo sendo usado, o que se pode observar em um museu rural existente em Goiânia.

FMA – E o que mais o surpreende nestes casos?
Carlos Fernando – Muitas coisas me surpreendem. Veja, por exemplo, como é surpreendente que, sem possuir ou manejar qualquer forma de ferramenta, sem ser dotados de habilidade como são as mãos, os animais bem adaptados a seu meio ambiente pude­ram aprender ou criar técnicas e usos de materiais de cons­trução. Isto lhes permitiu edificar suas moradias ao abrigo das más condições climáticas.

FMA – Há outros exemplos?
Carlos Fernando – Sim. Há animais que optam por uma arquitetura que edifica o vazio das cavidades por eles esculpidas. Outros criam obras fazendo maciços com tecidos de fibras e galhos emaranhados como o guache, as cegonhas, águias e abutres. Outros preferem viver em delicados e confortáveis casulos de pêlo, paina, lã ou musgo, de forma quase esféricas, como certos beija-flores. Quando não dispõem de cavidades naturais das quais se aproveitam, muitas espécies constroem seus ninhos furando troncos, escavando o solo ou mesmo rochas, como é o caso de mamíferos como a toupeira e o texugo. Alguns insetos e pássaros criam labirintos de peças rigorosamente idênticas entre si, como ocorre com as admiráveis obras das abelhas e dos cupins.

FMA – O ser humano busca reciclar muito suas matérias primas para a construção. E os animais?
Carlos Fernando – Esta é outra característica interessante e muito curiosa em ver como certos animais reciclam também os trabalhos de outros. Há aves, como a coruja, que se instalam em buracos escavados nas casas de outras espécies, como os cupinzeiros.

FMA –Na verdade o sistema de construção pode ser bem diferente...
Carlos Fernando – É, cada um se baseia em um diferente sistema construtivo. Os ninhos das aves são construídos das formas mais engenhosas e intricadas. Enquanto o pica-pau e o martim-pescador escavam os troncos, o joão-de-barro, um hábil construtor, constrói um domo em barro com uma planta-baixa de desenho simples, mas com funções complexas. Uma forma espiralada na qual uma pequena abertura dá acesso ao túnel curvo que conduz à câmara central.

FMA – Enfim, animais são mais engenheiros ou arquitetos?
Carlos Fernando – É verdade, alguns animais, mais do que arquitetos, são habilidosos engenheiros ao definir tipos de estruturas, suas formas e funções. É o caso do castor que constrói represas para conter as águas, cortando com seus dentes de roedor e juntando galhos e troncos nas margens dos rios, com efeitos mais positivos do que muitas barragens humanas em concreto armado.

FMA – Por que pássaros da mesma ordem, do mesmo tamanho variam tanto o tipo de seus ninhos?
Carlos Fernando – É porque a arquitetura é forma, é função e é técnica. As formas de arquitetura variam de animal para animal porque as funções referem-se à necessidade de abrigo e defesa. Sobretudo contra os predadores e contra as tempestades. E cada construtor tem suas necessidades, suas habilidades e busca a melhor forma de proteger seus ovos e filhotes. De proteção contra flutuações climáticas e mudanças ambientais, regulando temperatura, nível de umidade, danos ­mecânicos, troca de gases e ventilação. As técnicas dependem das funções e dos materiais, que variam tanto quanto as formas e funções, incluindo materiais na­turais como barro, argila, areia, pedras, galhos, palha, fibras.

Fotos: Silvestre Gorgulho

Todos estes exemplares de ninho estão expostos no Museu do Ninho, na Pousada  Doce Recanto, do apicultor Emerson Ferreira Marcial, em Soledade de Minas, no Circuito das Águas-MG.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

detalhe casa Joao de barro

 

    

 

 

 

 

 

 

 

Emerson mostra
os detalhes de uma casa de maribondo 

 

 

 

 

Ninho do Pássaro Estádio Nacional de Pequim
 

 

Os chineses foram buscar nos pássaros a inspiração para eternizar o estádio onde aconteceu a abertura dos Jogos Olímpicos de 2008. Com estrutura exposta de ferro e aço que se cruzam e entrelaçam, o estádio tem a forma de um ninho. O Ninho do Pássaro, que impressiona por sua estética simples e moderna, consumiu mais de 42.000 toneladas de aço.

 

 

 

Beleza e sofisticação

Vespa-Oleira –
A delicada obra de um inseto que mostra sua habilidade com as pernas para modelar o pote, que é seu ninho

 

A delicadeza de um ninho de beija-flor

 

 

 

 

Ninho: arte e sagrado

Ah, como era bom quando os professores mandavam a gente decorar poesias como dever de casa. Decorei muitas delas. Passei a fazer poesias depois decorar poesia de grandes poetas brasileiros e portugueses. E uma das poesias que decorei na minha infância, por sempre ouvir meu pai recitá-la, foi a do Ninho de Tico-tico. (SG)

Um Ninho de Tico-tico

Zalina Rolim (*)

Um ninho  de tico-tico,
Feito com arte e primor,
Achei  no galho mais rico
Da minha roseira em flor.

Entre as flores encoberto,
Ninguém sabe se ele existe.
É preciso olhar de perto
Para que a gente o aviste.

E lá no fundo somente
Três ovitos, nada mais...
E o ninho tão fofo e quente!
E os  três ovos tão iguais!

Mas tive muito cuidado,
Não toquei com meus dedinhos.
Mamãe disse que é sagrado
O ninho dos passarinhos.

(*) Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo foi uma  importante poeta, jornalista e educadora. Nasceu em Botucatu, em 1869. Foi inspetora do Jardim de Infância anexo à Escola Norma de Caetano de Campo.

 

 

 

silvestre@gorgulho.com

 

O museu do ninho
 

 

Emerson Ferreira Macial (*)

Emerson Ferreira
 Macial(*)

Ao longo dos anos, venho observando o comportamento dos pássaros. Seu cantar, suas andanças e, sobretudo, tudo a res­peito sobre a confecção de seus ninhos que são verdadeiras obras de arte. Depois que as aves criam seus filhotes, em geral elas abandonam os ninhos. Aí eu recolho-os e levo para um local perto de minha casa que passei a denominar O Museu do Ninho. Criei justamente para mostrar aos visitantes a delicadeza e beleza de cada ninho. As pessoas, sensibilizadas, passam a cuidar e a respeitar melhor os passarinhos.
Gosto sempre de fazer uma analogia entre as aves e nós seres humanos. Observo que entre esses ninhos há uma diferença muito grande em relação a arquitetura e o tipo de material utilizado. Cada espécie tem suas peculiaridades em conforto e segurança contra os pre­dadores. Importante e curioso é saber que todas as aves tem o mesmo acesso aos materiais na natureza, mas os ninhos são tão diversos.
Ai vem minha comparação com uma pergunta: se dividirmos toda a riqueza do mundo em partes iguais para todos os habitantes do planeta, por quanto tempo ela continuará igual na posse de cada um?
Minha conclusão: dentro da própria natureza existem classes sociais e culturas dife­rentes. Diversidade! Assim, para que todos tenham um mundo melhor precisamos apenas limitar as riquezas dos grandes e respeitar a forma como cada pessoa quer viver.


(*) Emerson Ferreira Macial é um empresário preocupado com seus negócios e com a natureza. Apicultor em Soledade de Minas, 10km de São Lourenço, no Circuito das Águas de MG, onde tem uma pousada rural. Emerson dedica a maior parte do tempo às abelhas, “este abençoado inseto tão importante na natureza”.