Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

José Aparecido de Oliveira

 

 

Nesta foto, em 1986, José Aparecido de Oliveira - então Governador de Brasília - Fernando Bujones, dona Sarah Kubitschek e o jornalista Silvestre Gorgulho, Secretário de Estado de Comunicação do Distrito Federal.

 

 

Esta é a última foto do ex-governador do DF José Aparecido de Oliveira. Foi feita por sua filha Maria Cecília, no seu apartamento da rua Caraça, em Belo Horizonte, em setembro de 2007, pouco antes de ser novamente internado para o que seria a última cirurgia. Aparecido faleceu em 19 de outubro de 2007.

Na foto, Silvestre Gorgulho, Maria Leonor Gonçalves Aparecido de Oliveira, Eleonora Santa Rosa (Secretária de Cultura de MG) e o Embaixador.

 

Nunca se fez tanto, em tão pouco tempo, para se honrar a dignidade cultural, cívica e social de Brasília. José Aparecido de Oliveira deixou o Ministério da Cultura no dia 5 de maio de 1985, para assumir no dia 9 de maio o Governo do Distrito Federal. É bom lembrar, o Governo de Brasília foi o único cargo de primeiro escalão que o presidente eleito Tancredo Neves não havia preenchido. E foi o primeiro cargo de primeiro escalão da livre escolha do presidente José Sarney. Zé Aparecido foi governador por apenas dois anos, tempo para ousar, romper privilégios e revolucionar na gestão da Capital da Esperança.

Vivi intensamente o governo Aparecido, como amigo e Secretário de Comunicação. Volto agora no governo José Roberto Arruda, como Secretário de Cultura, e vejo que há uma linha de ligação entre os dois períodos. Parece que a ousadia na gestão pública pulou de 1988, quando Aparecido deixou o governo, para 2007, com a entrada de seu ex-secretário de Serviços Públicos como governador.

Zé Aparecido era perfeccionista contumaz. Quantas vezes o vi irritado diante do ritmo paralisante da máquina burocrática, que adia a reimplantação de soluções efetivas já adotadas. Foi um governador que mergulhou firme nos problemas estruturais de Brasília. Iniciou de forma definitiva a despoluição do Lago Paranoá, construiu Samambaia e fez uma guerra sem fim contra o retalhamento do solo federativo. Iniciou os estudos para a construção do Metrô.

Com a moral de um governante de mãos limpas, pode convocar a iniciativa privada para construção de monumentos públicos. Estão todos aí: o Panteão da Pátria, o Teatro Amador, o Espaço Oscar Niemeyer, o Espaço Lúcio Costa, a Casa do Cantador (na Ceilândia), o Museu da Memória dos Povos Indígenas, etc. Eu disse convocou e não contratou.

A verdade é que Zé Aparecido permitiu que a miragem do Terceiro Milênio batesse à porta do Palácio do Buriti. Deu asas a Brasília para alçar um vôo generoso sobre sua própria comunidade. Sobre o Brasil e o mundo.

É muita coisa para recordar. Foi ele quem presidiu as primeiras eleições de Brasília. Foi ele quem abriu as cidades satélites, então de costas para o Plano Piloto, para as celebridades brasileiras como Fernanda Montenegro, Milton Nascimento, Fafá de Belém, Chico Buarque, Sérgio Ricardo. O Teatro Bolshoi adentrou o Brasil, pela primeira vez, por Brasília. Foi no seu governo que houve a primeira apresentação pública da Sinfonia da Alvorada com o próprio Tom Jobim.

Muitas são as lembranças, mas uma não dá para esquecer: foi Aparecido que trouxe de volta os artistas construtores. Oscar Niemeyer trabalhava numa sala ao lado do seu gabinete. Lúcio Costa trouxe uma colaboração fundamental: o projeto "Brasília Revisitada". Burle Marx voltou com um novo olhar sobre a vegetação do Cerrado, concebendo novos santuários.

O Jardim Botânico de Brasília nasceu, também, de sua força vanguardista, ao convocar o Príncipe herdeiro Pedro Carlos de Orleans e Bragança para fazer o projeto e implantá-lo. É muita coisa para lembrar. Mas como jornalista, quero reverenciar a memória do ex-governador, ex-embaixador e ex-ministro José Aparecido com a primeira frase que ele me disse quando adentrei seu apartamento, ao lado de Cantídia Soares, e ele me disse: "Silvestre, o presidente Sarney me convidou para ser o governador de Brasília. Duas coisas: quero você como meu secretário de Comunicação e me faça, urgente, um relatório sucinto e honesto sobre o Caso Mário Eugênio. Crime misterioso não terá lugar mais em Brasília". Fiz o relatório. Mário Eugênio havia sido assassinado em 11 de novembro de 1984. No dia 27 de julho, portanto, dois meses e pouco após assumir o governo, o Governo dava uma nota oficial elucidando o caso. A determinação do governador, a transparência de suas ações e a volta da democracia fizeram valer a verdade e a justiça sobre um dos mais bárbaros crimes de Brasília.

Zé Aparecido era uma máquina de fazer amigos. Era o "José de Todos os Amigos" como diz o livro que José Eduardo Barbosa fez por ocasião de seu aniversário, se não me engano em 17 de fevereiro de 1972. Melhor definindo, pedindo licença ao Ziraldo: "Zé Aparecido era um cheque ao portador".

silvestre@gorgulho.com