Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Brasilianistas em Brasília

Brasília, 28 de julho de 2010


Brasília acaba de receber dois grupos de formadores de opinião dos mais importantes para sua história: primeiro, 650 brasilianistas — escritores, pensadores e pesquisadores estrangeiros — que não apenas estudam o Brasil, mas sobretudo têm um carinho muito especial pelo país. Segundo, a 34ª reunião anual da Unesco, com 1.100 participantes de 187 países, para discutir, analisar e definir políticas de preservação para os sítios tombados como Patrimônio Cultural da Humanidade. Brasília, mesmo, um sítio tombado desde 1987, o primeiro da era moderna

Nossa história começou com um brasilianista. Pero Vaz de Caminha, em 1500, fez a primeira grande reportagem sobre o país que acabava de ser descoberto. Em carta relatório ao rei de Portugal, Caminha fez uma análise sobre o solo brasileiro: “A terra de Vossa Majestade é dadivosa... Aqui se plantando, tudo dá”. E a terra foi tão dadivosa que deu, desde 1500 até os dias de hoje, uma fantástica safra de estudiosos não brasileiros sérios, competentes, compromissados com a história de nosso país e de seu povo.

Os estudos dos brasilianistas — tanto os dos séculos passados como os contemporâneos — sempre trouxeram impactos muito fortes para a vida brasileira. Os naturalistas Saint Hilaire, Frederick von Martius, Peter Lund, o Barão Langsdorff, Luiz Cruls e tantos outros fizeram de suas vidas uma vida de compromisso com o Brasil. Todos eles também foram descobridores de nossa terra.

Como o são, nos dias atuais, Kenneth Maxwell, Thomas Skidmore, Tom Lovejoy, Zephyr Frank, Richard Graham, Claude Lévi-Strauss (que pelo Brasil reinventou a antropologia), Arne Sucksdorff (que reinventou nosso Cinema Novo), Edward Shu (mestre de uma imensa safra de economistas e agrônomos das universidades de Viçosa, Lavras e Piracicaba).

Foi um privilégio para Brasília receber nesse 10º Encontro da Brazilian Studies Association (Brasa) 650 participantes, entre eles, escritores do nível de James Green, Marshall Eakin, Randal Johnson, Timothy Power, Thomas Trebat, o homenageado deste congresso, Werner Baer, e a própria presidente da Brasa, Peggy Sharpe. Cabe ressaltar a generosidade de todos os participantes que fizeram questão de trazer suas publicações para compor o acervo da Biblioteca Nacional em um novo espaço, chamado “Brasil com Z”, único no Brasil.

O importante disso tudo é sentir como o esforço brasileiro em consolidar uma democracia de respeito às instituições e aos direitos individuais influenciou na obra dos brasilianistas. A verdade é que esse esforço provocou um novo olhar estrangeiro.

Os debates do 10º Encontro de Brasilianistas foram muitos, com temas dos mais variados: eleições, economia, política, religião, cultura e diplomacia. Deu para perceber que hoje o Brasil não é visto só como aquela terra exótica do futebol, da Floresta Amazônica, das praias e da Bossa-Nova. Esse novo olhar abrange a moderna arquitetura e o urbanismo, no exemplo que Brasília tão bem mostrou por si só e pela Exposição Lucio Costa, que está no Museu Nacional. E mais: quem participou das 140 mesas de trabalho pôde perceber que o Brasil chama a atenção do mundo também por sua posição vanguardista no combate ao aquecimento global, na busca de energias alternativas, no sucesso das pesquisas agropecuárias, na força do agronegócio e em tantas outras atividades.

Poucos sabem, mas cerca de 10 mil jovens universitários norte-americanos aprendem o português. Várias universidades estrangeiras — dos Estados Unidos e da Europa — estão criando escritórios de intercâmbio com alunos e pesquisadores brasileiros.

A transformação da sociedade brasileira, vivendo em pleno regime democrático, e as oportunidades de negócios que o Brasil apresenta estão atraindo a cada ano novos brasilianistas.
Como bem diz o historiador Kenneth Maxwell, “o Brasil mudou”. E os brasilianistas, com toda certeza, pelos seus estudos, suas críticas e suas teses, foram agentes ativos dessa mudança.

silvestre@gorgulho.com