Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Brasília, Cidade Cor

 

 

 

 

Foto: Silvestre Gorgulho


Catedral de Brasília vista da L-2

 

 

 

Foto: Silvestre Gorgulho 

Palácio do Planalto

 

 

BRASÍLIA

CIDADE COR

 

 

“Brasília é um olho azul cintilanterríssimo

 que me arde no coração”.

Clarice Lispector

 

 

Silvestre Gorgulho (outubro de 2010) 

 

 

Brasília é a Cidade Cor.

No céu, um azul “cintilanterríssimo”. Nas quadras, nos eixos e nos eixinhos, um caleidoscópio amarelo, branco e rosa de ipês. Os cachos dourados das sibipirunas contrastam com as flores das paineiras e com o roxo-ocre das sucupiras. O pôr-do-sol avermelha a Esplanada e o Memorial JK. Em Brasília, cidade monumento, sobram beleza, natureza e cores.

 

Sou fascinado com a epopéia da construção de Brasília que vai além de um simples projeto de cidade-capital. Por ser a única metrópole do mundo que nasceu fotografada e filmada - e por fazer agora 50 anos - Brasília é um documento vivo. Reportagens, livros, textos, imagens contam sua história. Muito mais importante: pessoas que viveram toda essa saga estão aí para explicar como tudo se passou.

É incrível: uma cidade que brotou do Cerrado inóspito, inaugurada em 21 de abril de 1960, já tem 2.607.000 habitantes.

 

Brasília nasceu predestinada. Os brasilienses candangos sempre buscaram resgatar a história da construção da nova Capital com muita emoção e um forte sentimento de brasilidade. Meta síntese do governo Juscelino Kubitschek, Brasília levou 1.112 dias para ser inaugurada – abril de 1957 a 21 de abril de 1960.

 

Desde a sua concepção, JK mobilizou os mais importantes artistas e arquitetos do país. Assim, Brasília ganhou o perfil não apenas de desafio nacional, mas também de um feito universal. Concebida pelo urbanista Lucio Costa, a nova capital pousou sobre o chão vermelho do Cerrado, recheada de palácios, prédios e monumentos surgidos da prancheta de Oscar Niemeyer e de artistas construtores como Burle Marx, Bruno Giorgi, Alfredo Cesquiatti, Mariane Perretti, Athos Bulcão, Joaquim Cardozo e tantos outros.

Era o Brasil desviando o olhar do litoral para o seu interior e abraçando toda uma nação - a mais de mil quilômetros do mar - equidistante dos extremos Norte e Sul, Leste e Oeste.

E se interiorização significou desenvolvimento econômico, o que dirá da diversidade cultural de sua gente, de seus fazeres e saberes? É Brasília como palco da capacidade criativa de um povo que se reinventa no cotidiano e se impõe como referência nacional definitiva.

 

Brasília não é só a capital política ou administrativa do País. É também a capital do Rock, a cidade das bandas, o coração do Chorinho, a sede nacional dos cantadores e repentistas, além de ser o endereço de uma das melhores orquestras sinfônicas do Brasil.

 

Aos 50 anos, Brasília está mais imponente. Uma imponência descoberta ainda em sua juventude - aos 27 anos – quando, em 8 de dezembro de 1987, foi declarada ‘Patrimônio Cultural da Humanidade’, único sítio contemporâneo tombado pela Unesco.

O urbanismo e a modernidade de nossa cidade possuem um conceito único: a socialização das Superquadras - o primeiro ponto de encontro dos que saem de casa. A meninada faz ali seu território. Romances nascem entre vizinhos. Fácil e rápido é a ida à banca de jornais ou à padaria. Esta é a vitória da humanização sobre a aridez do concreto.

 

Nesse caminhar cinquentenário, o IBGE vai mostrar neste Censo que Brasília é quase a terceira cidade brasileira em população. Mais do que isto, foi vetor seguro para o desenvolvimento, pujança, incremento econômico e visão de futuro da região Centro-Oeste. Foi um marco de (re)descobrimento do Brasil. Com Brasília vieram as estradas, as indústrias, as usinas hidrelétricas e uma explosão nos setores de agricultura e de pecuária. Hoje, a região produz mais da metade do agronegócio nacional. Verdade seja dita: Brasília assegurou definitivamente a soberania sobre o território nacional.

 

O arquiteto japonês Kenzo Tange não poupou elogios a “Brasília, como a Capital do Futuro”. Já o ex-ministro da Cultura da França, André Malraux, plantou - ainda em 1958 - durante sua construção, o frase-slogan: “Capital da Esperança”.

Do cineasta Frank Capra veio a expressão “Brasília constitui um tônico restaurador de confiança e fé no futuro”. E o astronauta Yuri Gargárin assim a definiu quando aqui esteve logo depois de sua epopéia no espaço: “A sensação é a de estar desembarcando num planeta diferente, que não a Terra”.

 

A verdade é que Brasília foi entrando aos poucos no mapa do mundo e muito rapidamente no coração das pessoas das mais diversas nacionalidades. A nova Capital ajudou a plantar o Brasil moderno, diverso, alegre, apesar das crises e despeitos. Talvez, quem sabe, até uma certa dose de inveja.

Pela arquitetura arrojada, pelo azul espetacular do céu, pelo verde dos gramados e pelas flores do Cerrado, Brasília é a Cidade Cor.

 

silvestre@gorgulho.com