Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

BRASÍLIA 51 ANOS

21 de Abril de 2011

 

 

Brasília'51, mais do que uma boa ideia

 

Silvestre Gorgulho

Brasília´51 se mostra neste 21 de Abril de 2011, inteirinha, numa belíssima exposição que inaugura o Espaço Cultural da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Há um acervo de primeira grandeza, história didaticamente contada, fotos, a maquete itinerante e várias novidades. Esta mostra, que tem a curadoria de Danielle Athayde, já foi exposta em Madrid e Lisboa, mas ainda é inédita aqui. Mais de 30 mil europeus visitaram a exposição. É incontável o número de depoimentos emocionados. Os europeus ficaram fascinados pela história e pela ousadia de um País que construiu no nada uma moderna e linda Capital. Nasceu no nada, mas cinco décadas depois o nada virou tudo em termos de ocupação territorial, interiorização do desenvolvimento e ocupação do Planalto Central. A construção de Brasília fez o Brasil se redescobrir. Foi um projeto de nação que ajudou a distribuir as benesses do progresso pelo Centro-Oeste, pelo Norte e Nordeste, até então concentradas apenas no litoral.

No espaço dedicado à Fundação Oscar Niemeyer, tem uma peça exclusiva feita por Oscar quando trabalhava na Argélia. É um “rolinho”, como pergaminho, onde o mestre das curvas desenha um “Estudo de Formas – E assim nasce a arquitetura”. Belíssimo! E uma apresentação “power-point” sobre os todos os trabalho de Niemeyer pelo mundo a fora.

A nova maquete de Brasília acompanha a mostra. Maquete é como bonsai. Para se admirar na altura dos olhos. E esta nova maquete complementa a antiga maquete que está no Espaço Lucio Costa, na Praça dos 3 Poderes. O artista-construtor das duas maquetes é o mesmo: Antônio José Pereira de Oliveira. Ao pedir a nova maquete, solicitamos ao Antônio José que inserisse quatro pontos essenciais, ausentes da maquete antiga: o Aeroporto JK, referência para os turistas, a barragem do Lago Paranoá, a nova Rodoviária e a Torre de TV Digital, seguramente o novo point turístico dos próximos 50 anos.

Vou contar uma história que poucos sabem: como nasceu a maquete que está no Espaço Lucio Costa. É interessante e foi, por assim dizer, ao acaso. No dia 2 de outubro de 1987, junto com o então governador José Aparecido de Oliveira, acompanhado por dona Sarah Kubitschek e o urbanista-inventor Lucio Costa, visitamos o Paço Imperial no Rio de Janeiro. Surpresa e admiração, me lembro bem, quando o diretor do Paço, Paulo Sérgio Duarte, nos mostrou a maquete do centro histórico do Rio de Janeiro. Uma obra de arte! Naqueles arroubos normais do Dr. Aparecido, ele vai ao telefone e liga para o Marcos França, diretor da Novacap. Ordenou: “Dr. Marcos, você que é arquiteto e artista, por favor, acerte hoje mesmo - eu disse hoje mesmo – com o Antônio José, e faça uma maquete de Brasília. Marcos, eu quero esta maquete para festejar Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade. A missão é sua!”

Missão impossível. Daí a 65 dias – em 7 de dezembro - Brasília foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco. E sem maquete. Por mais que o Marcos França quisesse e fizesse, milagres ainda não estavam em seu currículo. A gestão pública já é difícil. Mas, a pressa e a burocracia são inimigos de qualquer sonho não devidamente planejado.

Mas o sonho não acabou. E o tempo passou. Marcos França, com todas as dificuldades, fez o dever de casa. E, em 15 de dezembro de 1988, era inaugurada a maquete de Brasília no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com as presenças do dr. Lucio Costa, do arquiteto Alcides da Rocha Miranda (pintor, desenhista e pesquisador do patrimônio) do Ferreira Gullar (primeiro Secretário de Cultura de Brasília), e do ministro da Cultura, José Aparecido de Oliveira. Isso mesmo, Zé Aparecido tinha deixado o governo de Brasília, sob pressão, para não ver extinto o Ministério da Cultura.

A maquete só veio para Brasília, em 1989. Foi exposta, primeiro, no Salão Negro do Congresso Nacional. No final de 89, a maquete foi participar da 3ª Bienal de Arquitetura de Buenos Ayres. Foi de caminhão, teve problemas na fronteira e chegou praticamente quando havia terminado a Bienal.

Em 1990, a maquete de Brasília foi para a Europa. Fez parte da Feira Brasileira de Indústria e Comércio de Praga, uma mostra organizada por Márcio Cotrim, então Secretário de Cultura do Distrito Federal. Em 1991, Oscar Niemeyer projeta o Espaço Lucio Costa, que foi construído pela Fundação Bradesco, a pedido do Zé Aparecido. E a maquete ganha seu endereço definitivo em 27 de fevereiro de 1992, quando Lucio Costa completou 90 anos. Brasília deu em vida ao seu criador, um espaço eterno no coração do seu coração: a Praça dos 3 Poderes.

Agora, nos seus 51 anos, Brasília inaugura este novo e nobre espaço cultural da cidade. Tudo começou quando, Danielle Athayde e eu conversamos com o deputado Chico Leite, ele falou com o presidente deputado Patrício que imediatamente encampou a idéia. Foi um esforço grande. Em 10 dias, foi armada esta exposição. A boa vontade de muita gente ajudou construir este projeto. Os brasilienses, sobretudo os 20 mil alunos que vão participar, durante dois meses, de uma programação didática paralela à exposição, vão poder sentir na própria pele e ter leves arrepios, como eu tive na primeira vez que li a definição de Clarice Lispector sobre Brasília: “Brasília é para se adivinhar e que cada um rale cotovelos, joelhos e alma para tentar decifrá-la, e nessa tentativa aprender a amá-la”.

A tentativa é justamente amar uma cidade que, neste meio século de vida, para o bem ou para o mal, mostrou ser a síntese do País. Dentro do Distrito Federal é encontrada toda diversidade cultural e social do Brasil. Aqui são encontrados todos os problemas da má distribuição de renda, da forma brasileira de fazer política, da educação deficiente, das dificuldades com a saúde, do consumo de drogas, da ocupação irregular do solo e da migração desordenada. Brasília extrapolou como megalópole. Hoje é a quarta cidade brasileira em população (2 milhões 600 mil habitantes).

Um dado que assusta: o Rio de Janeiro foi Capital da República por 70 anos. Brasília já o é por 51 anos. O tempo passa... Passa e todos estes problemas estão no âmago de uma cidade na placenta da história... São 51 anos de muitos sonhos, de alguns pesadelos, de imensas esperanças, mas - ainda bem - com uma realidade muito mais forte em ações positivas do que negativas.

Se Brasília fosse, ainda hoje, a bucólica cidade do início dos anos 70 sem semáforos e engarrafamentos, se fosse apenas uma cidade de funcionários públicos, do corpo diplomático e de serviços especializados, com certeza não seria a Capital do Brasil. Seria a capital de um país da Escandinávia. Não teria mais do que seus 500 mil habitantes programados. Seria um oásis dinamarquês na imensidão de tantos Brasis pobres e esquecidos.

Mas Brasília é capital do Brasil. O Plano Piloto tem o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Logo ali, em Águas Lindas, Goiás, a pouco mais de 30 quilômetros, está um dos mais baixos IDH do país.  Sim, e não é por outro motivo que estourou dia 25 de janeiro a revolta da população de Santo Antônio do Descoberto, vizinho de Águas Lindas, pelo descaso com as políticas públicas.

Conhecer e entender a cidade hoje, saber e captar todos os conflitos, divergências, debates, atos e ações que contam a história da sua construção é a melhor forma de planejar e plantar uma Brasília melhor para as próximas décadas. Um legado nos foi deixado. Um legado que nós, também, temos que deixar.

Clarice Lispector viveu aqui em 1962. De Clarice deixo a mensagem final: Quero esquecer de Brasília, mas ela não deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Jóia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei, mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem!”

silvestre@gorgulho.com