Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

LULA e CÂNDIDO HILÁRIO

 

QUANDO O HILÁRIO TEM ESTÓRIA E FAZ HISTÓRIA

 

 

 

Silvestre Gorgulho (18 de janeiro de 2012)

 

Presidente da República é presidente da República. Autoridade máxima do País, representante do Estado Brasileiro e Comandante em Chefe das Forças Armadas. Manda muito! Manda tanto que acaba não mandando em si mesmo. Exemplos? São muitos, mas vai aqui um: as viagens presidenciais.

 

Cada viagem é preparada com muita antecedência, em todos os seus detalhes. Quando fica acertada a viagem, faz-se logo um primeiro roteiro. Aí a máquina do poder começa a funcionar. Tudo tem que ser previsto: hora que sai, quem vai com o Presidente, onde ele vai chegar, quem vai recebê-lo, para onde ele vai, o que ele vai fazer, o que vai acontecer na sua presença, estrutura da solenidade, qual a alternativa se chover... e assim por diante. Mais: quem sobe no palanque, quem vai compor a mesa, quem vai falar, duração dos discursos, audiências. Até as despedidas estão rigorosamente previstas.


Improviso não combina com protocolo que não combina com liturgia do cargo que não combina com cerimonial. Improviso é sinônimo de jeitinho, que é sinônimo de inconveniência, que é sinônimo de “mico”. Pagar “mico” é o que uma autoridade mais teme.

Para que a máquina funcione adequadamente e com todas as vantagens para o Presidente, há um grupo de seleto servidores da Presidência da República atento a tudo e a todos. São dezenas de técnicos que começam por conhecer, antecipadamente, o local a ser visitado. Checam ponto por ponto. Se há algum problema qual a solução, saída de emergência, ambulância, onde vai se posicionar  a imprensa etc. Esse grupo chama-se, no jargão do poder, "Escalão Avançado" ou "Escav". Antes, chamava-se Batalhão Precursor.

Do “Escav” fazem parte, entre outros, peritos em segurança, peritos em telecomunicações, alguém da área médica, peritos em transportes, alguém do cerimonial e alguém da área de imprensa, além do serviço secreto do Governo. O técnico ligado ao setor da Comunicação Social, ou Secom-PR, costuma ter por missão verificar se a marca publicitária do governo está sendo exibida de forma apropriada, verificar se tudo o que está previsto contribui para tirar da viagem o rendimento projetado, em termos de repercussão da presença do Chefe de Estado. Assegurar, enfim, que o Presidente, quando em público, esteja sempre em condições de aparecer bem nas imagens que a serem feitas.

A este último tópico, não raro, chamam "evitar que a imagem do presidente seja poluída" por outros elementos de cena, pela má disposição desses elementos em relação ao ponto de vista de fotógrafos e cinegrafistas.

A partir da visita do "Escav", fecha-se o roteiro pretensamente definitivo da programação. Imprime-se um manual a ser rigorosamente seguido. Depois, durante a viagem, um grupo semelhante, não raro as mesmas pessoas que participaram do "Escav", acompanha o Presidente passo a passo e vai zelando para que tudo aconteça dentro do previsto.

 

O governo Lula tinha uma característica: dar preferência, no preenchimento dos cargos de livre provimento [os D.A.S.] a pessoas com histórico de atuação partidária e sindical. Assim, foi nomeado para a Secom-PR um metalúrgico de verdade, anistiado político, dono de expressiva folha de serviços prestados ao movimento sindical do ABC. Seu nome: Cândido Hilário.
Pois, não é que Cândido Hilário foi colocado a trabalhar nos "Escavs" das viagens presidenciais? Depois de passar por treinamento intensivo, Hilário teve finalmente sua primeira participação solo. E lá foi ele, zelar pela imagem do Presidente. A viagem era a Tucuruí, no Pará.

 

Tudo ia bem, exceto por uma coisa: segundo a percepção de Hilário, um barbudinho teimava em subir ao palco onde se encontrava o Presidente e cochichava-lhe ao ouvido. E assim foram duas, três, quatro, cinco vezes. Ora, concluiu Hilário, aquele sujeito se aproximando a todo momento de Lula estava poluindo a imagem do Chefe da Nação. Esperou mais um pouco, para ver se a coisa parava. Não parou. Então, não teve dúvidas. Quando o barbudinho subia apressadamente ao palco em direção ao Presidente, Hilário não pestanejou. Atalhou-o, segurou-o firmemente pelo braço e disse, bem discretamente, mas com decisão:

- Aqui o senhor não sobe mais.

- Por quê?

 - O senhor está poluindo a imagem do Presidente. 

Educadamente, como requer a diplomacia, sem se desvencilhar, o barbudinho virou-se, calmamente, para Cândido Hilário:

- Tudo bem. Posso fazer isso que o senhor me pede, mas desde que o senhor passe a fazer o trabalho que eu faço.

- E qual é o seu trabalho?

- Sou o Chefe do Cerimonial do Presidente da República.

- A gente logo vê, pelo seu comportamento, que o senhor é uma pessoa
importante. Mas isso não interessa. O senhor não vai mais poluir a imagem do Presidente.

 

Tudo se passou em fração de segundos. O Embaixador Paulo César de Oliveira Campos, a quem os colegas e amigos chamam carinhosamente de POC, era o Chefe do Cerimonial da Presidência da República. Como era de se esperar pela sua experiência e competência, POC administrou momentaneamente a crise. Situação contornada. 

O incidente teria que ter consequências. O Cerimonial faz parte da exclusivíssima cota de órgãos integrantes do gabinete pessoal do Presidente da República. Nenhum departamento palaciano tem mais responsabilidade e zêlo pela imagem pública do Presidente da República do que o Cerimonial.

Terminada a solenidade, começaram as conversas e trocas de telefonemas, para assegurar que Cândido Hilário estaria devidamente encostado tão logo deixasse solo paraense.

 

Definida a providência restauradora da ordem e dos tradicionais costumes palacianos, ocorre uma surpresa.  Ao deixar o palco, Lula que não se apercebera do incidente, vislumbra lá embaixo, na platéia, um velho companheiro. Era Cândido Hilário. Desce, abre um sorriso, abre mais ainda os braços e não se contem:

- Bigode, meu irmão! Que bom te ver aqui, meu companheiro querido! Quanta saudade, Bigode!

Diante de tão inequívoca demonstração de amizade, de companheirismo e de prestígio, novos telefonemas foram desfechados e, prontamente, desmanchada a cogitada demissão.

Cândido Hilário Garcia de Araújo é muito mais do que um ferrenho defensor da imagem do Presidente da República.

É o Bigode! Tem história e faz história!

 

silvestre@gorgulho.com

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