Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

A árvore, a água e a vida

 Toda vez que chega o mês de setembro, bate uma dúvida na minha cabeça: será que não é hora do governo resolver de vez essa pendenga sobre a data em que se comemora o Dia da Árvore? A pergunta, talvez, surpreenda alguns leitores. Mas o fato é o seguinte: inicialmente o Brasil instituiu o 21 de setembro como o Dia da Árvore. Assim, no início da Primavera, acontecia a Festa Anual da Árvore em todo território nacional. E a data era divulgada pela mídia, pelos livros didáticos e em palestras e trabalhos nas escolas. Virou uma data nacional. Até que, em fevereiro de 1965, o então presidente Castelo Branco, primeiro do ciclo revolucionário que começou em 1964, sancionou o decreto-lei 55.795, que instituiu uma data diferente para comemorar o Dia da Árvore no Norte e Nordeste do País: a última semana de março. E o motivo é simples. Em março tem início o período das chuvas no Nordeste, logo, é a época do plantio. Qualquer comemoração que levar em conta o plantio de sementes de árvores, então deve ser feito em março.

Mas o que acontece hoje, 37 anos depois do decreto presidencial de Castelo Branco? Prefeitos, professores e alunos do Norte e Nordeste ainda insistem em comemorar o Dia da Árvore em 21 de Setembro, contrariando o dispositivo legal. Pensando bem, a lei para o Centro-Sul, pegou. Já a lei para comemorar o Dia da Árvore no Norte e Nordeste, não pegou. O que fazer?

Para alguns técnicos do Ibama, a situação não é fácil. Vários deles entraram em contato com as secretarias de Educação e de Meio Ambiente dos estados do Norte e Nordeste para desfazer o erro. Alguns governos locais fizeram até campanhas isoladas para conscientizar a população para a nova data. Mas pouco funcionou. A maioria das escolas e dos municípios do Norte e Nordeste continua comemorando o Dia da Árvore em 21 de Setembro.

Certa vez, conversando com uma técnica do Ibama do Rio Grande do Sul, Liliane Lira, ela me dizia que havia um culpado para esta confusão. Aliás, dois culpados: a imprensa e os livros didáticos. Ambos teimam em divulgar o 21 de setembro como o Dia da Árvore para todo território nacional. Talvez seja uma questão de mercado. Afinal de contas, o maior mercado brasileiro para livros, jornais, revistas, rádios, tevês e internet está justamente no Centro-oeste, Sudeste e Sul, região mais populosa do Brasil. Assim, a discriminação com o Norte e Nordeste continua. Sem informação eficiente e convincente, as escolas, os governos e as prefeituras do Norte e Nordeste continuam promovendo festas, plantios, trabalhos, conferências sobre a Árvore na data errada.

Atualmente, uma outra comemoração – desta vez promovida e incentivada pela própria ONU – passou a ocupar o calendário de março: a água. Em 22 de março toda humanidade comemora o Dia Mundial da Água. E por que a ONU encentiva países, governos, escolas e organismos não governamentais a lembrarem a data com palestras, seminários, teatros e movimentos de cidadania? Simples. Porque é preciso sensibilizar todos os habitantes deste planeta, sobretudo as crianças, para três vertentes que devem ser debatidas e levarem a uma reflexão: como acabar com o abuso, como evitar o desperdício e como estancar de vez as contaminações das nascentes e dos rios?

O Dia Mundial da Água pegou. Mais ainda: cresceu, pois hoje as comemorações se estendem pela semana e até pelo mês inteiro. E foi, sem dúvida, mais um fator que tem contribuído para distanciar as regiões Norte e Nordeste das comemorações do Dia da Árvore, em março, como manda a lei.
O decreto do presidente Castelo Branco acabou indo por água abaixo, perdendo força para a mídia do Centro-Sul, para os livros didáticos e para a festa da água. Daí, vale a pena a pergunta: não seria bom unificar de uma vez o Dia da Árvore no Brasil, para o início da Primavera, e deixar março apenas para lembrar a água, esse recurso natural, finito e vital, que Natureza dá ao homem, mas que o homem teima em negligenciar e poluir? Afinal a água é um dos recursos naturais mais ameaçados pelas atividades humanas. O desmatamento, a derrubada das matas ciliares, a falta de saneamento, o desperdício, a ocupação irregular do solo e a péssima disposição final do lixo estão secando as nascentes, provocando a escassez, matando os peixes e adoecendo as águas. Quando as águas adoecem, as árvores e os homens ficam ameaçados.
Pensando bem, estou chegando a uma outra conclusão: é melhor comemorar o Dia da Árvore e o Dia da Água todos os dias. É o único jeito de salvar a vida!

silvestre@gorgulho.com