Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

LUCIO COSTA e suas cartas sobre Brasília

 

 As cartas de Lucio Costa estão impregnadas de autenticidade

Silvestre Gorgulho  (Brasília, 27/fevereiro/2012)

Brasília caminha para seus 52 anos de vida. E hoje, se vivo fosse, o inventor da cidade, Lucio Costa, faria 110 anos. Domingo, numa longa visita ao arquiteto Carlos Magalhães da Silveira, pude garimpar as gavetas de seu apartamento e admirar verdadeiras jóias: umas 20 cartas e bilhetes escritos por Lucio Costa. Muitas dessas cartas endereçadas ao próprio Carlos Magalhães quando ele era Secretário de Obras do Distrito Federal, no governo José Aparecido de Oliveira. Lucio Costa gostava de escrever. À mão. Sua letrinha, cuidadosamente desenhada, é única e inconfundível. Melhor do que sua escrita singular é o conteúdo de suas mensagens. No que parece uma fragilidade de escrita, ele revela em cada palavra a firmeza de caráter, a consistência de suas posições, a força de suas idéias e a delicadeza em tratar de pessoas e assuntos. Chama atenção, sobretudo, porque não tem aquela de que dr. Lucio deixou de acompanhar o dia-a-dia do crescimento da cidade. Em suas cartas, Lucio corrige falhas, mostra caminhos e se irrita com algumas ações que ele considera desvirtuantes do projeto original. Cartas e bilhetes que bem demonstram a genialidade dos sábios. Mensagens que falam de política, de arquitetura, de urbanismo, de cultura e, sobretudo, dos caminhos e descaminhos de sua invenção maior: Brasília.

Aliás, dr. Lucio escreveu a primeira carta sobre Brasília quando tinha apenas 55 anos. A carta é de 11 de março de 1957, feita à mão e depois datilografada. Quando ainda nem havia brasiliense.

Começava assim: “Desejo inicialmente desculpar-me perante a Direção da Companhia Urbanizadora e a Comissão Julgadora do Concurso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido para a nova Capital e também justificar-me. Não pretendia competir e, na verdade, não concorro; apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já pronta (...)”

Esta primeira carta é justamente o Projeto do Plano Piloto, vencedor do concurso que deu origem à Nova Capital. Uma carta bem ao seu jeito. Verdadeira obra de arte, onde esbanja delicadeza, espírito público, magnanimidade e sabedoria.

As outras cartas escritas a amigos, colegas, gestores públicos, enfim, aos brasilienses que passaram a existir depois de 21 de abril de 1960, o mestre do urbanismo conserva os mesmos predicados. Todas revelando autoridade, mas sem nunca perder a ternura.

Ao longo de sua vida, Brasília que nasceu de um gesto primário de quem faz o sinal da Cruz, provocou reações diversas no seu inventor. E estas reações diversas vão envolver, com certeza, também os leitores de suas cartas quando elas se tornarem públicas num livro ou documentário cinematográfico.

Ler um manuscrito traz sensações autênticas, sinceras, legítimas tipo olho no olho. A escrita à mão tem mistérios. A caligrafia é um pouco do DNA de cada um. A verdade é que a máquina de escrever, o computador e o email parecem ter desvalorizado a escrita à mão. Ledo engano. A modernidade valorizou ainda mais a escrita à mão.

Uma carta de amor escrita de próprio punho é para guardar e curtir apaixonadamente. A escrita à mão traz o nervosismo, a pressa, o zelo, a displicência, o valor afetivo e a magia do autor. É de uma letra torta, de um garrancho ou de uma leveza nos traços que a mensagem chega levando a alma e a aura de quem escreve.

 E aí está o outro valor das cartas de Lucio Costa. Elas são como verdadeiras pinturas originais. Tem paixão, tem sinceridade, tem comprometimento e falam por si. Num mundo saturado por mensagens eletrônicas, perfeitas ou imperfeitas, pirateadas de todas as formas, as cartas do doutor Lucio estão impregnadas de autenticidade. Todas elas, mesmo digitalizadas depois e levadas ao turbilhão de farinha de um mesmo saco pelo mundo da computação, continuam sendo fragmentos legítimos e incontestáveis. Documentos com DNA. Com uma particularidade importante: muito antes do computador, a caneta esferográfica prejudicou em muito a letra das pessoas. Por quê? Simples, porque a caneta esferográfica não obriga a empregar o mesmo cuidado que uma caneta-tinteiro exige. E dr. Lucio só escrevia com canetas de tinta forte. Tinteiro ou não. É mais este detalhe que dá às cartas do dr. Lucio o valor de verdadeiras relíquias. Olho no olho, sem direito à clonagem ou falsificação.

O Inventor de Brasília deixou exemplos de humildade, competência, determinação e generosidade. Virtudes, hoje, tão necessárias aos cidadãos brasilienses que habitam sua obra

“Eu caí em cheio na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam foi a rodoviária, à noitinha. Eu sempre repeti que essa plataforma rodoviária era o traço de união da metrópole, da capital, com as cidades-satélites improvisadas da periferia. É um ponto forçado, em que toda essa população que mora fora entra em contacto com a cidade. Então eu senti esse movimento, essa vida intensa dos verdadeiros brasilienses, essa massa que vive fora e converge para a rodoviária. Ali é a casa deles, é o lugar onde eles sentem à vontade. Eles protelam, até, a volta para a cidade-satélite e ficam ali, bebericando. Eu fiquei surpreendido coma boa disposição daqueles caras saudáveis. E o “centro de compras”, então, fica funcionando até meia noite... Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. Só o Brasil... Eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa como poderia ser, Brasília está funcionando e vai funcionar cada vez mais. Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela. Eu fiquei satisfeito, me senti orgulhoso de ter contribuído”.

Lucio Costa - 30/III/87

 silvestre@gorgulho.com