Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

NHÁ CHICA, A SANTA DE BAEPENDI

 
De CHICO para CHICA
 
 

Quando o Papa Francisco Primeiro assumiu seu Pontificado, em 13 de março de 2013, devotos de Nhá Chica logo enviaram para ele uma mensagem:

- Papa Francisco, o senhor que é argentino, mas gosta do Brasil, quer dar mais alegria aos brasileiros? Por que não canoniza uma santa bem mineira chamada Francisca? Com certeza ela protegerá - junto com o outro Francisco - o seu papado. O processo de beatificação já está concluído. Francisca de Paula de Jesus é mais conhecida por NHÁ CHICA, a santa de Baependi.

Pois o Papa Francisco atendeu aos apelos dos devotos de Nhá Chica. Menos de dois meses depois, em 4 de maio de 2013, lá mesmo em Baependi,  em cerimônia presidida pelo prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, o cardeal Ângelo Amato, representante da SANTA SÉ, o Papa Francisco fez anunciar a data de 14 de junho como a festa litúrgica em memória de Nhá Chica.

Desta forma, Nhá Chica se tornou a primeira leiga e negra brasileira a ser declarada beata pela Igreja Católica.

Nhá Chica tem uma legião de devotos, entre eles o escritor Paulo Coelho, que confessa dever a ela o seu sucesso literário. Seu livro “Maktub” é dedicado a Nhá Chica.
Além do Santuário Nossa Senhora da Conceição, em Baependi, construído por ela, há duas capelas dedicadas a Nhá Chica: uma em São Lourenço e outra no sítio Primavera, em Soledade de Minas.
Todo Primeiro de Maio, é feita a Caminhada de Nhá Chica, entre São Lourenço e Baependi, quando milhares de peregrinos percorrem 33 km, passando pela Estrada Real e pelas trilhas das montanhas que ligam as duas cidades.
Veja o que diz de Nhá Chica, o escritor PAULO COELHO.
 

 

 

Nhá Chica de Baependi

 Por Paulo Coelho
 
          O que é um milagre?
          Existem definições de todos os tipos: algo que vai contra as leis da natureza, intercessões em momentos de crise profunda, coisas cientificamente impossíveis etc.
         Eu tenho minha própria definição: milagre é aquilo que enche o nosso coração de paz. As vezes se manifesta sob a forma de uma cura, de um desejo atendido, não importa — o resultado é que, quando o milagre acontece, sentimos uma profunda reverência pela graça que Deus nos concedeu.
         Há vinte e tantos anos, quando eu vivia meu período hippie, minha irmãme convidou para ser padrinho de sua primeira filha. Adorei o convite, fiquei contente que ela não me pedisse para que cortasse os cabelos (naquela época, chegavam até a cintura), nem me exigiu um presente caro para a afilhada (eu não teria como comprar).
         A filha nasceu, o primeiro ano se passou, e o batizado não acon­tecia nunca. Achei que minha irmã tinha mudado de idéia, fui per­guntar o que havia acontecido, e ela respondeu:
— Você continua padrinho. Acontece que eu fiz uma promessa pa­ra Nhá Chica, e quero batiza-Ia em Baependi, porque ela me conce­deu uma graça.
         Não sabia onde era Baependi, jamais tinha escutado falar de Nhá Chica. O período hippie passou, eu me tornei executivo de grava­dora, minha irmã teve uma outra filha, e nada de batizado. Finalmen­te, em 1978, a decisão foi tomada, e as duas famílias — dela e de seu ex-marido — foram a Baependi. Ali eu descobri que a tal Nhá Chica, que não tinha dinheiro nem para seu próprio sustento, havia pas­sado 30 anos construindo uma igreja e ajudando os pobres.
         Eu vinha de um período muito turbulento em minha vida, e já não acreditava mais em Deus. Ou melhor dizendo, já não achava que pro­curar o mundo espiritual tinha muita importância: o que contava eram as coisas deste mundo, e os resultados que pudesse conseguir. Tinha abandonado meus sonhos loucos da juventude — entre os quais ser escritor — e não pretendia voltar a ter ilusões. Estava ali naquela igreja para apenas cumprir um dever social; enquanto es­perava a hora do batizado, comecei a passear pelos arredores, e ter­minei entrando na humilde casa de Nhá Chica, ao lado da igreja. Dois cômodos, e um pequeno altar, com algumas imagens de santos, e um vaso com duas rosas vermelhas e uma branca.
         Num impulso, diferente de tudo o que eu pensava na época, fiz um pedido: se, algum dia, eu conseguir ser o escritor que queria ser e já não quero mais, voltarei aqui quando tiver 50 anos, e trarei duas ro­sas vermelhas e uma branca.
           Apenas para me lembrar do batizado, comprei um retrato de Nhá Chica. Na volta para o Rio, o desastre: um ônibus pára subitamente na minha frente, eu desvio o carro numa fração de segundo, o meu cunhado também consegue desviar, o carro que vem atrás choca-se, há uma explosão, vários mortos. Estacionamos na beira da estrada, sem saber o que fazer. Eu procuro no bolso um cigarro, e vem o re­trato de Nhá Chica. Silencioso em sua mensagem de proteção.
           Ali começava minha jornada de volta aos sonhos, à busca espiritual, à literatura, e um dia eu me vi de novo no Bom Combate, aquele que você trava com o coração cheio de paz, porque é resultado de um milagre. Nunca me esqueci das três rosas. Finalmente, os 50 anos — que naquela época pareciam tão distantes — terminaram chegando.
         E quase passam. Durante a Copa do Mundo, fui a Baependi pagar minha promessa. Alguém me viu chegando a Caxambu (onde pernoi­tei), e um jornalista veio me entrevistar. Quando eu contei o que es­tava fazendo ali, ele pediu:
         — Fale sobre Nhá Chica. O corpo dela foi exumado esta semana, e o processo de beatificação está no Vaticano. As pessoas precisam dar seu testemunho.
         — Não — disse eu. — É uma história muito íntima. Só falaria se recebesse um sinal.
         E pensei comigo mesmo: “O que seria um sinal? Só mesmo se al­guém falasse em nome dela!”
         No dia seguinte, peguei o carro, as flores, e fui a Baependi. Parei um pouco distante da igreja, lembrando o executivo de gravadora que estivera ali tanto tempo antes, e as muitas coisas que tinham me conduzido de volta. Quando ia entrando na casa, uma mulher jovem saiu de uma loja de roupas:
         — Vi que seu livro “Maktub” é dedicado a Nhá Chica — disse ela — Garanto que ela ficou contente.
         E não me pediu nada. Mas aquele era o sinal que eu estava espe­rando. E este é o depoimento público que eu precisava dar.
 
 
 (Essa crônica de PAULO COELHO foi publicada na sua coluna semanal de O GLOBO, em 9/Agosto/1998))
 
 silvestre@gorgulho.com