Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

MINHA PRIMEIRA PROFESSORA

 

MARIA DA PENHA SACRAMENTO

Silvestre Gorgulho - (Brasília, março de 1998)

 

A homenagem hoje é para a professora dona Maria da Penha Sacramento Silveira.
Dona Penha, filha da professora dona Nhá Nhá, que no início do século ensinava graciosamente as crianças de sua terra.
Dona Penha, irmã das professoras dona Antônia, dona Eunice e dona Ída.
Dona Penha, tia das professoras Ângela e Aurinha (Aurinha minha colega de primário no Colégio Santa Úrsula) e tia das professoras Vera, Regina, Maria Lúcia, Dina e Ída.
Dona Penha, mãe da professora Flávia.

Ensinar é missão de líderes e de deuses. Jesus só fez ensinar. Sócrates, Platão, Confúcio, Aristóteles, os Apóstolos, Ghandi, Padre Anchieta, Padre Antônio Vieira, Madre Thereza de Calcutá, todos ensinaram. Todos eram um pouco deuses. E minha primeira professora também era um pouco deusa. Deusa e mãe.

Fiz absoluta questão estar aqui em São Lourenço, hoje, para homenagear a minha primeira professora, dona Maria da Penha, de cujas aulas, no antigo Colégio Santa Úrsula, me lembro em detalhes.

No dia 28 de fevereiro de 1998 aconteceu a formatura dos cursos de Administração e Pedagogia da Faculdade Santa Marta. Não pude comparecer, mas como presidente da entidade enviei uma mensagem aos formandos que dizia:

Deus é três: Padre, Filho e Espírito Santo.
O diabo é dois: a televisão e a preguiça.
O futuro é uma coisa só: a educação.

Quando deixou a presidência dos Estados Unidos, Lindon Johnson disse no discurso de despedida:

— É mais fácil governar uma nação do que educar duas filhas.

Mas muito mais difícil ainda deve ser educar os filhos que não são filhos.

Por isso o magistério é uma segunda maternidade.

E, neste aspecto, a família Sacramento, é um exemplo. Desde dona Nhá Nhá, passando pela mais nova sobrinha-professora de dona Penha, Ída, até a filha-professora, Flávia, a família Sacramento vem promovendo essa corrente de ensino, fazendo da grande maioria da população de São Lourenço seus filhos.

E eu me considero um deles.

O segundo instante mais importante da vida, depois do nascimento, é quando a mãe deixa o filho na porta da escola, do pré-escolar, do jardim de infância, e o entrega à primeira professora. Começa a preparação para a difícil disputa na arena da vida.

Aquele adeus é um segundo parto. Daí as lágrimas escondidas da mãe e o choro desamparado do filho.

A partir dali, a criança fica logo sabendo que o mundo é muito maior. Aquela mulher, que a criança vê pela primeira vez, é outra mãe. A mãe da aula. A mãe do recreio. A mãe do lanche. A mãe do dia e, às vezes, a mãe da semana inteira.

A criança só não percebe ainda uma coisa: que aquela outra mãe, quanto mais o tempo passar, mais ela será lembrada.

Por mais que a vida dê voltas e saltos, aquele primeiro sorriso no rosto, aquele primeiro pegar nas mãos com paciência e ternura, aquelas primeiras palavras de afeto e de consolo são para a vida inteira.

É por isso que a literatura e as artes, os livros e as músicas, estão cheios de lembranças e saudades, carinho e gratidão, depoimentos e homenagens comovidas à primeira professora. Ela se torna inesquecível.

E nem sempre é lembrança de lição. Quase sempre é a lembrança de emoção. Mais do que a lembrança do que aprendeu, fica é a lembrança que comoveu.

Foi um conselho, uma advertência, às vezes um castigo, um texto para estudar, um poema para decorar, um livro para ler. Sempre um gesto além da lição que ficou pendurado na alma, como um sino eterno.

Apesar de aos onze anos ter deixado São Lourenço para estudar fora, tenho muitos sinos pendurados em minha alma. Sinos que badalam e trazem sempre ecos felizes da imagem, do sorriso e dos ensinamentos que recebi de minha primeira professora.

Verinha Bittencourt, Aurinha Jardim, Maria Cecília, Felipe Gannam, Elizabete, Ana Maria (Nina), Nelson, Guido, Luis Antônio, todos meus ex-colegas aqui presentes devem sentir a mesma coisa. Por ter ficado ausente desde 1958, minha emoção é maior ao saudar, nesta noite, minha querida e inesquecível primeira professora Dona Maria da Penha. Foi ela quem me abriu as primeiras portas para a vida.

Como na propaganda, posso garantir de cadeira: a primeira professora a gente nunca esquece. Sobretudo quando ela é dona Maria da Penha Sacramento, mãe da professora Flávia, tia das professoras Ângela e Aurinha, irmã das professoras dona Eunice e dona Ida e todas filhas e netas professora dona Nhá Nhá.

A alma de mestra e de deusa da pedagogia parece estar no GEN desta família.

O compromisso de ensinar e repassar o saber é mesmo um dom divino que vai passando de geração para geração.

Obrigado, dona Penha Sacramento!

Silvestre Gorgulho

silvestre@gorgulho.com

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