Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Augusto Guimarães Filho

Brasília, 3 agosto de 1997

Por Silvestre Gorgulho

Augusto Guimarães Filho, 79 anos, foi braço direito de Lucio Costa para todos os trabalhos de urbanismo, desde 1940. Os pioneiros de Brasília o conhecem e admiram. Os técnicos do governo, engenheiros e arquitetos também o conhecem e admiram. Mas a nova geração, a grande parte da população do Distrito Federal, talvez, não tenha nem ouvido falar em Augusto Guimarães Filho. Mas quem, afinal, é o dr. Augusto Guimarães? Eu o conheci pelo próprio Lucio Costa. Foi em 1996, quando entrevistei o nosso urbanista maior. O único nome que o criador de Brasília falou, espontaneamente, e fez questão de homenagear foi o de Augusto Guimarães Filho. Sabem por quê? Porque o engenheiro Augusto Guimarães foi seu fiel e verdadeiro anjo da guarda. E muito especialmente durante a construção de Brasília.
Augusto Guimarães Filho foi chefe da Divisão de Urbanismo da Novacap, por indicação de Lucio Costa. Foi ele quem desenvolveu o Plano Piloto, definiu para que lado Brasília ficaria em relação à nascente do sol e bateu o martelo da Estaca Zero, a famosa cruz formada pelos Eixos Monumental e Rodoviário, ponto de partida dos trabalhos para construção de Brasília. E nesse trabalho ele ficou até 1968. Ele tem dois filhos: o economista Eduardo Augusto Guimarães e o engenheiro Luis Fernando Guimarães.
Lucio Costa foi seu grande mestre. Trabalhando com ele, aprendeu o ofício de arquiteto. Participou de muitos projetos de Lucio Costa, inclusive o do Parque Guinle, um conjunto de três prédios residenciais, no Rio, tombado pelo IPHAN. Brasília acaba de fazer 42 anos e ainda hoje Augusto Guimarães Filho lembra a beleza, o significado e a força do projeto que nasceu do gesto primário de quem assinala o lugar ou dele toma posse: o sinal da Cruz formado pelos dois eixos. Reclama pela não construção de Galerias de Pedestres junto ao Metrô e pela não conclusão da plataforma de concreto no Setor Bancário Sul, "uma obra que não sei até quanto vai ficar inacabada".
"Não há como esquecer a primeira e grande lição que recebi de Juscelino Kubitschek" lembra ele: "Guimarães, faça o melhor. Faça sempre o melhor".
De vez em quando, Augusto Guimarães Filho vem a Brasília, pois continua ativo nos seus 85 anos. "Acompanho a História de hoje e estou lendo a História dos séculos passados no que diz respeito à mudança da Capital. E estou escrevendo alguma coisa sobre a saga da construção de Brasília", diz. Como ele continua atento ao recado de JK, com certeza, deve estar escrevendo o melhor.

1 - Qual o argumento mais burro que o senhor ouviu contra a construção de Brasília?
Muitos afirmavam que Brasília seria uma cidade natimorta ou, pelo menos, uma pequena cidade habitada por desterrados. Por duas razões: primeiro porque o Planalto Central era inóspito, perdido no tempo e no espaço; e, segundo, porque ninguém queria abandonar as oportunidades oferecidas pelas cidades existentes para lançar-se à aventura de viver num lugar longínquo. Eles não adivinhavam que os problemas da nova capital estariam exatamente no oposto. Ao invés dos 500 mil habitantes, número já impossível para eles, hoje a população passou dos 2 milhões, atestando o vigor da região.

2 - Qual a grande lembrança dos tempos da construção?
Guardo a lembrança do orgulho e da alegria de estar participando da tarefa de erguer uma cidade. E que cidade! Sempre tive a clara noção do privilégio que me foi dado por Lucio Costa. Não posso deixar de me referir à emoção de ver as colunas do Palácio da Alvorada surgindo do chão poeirento. Ver a terraplanagem da Praça dos 3 Poderes, depois de ter desenhado cada uma de suas curvas de nível. Desenhado dentro das condições que tínhamos naquela época.

3 - Brasília é hoje Patrimônio da Humanidade. E tudo isso se deve a uma santíssima trindade: JK, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Uma frase para cada um.
Preferiria que a referência fosse aos 3 Mosqueteiros, por que todos sabem que eram 4 e, assim, poderia incluir Israel Pinheiro. Brasília não seria o que é, nem teria sido feita ao tempo que foi, sem a sua corajosa e firme direção. Um grande chefe. Sobre JK não direi uma frase, apenas repetirei o que ouvi dele, quando o procurei, certa vez, para lhe pedir uma orientação: "Guimarães, faça o melhor. Faça sempre o melhor".
Lucio Costa e Niemeyer. Em lugar de duas frases, duas datas: 1936, Lucio Costa é convidado para fazer o projeto do edifício sede do então Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio. Aceita o convite, estende-o a um pequeno grupo de arquitetos, dentre os quais, Oscar Niemeyer. Foi o marco inicial da Arquitetura Brasileira Contemporânea. Decorridos 21 anos, 1957, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, novamente juntos, fazem o projeto não de um prédio, mas de uma cidade inteira. Brasília, consagração do movimento renovador da arquitetura mundial.

4 - O que Brasília tem que nenhuma outra cidade do mundo tem?
Dentre as várias características, destaco uma, não só pelo seu valor próprio, como também por sabê-la ameaçada, no momento. Refiro-me às Superquadras e ao agenciamento delas ao longo do Eixo Rodoviário. Talvez seja essa a maior contribuição de Lucio Costa ao urbanismo contemporâneo. Não estou fazendo comparação com os demais elementos da cidade. Os outros elementos são específicos de uma capital, enquanto a Superquadra é uma solução válida para qualquer cidade. É uma proposta de morar bem.

5 - Brasília está feita. Tem quem goste, a maioria, e tem quem não goste. 42 anos depois,há algo a ser refeito? Tem algo a mudar?
Faria algumas correções dos desvios de rota, acontecidos ao longo da existência da Capital, tendo como carta de navegação o Relatório do Plano Piloto. Durante meu trabalho, adquiri o bom hábito de consultá-lo sempre.
Há algum tempo tive a prova de sua atualidade. Juntamente com Maria Elisa Costa e Sérgio Porto, ao examinarmos o traçado do Metrô na área residencial de Brasília, percebemos o conflito com a implantação urbana e propusemos o traçado que veio a ser adotado. Nesta compatibilização, o novo meio de transporte foi largamente beneficiado. Basta dizer que as duas linhas foram reduzidas a uma única e que o difícil acesso dos trens à estação central passou a ser feito sem as dificuldades técnicas que estavam enfrentando. Bastou confirmar o Eixo Rodoviário como tronco principal do transporte urbano.

6 - E foram feitas novas propostas?
Olha, o Plano Piloto oferece possibilidades que devem ser exploradas e não podem ser negligenciadas. Com base nele, fizemos sim algumas propostas.
Para a área central: entregamos ao GDF um estudo abrangente a partir do estado em que se encontra a área. Para o Eixo Rodoviário: ao propor o novo traçado do Metrô, propusemos passagens de pedestre, galerias de pedestres, compatíveis com o tombamento de Brasília, junto às estações do Metrô, ao longo do Eixo. Elas ligam os lados Leste e Oeste da área residencial. São passagens seguras, cuja necessidade antecede à construção do Metrô, mas que, com ele, passou a ser absolutamente indispensáveis. Não se pode conceber uma estação de Metrô, com travessia em nível de uma via expressa, de tráfego de alta velocidade, como é o Eixão. Espero que as passagens de pedestre, com suas lojas e comodidades urbanas, sejam inauguradas junto com o Metrô. Agora um dado importante: acresce, ainda, que as passagens de pedestres viriam ao encontro de um anseio de expansão do comércio local, sem comprometer áreas que não têm vocação para esta atividade.

7 - Como o senhor vê as invasões do Comércio nas Entrequadras?
Numa cidade planejada, os espaços vazios, quando não tem um fim claramente determinado, tem a finalidade de permanecerem como estão. E é desta maneira que se compõe o quadro urbano. Não estão esperando que alguém lhes confira outra finalidade. Se aberto um precedente, será difícil conter a invasão das áreas não construídas. Nunca é demais lembrar que Brasília está tombada e o tombamento contempla a permanência das áreas como foram planejadas.

8 - Como o senhor vê a proibição do Senado de se fazer festas a em frente ao Congresso?
Aplaudo a atitude do Senado. Brasília, Capital da República e Monumento da Humanidade, tem espaços simbólicos que devem apresentar-se, sempre, a qualquer momento, com dignidade, com compostura. Aliás, a observância desta condição deve estar convenientemente regulamentada e sujeita à fiscalização de um órgão público específico. Isto porque pode ocorrer que o ocupante do Monumento não possua a sensibilidade ou a autoridade do Senado. Quando falo em Monumento, incluo o seu entorno, que dele faz parte, e merece os mesmos cuidados.

9 - Mais do que nunca o brasiliense se divide em cabeça, tronco e rodas. E hoje vivendo um engarrafamento infernal. Dá para repensar o trânsito de Brasília?
O brasiliense composto de cabeça, tronco e roda continua sendo uma minoria. A maioria é composta de cabeça, tronco e pernas, visto que precisa delas em vários momentos de sua vida. Eles são irremediavelmente pedestres. Entendo ser necessário repensar o trânsito, repensando o Sistema Viário, como constituído por dois sub-sistemas complementares, o Sistema de Tráfego de Veículos e o Sistema Viário de Pedestres. Talvez devesse falar em três sub-sistemas, acrescentando o Sistema de Estacionamento. Pensados em conjunto é possível minimizar os conflitos.

10 - Uma curiosidade: como se marcou o ponto inicial de construção. A estaca zero, a cruz?
Brasília foi concebida com dois eixos: o Rodoviário e o Monumental. Hoje, na era do computador, seria fácil fazer o projeto da cidade, com suas retas, curvas e cotas altimétricas. Mas há 42 anos, foi tudo feito na ponta do lápis. Mas garanto que o computador não daria maior precisão aos elementos do projeto. A Estaca Zero resultou de um exame cuidadoso e demorado nas plantas disponíveis de maneira a permitir o traçado com menor impacto na topografia do Plano.

11 - Dê o nome dos cinco brasileiros que o senhor mais admira.
Não é fácil. Mas qualquer que seja a lista que eu fizer, começará sempre pelo nome de Lucio Costa.

12 - Fale um pouco das coisas que o senhor anda pesquisando e escrevendo?
Estou relendo a memória descritiva que é o Relatório do Plano do doutor Lucio Costa. Em cada releitura fico encantado com a descrição. Não tem uma só palavra sobrando. Não tem nenhuma palavra de graça. Cada sinal, cada letra do doutor Lucio na memória descritiva tem seu significado, tem o seu valor. É a sabedoria do mestre. Gosto de lembrar que um texto ou um livro vão bem quando começam bem. E o Plano do doutor Lucio começou antologicamente bem. Veja que fantástico: - Nasceu do gesto primário de quem assinala o lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da Cruz.

Brasília e sua descrição não podiam começar melhor!

silvestre@gorgulho.com