Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Delegada Deborah Menezes

Ela é uma mulher forte, decidida e não brinca em serviço. Ela gosta de flores, enfrenta marmanjos, faz poesias, prende bandidos, discute com o Conselho da Mulher e não dá moleza para ninguém. Ela é DEBORAH MENEZES, a Delegada da Mulher do Distrito Federal. Nasceu em Santos-SP, é a quarta titular da Delegacia da Mulher, criada pelo ex-governador José Aparecido de Oliveira, em 1987. Déborah já cadastrou cerca de 200 estupradores no DF, aparelhou a Delegacia com videoteca, álbuns (para evitar que as mulheres se sintam constrangidas ao identificar seus agressores) criou o disque-estupro (147) formou uma equipe de psicólogos para ajudar as vítimas e, hoje, doutora Déborah vem à Janela da Corte para falar sobre o crescente abuso sexual contra a mulher e alertar: a família está sendo desestruturada.

1 - Duas coisas que mais a incomodam em Brasília.
Primeiro, o alto índice de desemprego do DF. Segundo, não é propriamente em Brasília, mas me incomoda a imagem que lá fora se faz de Brasília. Esta não é só uma cidade administrativa e de políticos. É uma cidade viva, que cresce dia a dia, e com sua cultura.

2 - Duas coisas que mais o incomodam no Governo Cristovam Buarque.
O que mais me incomoda é a relação que o Governador Cristovam enfrenta com os funcionários públicos. É preciso encontrar um meio termo para que o funcionário, peça chave da administração pública e da cidade, seja valorizado e ao mesmo tempo cresça no seu trabalho.

3 - O que mais a incomoda na Polícia e no Judiciário?
Na Polícia: falta de pessoal, de equipamentos e de treinamento.
Já a máquina do Judiciário precisa ser ampliada. É preciso mais juízes e melhorar a lógica de tramitação dos processos.

4 - Um recado para o governador Cristovam Buarque.
É preciso investir na qualificação dos servidores públicos e o Governador precisa fazer um mutirão de toda sociedade brasiliense para garantir mais recursos da União.

5 - A maioridade penal deve ser aos 16 ou aos 18 anos?
Não é mudando a maioridade penal de 18 para 16 anos que iremos resolver o problema da violência. Isso é uma falácia. São duas as causas da criminalidade: a impunidade associada à desestruturação econômica e social. Urge responder a violência com agilidade e apoio à população, além de transformarmos a base sócio-econômica do País.

6 - Quais os maiores inimigos da Polícia para prender quem abusa da sexualmente da mulher?
Sem dúvida nenhuma, é o medo da vítima. Quando a vítima não denuncia, o crime fica impune. É preciso confiar na polícia e denunciar.

7 - Quem, no Judiciário, leva medalha de ouro no combate ao crime contra a mulher?
Leva ouro todos que, com eficácia e justiça, dão a resposta que a população espera, ou seja, a punição dos autores dos crimes. Quem pode subir ao podium é Fátima Nancy Andrighi, Edson Alfredo Smaniotto, Ana Maria Amarante e Humberto Uchoa.

8 - Pelas estatísticas da Delegacia, quais os profissionais que mais assediam as mulheres?
Pela ordem: o empresário/executivo, médicos e dentistas, e autoridades públicas, como prefeitos, diretores de departamentos.

9 - E o caso de mulheres que se dizem assediadas para tirar algum tipo de proveito. Como são tratadas?
Aí é um caso de processar a própria mulher. E já processamos algumas. No ano passado foram três. A Delegacia não pode ser usada como trampolim para ninguém. E eu não deixo.

10 - Qual o caso de abuso sexual que mais a atingiu emocionalmente?
Todos me desgastam muito. A conivência das mães com os crimes sexuais cometidos em casa por seus próprios companheiros.

11 - Mas você podia citar um caso específico?
Olha, vou contar um que me agrediu muito e eu não esqueço. Uma garotinha linda, de quatro anos, foi estuprada pelo pai. Os vizinhos descobriram, deram queixa e mandei prendê-lo. Aqui na Delegacia, a garotinha, com uma saia jeens, uma graça de loirinha, ficou brincando e chamando a atenção. E o pai dela, num canto, ainda querendo se justificar, foi me dizer: - “Tá vendo, doutora, como ela provoca!” Revoltada, quase bati no dito cujo.

12 - Setenta por centos dos casos de abuso sexual são na própria família. Qual o papel da mãe?
Vigiar, coibir e sempre denunciar. Não pode omitir-se. É dever da mãe preservar os filhos.

13 - Mas, pelo que você fala, as mães ficam mais do lado dos companheiros...
Por temor. Elas também são vítimas. Além de passivas e coniventes, elas lidam com o medo e a ameaça do criminoso. É preciso dar um basta nisso tudo. A mãe deve confiar na polícia, denunciar e proteger seus filhos.

14 - A mulher policial sofre violência?
A violência contra mulher não escolhe profissão. É claro que a mulher policial tem mais meios de se defender.

15 - Déborah, você já foi assediada...pelos políticos?
Essa é boa! Fui e muito. Por partidos e por políticos. Mas minha cabeça está voltada para meu trabalho na Delegacia da Mulher. Tenho muita coisa a fazer aqui.

silvestre@gorgulho.com