Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Fernando Pessoa

 UM FINGIDOR: ENIGMA EM FERNANDO PESSOA

Silvestre Gorgulho

FERNANDO PESSOA é gênio. E sua genialidade não coube apenas num só poeta. Fernando Pessoa são vários. Daí, tantos heterônimos. Nos tempos de África do Sul, alfabetizado em inglês, criou os primeiros heterônimos: Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Criou até um especialista em palavras cruzadas: Alexander Search. Depois vieram os heterônimos que entraram para a história: Alberto Caeiro (ingênuo guardador de rebanho - poeta da natureza) Álvaro de Campos (engenheiro, um poeta de fases e influenciado pelo simbolismo). Ricardo Reis (erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, na literatura e na política). E Bernardo Soares, um tipo especial de semi-heterônimo.Alberto Caeiro era considerado o mestre de Álvaro Campos e de Ricardo Reis. Aliás, do próprio Pessoa. Para o poeta mexicano Octavio Paz (Premio Nobel Literatura 1990) a biografia dos poetas é sua obra. E Pessoa deixou uma fantástica obra. Tinha um viver pacato, mas passou a vida criando outras vidas. ?Era o enigma em pessoa?. Comparado a Luiz de Camões, Fernando Pessoa deixou um legado para a Língua Portuguesa como jornalista, publicitário e poeta.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

.........

As gaivotas, tantas, tantas, 
Voam no rio pro mar... 
Também sem querer encantas, 
Nem é preciso voar.

......

"Minha Pátria é a Língua portuguesa!"

......

"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."

......

 ?Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos?.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

 

ALBERTO CAEIRO: o enigma em Pessoa

POETA  DA NATUREZA
Fernando Pessoa soube gerar uma nova vida e produziu poetas de carne e osso. E de estilos diversos. Tal qual como Álvaro Campos e Ricardo Reis, também Alberto Caeiro tinha sua biografia: nasceu em Lisboa (1889) e morreu tuberculoso (1915). Sem pai e nem mãe, viveu com uma tia-avó. Era louro de olhos azuis e tinha apenas instrução primária.
Alberto Caeiro viveu no campo como guardador de rebanhos. Escrevia intuitivamente. Era um poeta bucólico que entende a natureza para usufruir e não para pensar. Vê a realidade de forma objetiva e natural. Aceita-a tal como é, de forma tranqüila, sem necessidade de explicações. Tem um verso livre, bem coloquial e espontâneo. Trata do quotidiano e sua linguagem é fluente, simples e natural. Deus está em todas as coisas: ?Deus é as árvores e as flores/ E os montes e o luar e o sol...? Alberto Caeiro leva e canta uma vida sem dor. Um envelhecer sem angústia e um morrer sem desespero.
Fernando Pessoa cria uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição na sua poesia. Interessante: o próprio Fernando Pessoa observa que os 49 poemas da série ?O Guardador de Rebanhos? foram escritos na noite de 8 de Março de 1914, de um só fôlego, sem interrupções
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?Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. Porque sou do tamanho
do que vejo e não, do tamanho da minha altura?

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Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
(...)

(...)
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

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(...) Poucos sabem qual é o
rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence
a menos gente,
É mais livre e maior
o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou
no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia
não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele
está só ao pé dele.

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RICARDO REIS: o enigma em PESSOA


Escrever é a arte de criar e de fantasiar. E Fernando Pessoa foi assim: criou personagens e fantasiou estilos e biografias à vontade. É o próprio Fernando Pessoa quem diz: ?O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite?. E explica: Ricardo Reis nasceu no Porto, estudou com os jesuítas e formou-se em medicina. Era latinista e semi-helenista. Monarquista convicto, se exilou no Brasil, em 1919.
Depois que Ricardo Reis se refugiou no Brasil, ninguém mais teve notícias dele. Mas no meio do caminho tinha outro gênio: José Saramago. Tão logo soube da morte de Fernando Pessoa, em 1935, Saramago, com sua prodigiosa imaginação, escreveu ?O Ano da Morte de Ricardo Reis?. Saramago fez então Ricardo Reis voltar a Lisboa depois de ter vivido 16 anos no Rio de Janeiro. Ao voltar, encontra uma Lisboa transformada que vive sob o regime salazarista. O Ricardo Reis pessoano é recriado na imaginação de Saramago que perde algumas características básicas, motivo de cobrança para Fernando Pessoa que ressurge do mundo dos mortos: "você afinal desilude-me, amador de criadas, cortejador de donzelas (...)?.

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Para ser grande
Para ser grande, sê inteiro: nada 
          Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
         No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda 
        Brilha, porque alta vive.

Cada Coisa
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. 
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.
(...)

Domina ou Cala
Domina ou cala.  Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias?  Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.

Quer Pouco
Quer pouco: terás tudo. 
Quer nada: serás livre. 
O mesmo amor que tenham 
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

 

Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
(...)

ÁLVARO CAMPOS: o enigma em PESSOA

Foi o próprio Pessoa que fez a biografia deste heterônimo, formado em engenharia: ?Álvaro de Campos (1890 - 1935) nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade?.
No poema Opiário, Álvaro Campos escreve estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico, se apresentando amargurado e insatisfeito. Exprime o tédio e cansaço, a naúsea, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Opiário foi oferecido a Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava pelo Canal do Suez, em março de 1914.

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.
(...)

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Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.
(...)

?Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...?

 

BERNARDO SOARES: o enigma em Pessoa

Entre os heterônimos (um outro nome e uma outra personalidade, bem diferente de seu criador) criados por Fernando Pessoa, Bernardo Soares era um tipo especial. Era ajudante de guarda-livros em Lisboa, onde viveu toda a sua humilde vida de empregado. Vivia sozinho, num quarto alugado perto do escritório onde trabalhava e dos escritórios onde trabalhava o poeta. Conheceram-se num restaurante. Foi aí que Bernardo Soares deu o seu "Livro do Desassossego", escrito em forma de fragmentos, para Fernando Pessoa ler e prefaciar. Bernardo Soares é considerado um semi-heterônimo (maior proximidade de temperamento) porque, como explica Fernando Pessoa ?não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade?.

" Ah, não há saudades mais dolorosas do que as coisas que nunca foram?.

"Ler é sonhar pela mão de outrem?.

"A renúncia é a libertação.
Não querer é poder?.

"Tudo o que dorme é criança de novo."

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"Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anônima da natureza...Assim, na cidade, regrados mais úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertença a ela?.

"A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.?

"Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de espinhos.?

 

Saiba Mais

O que é HETERÔNIMO, HOMÔNIMO e  PSEUDÔNIMO?

Heterônimo - A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.

Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.

Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguém como alternativa ao seu nome legal.

 silvestre@gorgulho.com