Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

RIO SÃO FRANCISCO - A NOVA NASCENTE GEOGRÁFICA

 

23 de Abril de 2004

A nova nascente do rio São Francisco

           Silvestre Gorgulho

Pesquisador descobre novas verdades sobre o Velho Chico: ele não nasce na Serra da Canastra, onde está a cachoeira Casca D}Anta, e tem novas medidas geográficas

      Esta foto mostra os técnicos visitando a confluência dos dois rios. À esquerda, o rio São Francisco e, ao fundo, o rio Samburá. Até levantamento batimétrico
(determinação do relevo do fundo de uma área fluvial) foi feito nesta oportunidade

Lendas, histórias de pescadores, causos, verdades e mentiras povoam as margens dos rios. E as margens do rio São Francisco, que atravessa três biomas (2) cinco estados e muitas culturas não fica atrás: é riquíssima em histórias e estórias. Mas nenhuma delas é tão forte como esta que o engenheiro agrônomo, técnico da Codevasf e idealizador da Expedição Américo Vespúcio, que percorreu toda extensão do rio durante 35 dias, em 2001. Vamos explicar melhor: a Expedição Américo Vespúcio foi a primeira viagem de caráter nitidamente ambiental e cultural a percorrer em barco o rio São Francisco de ponta a ponta, das nascentes à foz. Foi concebida e organizada por Geraldo Gentil Vieira, em função da revitalização da bacia por ocasião dos 500 anos de sua descoberta. Objetivo: realizar o mais amplo diagnóstico itinerante de todo o São Francisco.

 

(a) Equipe de trabalho da Codevasf: Geraldo Gentil Vieira (eng. agrônomo),  Leonaldo Silva de Carvalho (agrimensor), Miguel Farinasso (eng. agrônomo), Paulo Afonso Silva (eng. civil) e Rosemery José Carlos (geógrafa).

(b) O comprimento do rio São Francisco não tem unanimidade: segundo a Delta Larousse de 1971, ele tem 2.624 km; mas para a mesma Delta Larousse de 1986, sua extensão é de 3.161 km. Na Mirador, seu comprimento também é de 2.624 km;  e para os sites oficiais da Codevasf, Chesf e Cemig o comprimento é de 2.700 km. Assim, vemos uma grande variação numérica nas dimensões do rio. Pelos dados destes sites a diferença da nascente da Casca d}Anta para a nova nascente do rio Samburá é de 49,18 km. Levando-se em conta todos os diferentes dados, a nova nascente já apresentada no Congresso de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento em BH 2003 e no SpeleoBrazil2001,  o comprimento do São Francisco fica maior pela vertente do Samburá. O próximo passo será encaminhar o trabalho ao IBGE para homologação oficial.

As duas nascentes

O próprio Geraldo Gentil Vieira começa a contar a verdadeira história da nascente do São Francisco, tão logo voltou da expedição: "Ao retornar aos quadros da Codevasf em 1999, queria tirar uma dúvida. Afinal, nasci e vivi nas barrancas do rio São Francisco, na cidade de Iguatama, em Minas Gerais. Queria saber a extensão exata do Velho Chico e descobrir sua verdadeira nascente". Na verdade, Gentil Vieira sabe a o valor das medidas: "Tal como as pessoas têm a sua estatura, os rios têm suas medidas. Alguns deles não estão contentes com a sua altura. Assim, o orgulhoso Amazonas, o maior rio em volume de águas e até bem pouco tempo o segundo em tamanho com 6.436 km, é alvo atual de expedições aos píncaros andinos e de intensas medições e avaliações em modelos e imagens digitais para superar o faraônico Nilo, com os seus 6.693 km bem vividos".
E por que com o velho guerreiro São Francisco ocorre o contrário? Por que teimam em encurtá-lo? Por que os 2.700 km redondos? Gentil Vieira responde com a autoridade de um descobridor: "Não concordo que o São Francisco tenha menos de 3.001 km de extensão. Conheço-o desde menino. Sei que ele cai no Samburá, seu primeiro "grande" afluente, que por sua vez já recebeu  as águas do Santo Antônio". E Gentil Vieira pergunta com razão: "Como um rio maior pode ser afluente do menor? Como pode ser mais importante do que seu afluente? A verdade é cristalina como as águas de todas as nascentes do mundo: o São Francisco é afluente do rio Samburá".
Como o Pico da Bandeira até há alguns anos era o ponto culminante do Brasil e perdeu essa hegemonia para o Pico da Neblina, assim também parece acontecer com a nascente do São Francisco. Explicação? Gentil Vieira tem na ponta da língua, do lápis e do computador: "É só buscar imagens de satélite, fazer novas expedições para comprovar essa realidade. É só ir lá na confluência no cânion (3) de São Leão, uma beleza natural que poucos conhecem e ver as águas barrentas do São Francisco caindo no cristalino rio Samburá".
No século 17 os bandeirantes deliberaram e batizaram o curso principal do São Francisco fascinados pela majestosa cachoeira Casca d'Anta, apelidada de cachoeira catedral, do alto dos seus 162,828 metros. Segundo Gentil Vieira a nascente do São Francisco está a 98,12 km acima do encontro com o rio Samburá. Enquanto o São Francisco nasce a 1.469 metros de altitude, o Samburá nasce no planalto de Araxá a 1.254,66 metros. O Samburá tem precisamente 147,30 km de extensão até encontrar o São Francisco e o São Francisco exatos 98,12 km até encontrar o Samburá. Desta confluência até a foz são 2.716 km.

 

O mapa plani-altimétrico feito por computador mostra que a vazão, a calha e a profundidade do rio Samburá são maiores que o braço do São Francisco. Então, a verdade geográfica é clara: o Samburá é o rio principal

 

 

 

 

 

 

 

O vereador e guia Valdir Cruvinel, Geraldo Gentil Vieira e o agrimensor Leonaldo Silva de Carvalho realizam levantamento com o GPS geodésico para melhor definição da nascente do rio Samburá, bem no divisor da bacia do Samburá com o rio Araguari

 

 

 

 

 

Novas medidas

Assim, desta óbvia constatação surgiram os novos dados do maior rio totalmente brasileiro: 2.814,12 km para o trecho tradicional ou histórico do rio, com as nascentes na serra da Canastra, e 2.863,30 km para o trecho dito geográfico do Samburá, que tem as nascentes na Serra d}Agua, no pequeno município de Medeiros.
É bom salientar que todos da equipe técnica responsável pelo relatório final "Determinação da Extensão do rio São Francisco" deixam claro duas coisas: primeiro, para dirimir a polêmica sobre o que é curso principal e tributário (4)  uma ampla pesquisa foi feita em sites de universidades brasileiras e americanas, Unesco, dicionários cartográficos e geológicos; segundo, "o conceito que envolve deságua ou desemboca sugere que o afluente tem na confluência uma cota de talvegue(5) mais alta. Já quando se diz que o afluente é um rio menor que contribui para a vazão de um outro maior, há a dúvida sobre qual o critério de comparação: se o maior dos dois é o rio que tem maior vazão, extensão, largura (na confluência) ou maior na bacia de contribuição".
Nesta linha de raciocínio, Gentil Vieira explica porque a nascente então está no Samburá: "Na busca de dados geográficos mais precisos, comprovamos tecnicamente que a bacia hidrográfica, a vazão, a calha e a profundidade do Samburá são maiores. Para chegar a estes dados usou-se imagens de satélite, cartografia adequada, visita às nascentes, e foi utilizado GPS geodésico ASTECH SCA 12S, teodolito Zeiss THEO 010, distanciômetro AGA210 Geodimeter e nível Zeiss. A equipe utilizou uma metodologia capaz de atender as escalas existentes". E conclui o agrônomo-ambientalista com autoridade de quem se embrenhou nas matas e campos, vasculhou palmo a palmo as margens de um e de outro rio: "Assim são os rios, assim são os homens. Ambos têm os seus humores e critérios". Hoje já passados dois anos e concluídos os trabalhos da equipe da Codevasf, temos novos desafios: desengavetar e usar estes  dados para uma próxima bandeira que será estender o Parque Nacional da Serra da Canastra até o Samburá. Temos que criar o Parque Estadual da Mata de Pains, de 6 mil hectares, unindo tudo isto pela Área de Proteção Ambiental das Dez Cidades-Mães do São Francisco (c) proposta que apresentamos no SpeleoBrazil2001 [13º Congresso Internacional de Espeleologia, 4° Congresso Latino-Americano e o 26o Congresso Brasileiro de Espeleologia, realizados em Brasília, com 43 países participantes]  e ao governo federal, em 2004, no plano de revitalização do rio São Francisco".
Para os proprietários de terra tradicionais e os recém-chegados sojicultores à região, Gentil Vieira dá boa dica: "Todo este trabalho de preservação abrirá as portas para o ecoturismo. Algumas atividades predadoras, os garimpos, já  vêm sendo substituídos por pousadas e hotéis-fazenda. Esse é um novo vêio de ouro e diamante que gera emprego, renda e desenvolvimento sustentável na região. Na minha opinião, o turismo ecológico, o queijo canastra/pecuária de leite, a piscicultura, a fruticultura, o café e a cachaça de qualidade  devem ser o carro-chefe da economia regional. Temos que acabar, paulatinamente, com as lavouras anuais altamente impactantes ao solo e corpos d`água do frágil ecossistema  das cabeceiras".

(c) As dez cidades-mãe (ou das cabeceiras) do São Francisco são: Iguatama, Bambuí, Medeiros, São Roque de Minas, Vargem Bonita, Piumhi, Doresú polis, Cárrego Fundo, Pains e Arcos.

 

Quem é Geraldo Gentil Vieira

Geraldo Gentil Vieira é engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Lavras-UFLA (1975), especializado em Irrigação e Solos pelo Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas-IICA/FAO/Codevasf e Solos/Desertificação pelo The Egyptian International Centre for Agriculture-EICA, Cairo, Egito. Trabalha atualmente na Codevasf na área de Geoprocessamento. O mais importante disto tudo é que Gentil Vieira é um apaixonado pelas questões ambientais e  vem se dedicando muito em pesquisa sobre recursos naturais e expedições, por isso foi o idealizador e coordenador técnico da Expedição Américo Vespúcio.

 Glossário

1 - Espeleólogos - Estudiosos da espeleologia, a ciência que estuda e pesquisa as cavidades naturais da terra como cavernas, grutas e fontes.

2 - Bioma - Macroecossistema no qual predomina um tipo de vegetação, apresentando aspectos semelhantes em todo seu território como clima, latitude, relevo, regime de chuvas e tipo de solo. Podem ser terrestres e aquáticos.

3 - Cânion - Vale estreito, em forma de U, com bordas muito abruptas, geralmente cava por um curso d´água.

4 - Tributário - Diz-se de um curso d'água, em relação a outro, cujas águas afluem em direção a este outro. Por isso, são também ditos afluentes. O rio "A" é tributário, ou afluente, de "B" quando as águas de "A" desembocam em "B".

5 - Talvegue - O canal mais profundo do leito de um curso d´água.

summary

The new source of the São Francisco River

What is Caesar's is Caesar's; what is God's is God's and what is the São Francisco's, is the São Francisco's. Most important of all is the correct birth certificate. How can we expect to revitalize a river, when we do not even know how big it is, or where its source lay? These are some of the questions, which are approached in this story covering the results of the final Codevasf (Geraldo Gentil Vieira, Miguel Farinasso, Leonaldo Silva de Carvalho, Paulo Afonso Silva e Rosemery José Carlos) technical report which is a 180 degree geographical about-face, inasmuch as concerns the birthplace of a highly contested issue regarding the Brazilian river and for which reason it is called the river of national integration. After thoroughly researching the full extent of the São Francisco river during the Americo Vespucci expedition and concluding the Codevasf report, Geraldo Vieira could announce to Brazil and the world: the beauty and exuberance of the Casca D'Anta falls robbed the true source of the São Francisco, shortening it by several kilometers.

According to the calculations and studies of the Codevasf technical team, the geographical data of the Velho Chico changed. Vieira and several speleologists, already knew that the true source is not where everyone has learned, i.e., in the Serra da Canastra flowing down river in falls to form the fantastic Casca D'Anta, in the township of São Roque de Minas. Rather, it is really located in the plateaus of Araxá in the township of Medeiros in the state of Minas Gerais. This is the fantastic story, kept under lock and key which the Folha do Meio Ambiente unfolds first hand here and now.

In the 17th century, the pioneers baptized the main course of the São Francisco, fascinated by the majestic Casca d'Anta falls from a height of 163 meters. According to Gentil Vieira, the source of the São Francisco is 98.12 km above the convergence with the Samburá River. The São Francisco rises at an altitude of 1,469 meters, while the Samburá rises in the plains of the Araxá at 1,254.66 meters. The Samburá extends for exactly 147.30 km until it converges with the São Francisco and the São Francisco extends exactly 98.12 kilometers until it converges with the Samburá. From this confluence to the mouth there are 2,716 km.

Therefore, from this obvious observation, new data has come forth attesting to the largest Brazilian river completely within Brazilian territory: 2,814.12 km of the so called traditional or historic course of the river, including the sources in the Serra da Canastra and 2,863.30 km of the geographically called part of the Samburá, which has its sources in the Serra d´Agua, in the small township of Medeiros.

The technical team made two points clear: first, to settle the issue regarding the main course and the tributary, broad research was conducted and second, the concept involving the mouth of the river, suggests that the tributary stream has in the confluence a level of thalweg. However, when it is said that the tributary stream is a smaller river which empties into another larger river, there is some doubt about the comparison criteria used: whether the larger of the two is the river which empties more and has the greatest length and width (at confluence) or greater in the contribution."

Along this line of thinking, Gentil Vieira explains why the source is in the Samburá: "in the search for more precise geographic data, we technically proved that the hydrographic basin, the flow, the channel and the trough of the Samburá are greater. To arrive at these data, satellite images were used, as well as a appropriate cartography, visits to the sources and the use of geodesic GPS ASTECH SCA 12S, theodolite Zeiss THEO 010, distance meter AGA210 Geodometer and Zeiss level."

silvestre@gorgulho.com