Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

JULGAMENTO, uma arte

Brasília, 20.novembro.2012

 

Joaquim Barbosa tomou posse no STF. JB é o novo presidente de um dos três tentáculos da Democracia, a JUSTIÇA. Qual o papel da Justiça? Julgar. Mas em cada profissão há julgamentos a fazer.

O professor julga o aluno ao dar nota em uma prova...  A patroa julga a empregada. O fiscal julga o contribuinte. O guarda de trânsito julga o motorista. O eleitor julga o eleito. Na minha profissão, o jornalista julga o tempo todo: o repórter julga em cada matéria. O editor julga em cada título e em cada manchete de jornal. Saber julgar é uma arte de responsabilidade. Ser isento é uma arte divina.

Um exemplo na minha área: o Jornalismo. O editor de uma grande revista pediu que 4 repórteres-estagiários fizessem uma viagem à Brasília e que cada um desse sua versão sobre a cidade. Marcou a viagem de tal forma que o primeiro repórter viajasse em janeiro, o segundo em maio, o terceiro em agosto e o quarto em novembro. Depois que todos retornaram, o editor os reuniu e pediu que resumissem o que viram: 

 

1º (janeiro): Brasília é uma cidade organizada, chove muito, muito. O Congresso Nacional e os Ministérios funcionam a meia boca e os restaurantes ficam meio vazios. Os taxis não têm charme, são muito caros e os motoristas reclamam muito. Justificam que o movimento é pequeno. Mas os passageiros reclamam mais ainda.

2º (maio): o clima de Brasília é uma maravilha. Chove pouco, o céu é azul, azul. À noite tem um frio agradabilíssimo. Os gramados têm uma amplidão verde de dar gosto. Tudo é verdinho. De dia, sobram carros e faltam estacionamentos. O Congresso e a Esplanada têm um movimento intenso até 22 horas. Depois sobram vagas, faltam carros e gente. Mas o serviço de taxi é muito ruim e caro. Se a corrida é curta, os motoristas reclamam demais. Para sair do aeroporto rápido, só mesmo de taxi ou um amigo esperando.

O 3º (agosto): a cidade é interessante, mas o clima é horrível. Seco demais. Ninguém aguenta. Calor de dia e frio à noite. Não dá para viver numa cidade que não chove. O pior serviço da cidade é o transporte coletivo. Os taxis são muito caros e os motoristas reclamam o tempo todo. Transporte coletivo é para quem não tem carro. Não adianta querer deixar o carro em casa e pegar ônibus.

O 4º (novembro): Brasília é igual às outras cidades. Se chove muito, alaga. Se troveja, apaga a luz. Hotel só tem vaga de sexta a segunda. De terça às quintas, as diárias são absurdas e é difícil arrumar vaga. Pior são os taxis. Não têm charme, são muito caros e motoristas reclamam de um lado e os passageiros reclamam de outro. Transporte coletivo? Tô fora!

O editor então explicou que todos estavam certos. E errados. Todos viram a mesma Brasília, apenas em tempos diferentes. E deu uma lição: ninguém pode julgar nem uma cidade, nem uma pessoa e nem uma ação por apenas uma versão. Mesmo que seus olhos comprovem e seu julgamento seja verdadeiro para aquele momento.
A verdade está no conjunto e na análise de todas as circunstâncias. A conclusão será só no final e de posse de todas as informações.

MORAL da história 1: um momento difícil e triste não é único e não pode abafar nunca o encanto de outros momentos. Verão, inverno, primavera e outono - cada estação tem o seu encanto. É na variação das estações que se faz a diversidade e a beleza de qualquer lugar e da própria vida.
MORAL da história 2: o serviço de taxi de Brasília só é pior do que o transporte coletivo da cidade.


silvestre@gorgulho.com