Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Arlete Sampaio

 

ARLETE SAMPAIO - MÉDICA E SANITARISTA

Por Silvestre Gorgulho ( 21 de dezembro de 1997)

Por nascimento, ela é baiana de Itajiba; Por educação secundária, ela é mineira de Belo Horizonte; Pela universidade e pela política, ela é brasiliense da gema. Arlete Sampaio, vice-governadora do DF, médica-sanitarista, uma das fundadoras da CUT-DF, com profunda militância sindical, mora em Brasília há 26 anos. Duas coisas me chamaram atenção na conversa com a vice-governadora e no acompanhamento diário que faço do Governo petista. Primeiro: Arlete veio da ala mais radical do partido, uma trotskista de carteirinha, e hoje é o equilíbrio do partido e do Governo Cristóvam. Segundo: neste caleidoscópio de críticas a membros do governo petista, neste emaranhado de brigas e disputas, a vice-governadora - queiram ou não - é inatacável. Da linha trotskista de ontem ela virou o ponto de unidade de hoje. É por isso que vale a pena saber um pouco mais desta mulher que, no difícil cargo de vice, é - por assim dizer - uma unanimidade de seriedade e coerência. Uma médica que está sempre pronta a colocar mercúrio-cromo nas feridas abertas por companheiros do partido e do governo. Arlete Sampaio abriu a Janela da Corte deste domingo e mostrou que tanto a baianice como a mineirice ficaram lá para trás. Agora a vice é uma candanga legítima que não está disposta a entregar, de graça, o espaço e o respeito que conquistou.

1 - O que mais a incomoda na política?
A predominância dos projetos individuais sobre os projetos coletivos.

2 - Ser governo lhe agrada?
Sim, no sentido de poder realizar os nossos ideais.

3 - Em três anos de governo do PT, no difícil papel de vice-governadora, quais foram os três momentos mais gratificantes?
A participação nas plenárias do Orçamento Participativo. As inaugurações de obras que mudam para melhor a qualidade de vida da população. A visualização do crescimento da consciência-cidadã, como no programa Paz no Trânsito.

4 - E quais foram os três momentos mais amargos?
As injustas críticas feitas ao GDF, principalmente no primeiro ano. As incompreensões mútuas entre o GDF e o Movimento Sindical. As críticas amargas feitas por companheiros que participaram do Governo.

5 - Há algum desconforto em ser vice?
Vice, como se diz, é vice. Há um certo desconforto por nem sempre poder imprimir um estilo próprio de trabalho.

6 - O Lula não queria sair candidato à Presidência. E saiu. A senhora não gostaria de ser novamente vice. Vai ser?
Tudo depende da discussão que estamos fazendo no âmbito interno do PT e depois com os Partidos da Frente. Se for necessário, repito a dose.

7 - Como médica-sanitarista, a saúde pública brasileira tem jeito?
Claro que tem. Depende apenas de vontade política e de profundo compromisso com o povo.

8 - Onde a senhora mais se realizou: coordenando os programas de saúde pública do DF, na direção no PT-DF ou no cargo de vice-governadora?
Pela amplitude das ações das quais tenho participado é, sem dúvida, mais gratificante ser vice-governadora.

9 - Como vice-governadora a senhora coordena as Administrações Regionais e órgãos do GDF; implantou o Programa Integrado de Combate ao Uso e Abuso de Drogas no DF; coordena o Orçamento Participativo; e coordena as bancadas petistas na Câmara Distrital e Federal. Governar é mais fácil do que se pensava?
Primeiro, uma correção: não coordeno as bancadas. Quem coordena é o Governador. E, neste ano, o melhor trabalho realizado foi no planejamento político-financeiro do governo e na coordenação na área de habitação. Agora vamos à resposta: é sempre fácil fazer qualquer coisa, quando fazemos com boas intenções, com clareza do que queremos e com firmeza de posições.

10 - Se o Governo petista começasse hoje e fazendo um replay do que passou: qual o principal erro que a senhora tentaria evitar?
Cometemos alguns erros. Talvez o maior tenha sido em não divulgar, com dados e fatos, a situação caótica em que encontramos o Distrito Federal.

11 - Sinceramente, qual o grande mérito do Governo Cristóvam Buarque?
Ser democrático, popular e honesto.

12 - Delfin Neto disse que Lula será mais uma vez sparring eleitoral. Isso tem sentido?
Claro que não. Ele sabe bem das incertezas do momento político brasileiro e sabe que Lula tem boas chances eleitorais e pode bem nocautear FHC.

13 - Como a senhora vê a saída de Luiza Erundina e Vitor Buaiz do PT: Uma Questão de acomodação. Já foram tarde. O PT tem regra para ser cumprida. Grande perda. Estavam no ninho errado.
Embora seja uma perda, o PT tem regras para serem cumpridas.

14 - Dê o nome de três brasileiros vivos que a senhora mais admira.
Luiz Inácio Lula da Silva, pela inteligência excepcional; Chico Buarque de Holanda, pela sensibilidade quase feminina; e Fernanda Montenegro, que aliás é minha xará, por seu talento.

15 - Qual destas três máximas está mais próxima da verdade:
· Exatamente no momento em que você pensa que vai conseguir juntar duas extremidades, alguém as muda de lugar.
· Nunca ande por caminhos já traçados. No máximo eles vão levar a lugares onde outros já estiveram.
· Atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher.
Nenhuma delas faz minha cabeça.

16 - O PT tem que mudar para crescer ou tem que crescer para mudar ou tem que continuar como está?
Nenhuma das formulações expressam as necessidades do PT, mas poderia admitir que “tem que crescer para mudar”, na medida em que crescendo expressaria melhor o sentimento da nossa população.

17 - O Partido aceitará contribuição da iniciativa privada para a próxima campanha eleitoral?
No último encontro, o partido decidiu aprovar as contribuições de Pessoas Jurídicas, mas dentro da mais absoluta transparência.

silvestre@gorgulho.com  - Brasilia 21/12/1997