Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Diplomacia e meio ambiente

Brasília, julho de 2004

Por Silvestre Gorgulho

O homem é movido em direção ao seu interesse, seja ele econômico, político ou sentimental. Ou seja, o ser humano defende e protege seus amigos, sua família e seus parceiros, ataca quem se diz seu inimigo e é extremamente isento e justo com quem não lhe diz respeito. Assim são os executivos de empresas e assim também são os chefes de governo das nações. Roma invadiu a Europa e a África sempre atrás de algum tipo de bem: nunca cultural, sempre material. A Inglaterra, a Europa, Portugal e Espanha conquistaram o mundo também porque estavam atrás de recursos naturais - ouro, prata e especiarias - e até de recursos humanos - escravos. Hoje o império norte-americano pressiona e até faz guerra pelos mesmos motivos: defender mercados e ter petróleo. Nada mudou. Nem os homens, nem as nações e muito menos seus objetivos. A única coisa que muda é exatamente o objeto de desejo. Se antes era o ouro, hoje é o gen de uma planta; se no passado eram as especiarias, hoje são as propriedades terapêuticas de um cipó; se antes era o escravo, hoje é o petróleo; e se outrora era a terra, hoje é o espaço. E assim caminha a humanidade...

Mas tem uma coisa que o homem começou a perceber que para ele conquistar, não basta ser mais forte e nem ir à guerra. Tem que entrar num acordo já: o meio ambiente. E o motivo é bem simples: a Terra é uma só. O ar e o clima, como as aves do céu, não obedecem fronteiras. O efeito estufa, a biodiversidade, os recursos hídricos e o degelo polar são elementos da natureza que, para o bem ou para o mal, vão influenciar lá e aqui. Norte e no Sul. Na Conchichina e no jardim de nossa casa. E como resolver um assunto tão complexo como esse? Como compatibilizar tantos interesses de tantas nações onde vivem mais de 6 bilhões de seres humanos? Não adianta fazer um cabo de guerra. Há que haver inteligência, bom senso, equilíbrio para colocar os prós e contras na mesa e ver o que será melhor. Para isso, nada como o bom exercício da diplomacia.

Não adianta os países ricos acharem que cooperação internacional significa assistencialismo. Não é nada disso. Não adianta também os países do primeiro mundo conservarem seus interesses estritamente comerciais, dando com uma mão e tirando com a outra. Não vai funcionar. Proibidos de darem subsídios agrícolas, não adianta dar uma de esperto e transmutar os benefícios financeiros usando o marketing da defesa de uma biodiversidade que nem existe mais em suas terras.

Pela força e pelo dinheiro, o futuro continuará incerto. Pela pressão e pela guerra, não haverá salvação. É o que a diplomacia do mundo procura mostrar nas centenas de encontros, cúpulas, reuniões, tratados e acordos de uma complexa agenda internacional. Segundo o ministro Éverton Vargas, diplomata e eficiente chefe do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, essas agendas e encontros funcionam como bússola. Sempre trazem esperanças de dias melhores. Como bússola, mostram onde o Brasil e onde cada nação vão poder ir e, como esperança, essas reuniões abrem um caminho de fé: a Terra, como morada, e a vida, como um bem sobrenatural, só serão salvos pelo debate honesto e pelas parcerias verdadeiras que tragam no seu bojo muita generosidade e ética. Os tomadores de decisão precisam ser, acima de tudo, bons zeladores do planeta e da vida.

silvestre@gorgulho.com