Janela da Corte

Oscar Niemeyer

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Aos
90 anos ele continua um jovem revolucionário.
E de uma coerência política que
faz inveja. Trabalhando normalmente, ou melhor,
trabalhando anormalmente 12 horas por dia,
Oscar Niemeyer surpreende a família,
os amigos e os admiradores a cada momento.
De carro, como sempre, veio na segunda-feira
do Rio para passar esta semana em Brasília.
Saiu de Ipanema às 5 horas da manhã
e, à tardinha, já estava aqui.
Deixou sua filha Ana Maria Niemeyer no hotel
e avisou: – Fica aí descansando um
pouquinho que eu vou visitar umas obras. Assim
é Oscar, um gênio da raça,
segundo Darcy Ribeiro. E para o ex-senador,
o único brasileiro a ser lembrado no
Ano 3.000. Lembrado ou não nos próximo
milênios, o fato é que o arquiteto
maior, Oscar Niemeyer Soares Filho, carioca,
que dia 15 de dezembro completa 90 anos, é
referência mundial. Suas obras estão
espalhadas por este mundo a fora: no Brasil,
na Europa, no Oriente Médio, na África
e nos Estados Unidos. Prêmios? Já
recebeu os mais importantes e nem vale a pena
enumerar. De Oficial da Legião de Honra
da França, passando pelo Pritzker de
Arquitetura dos EUA até chegar ao de
Comendador da Ordem de São Gregório
Magno, do Vaticano. Durante esta semana, quando
o Legislativo, o Executivo e toda a sociedade
de Brasília desdobrou-se em homenagens
a Oscar Niemeyer, ficaram várias lições
para nossa geração: Primeiro:
Oscar, onde coloca sua prancheta, onde deixa
a tinta de sua pena, onde põe sua marca,
faz qualquer um sonhar. Segundo: do cimento
ele tira imagens leves, verdadeiras asas que
ensinam a voar…Terceiro: nas suas poesias
ele projeta o protesto pelas desigualdades,
a revolta pelas injustiças e acende
na alma de cada um o desejo de luta. De revolução.
Nada de se conformar, porque há de
ter um jeito de se fazer esta vida melhor.
Antes de voltar para o Rio, de carro evidentemente,
Oscar Niemeyer abriu esta JANELA DA CORTE
e deixou recados importantes. Confira.

1 – Fazer 90 anos em
plena forma. Qual o segredo?


Pensar que tem 60 anos.

2 – O que é melhor
no Rio e ruim em Brasília. E vice-versa?


O que é bom no Rio é o mar,
as praias, a natureza convidando o carioca
a brincar um pouco. Em Brasília, são
os habitantes satisfeitos em morar nesta cidade.
E ver que ela provoca desenvolvimento nas
cidades vizinhas, conforme JK previa. Ruim
para as duas, para todo o País, é
a miséria que cresce e se multiplica.

3 – Qual a maior lição
de vida que o senhor pode nos dar depois de
viver 90 anos?


Desprezar os 90 anos e viver como se tivesse
60.

4 – Qual o trabalho
que lhe deu maior realização
profissional?


Cada projeto tem objetivo diferente. É
difícil compará-los. Mas quando
a idéia é inovadora, sua realização
correta e sem modificações,
é claro que fico satisfeito.

5 – Sua luta maior é
pela justiça social. Quando o Homem
vai conseguir ficar livre das amarras de tanta
opressão?


A luta não é minha, mas de todos
que não aceitam a miséria em
protesto e se manifestam.

6 – Brasília
foi uma utopia social?


Brasília foi o sonho predileto de JK.
Criou progresso nas cidades vizinhas, mas
os pobres, os que de longe a procuraram, pensando
ser ela a terra da promissão, continuam
pobres como antes.

7 – O que representou
a nova Capital Brasileira nesta luta por uma
vida mais digna?


Nada! É uma cidade capitalista, uma
cidade de ricos e pobres, apenas isso. A cidade
do futuro será feita em bases e programas
diferentes, voltada para o povo e não
para uma minoria privilegiada.

8 – Lúcio Costa
fez um plano urbanístico inovador que
correspondeu a uma arquitetura igualmente
arrojada. Brasília foi o maior desafio
de sua vida?


Não. Foi uma aventura. Uma aventura
coberta, como a própria vida, de alegrias
e tristezas. Prevaleceu o entusiasmo e, durante
muito tempo, um otimismo que até então
desconhecíamos.

9 – O que mais lhe incomoda
na Brasília de hoje?


Como arquiteto, não ver o Eixo Monumental
terminado, e a idéia de que a unidade
arquitetural que deveria caracterizá-lo
está ameaçada demais. Vale explicar:
unidade arquitetural existe, quando um grupo
de edifícios se correspondem plasticamente.

10 – Qual o pecado capital
do capitalismo?


É a desigualdade, a falta de solidariedade
entre os homens, a ignorância dos mais
ricos que deveriam olhar para o Céu,
para este universo fantástico e compreenderem
que não têm importância
nenhuma. Diante dele são pequeninos
demais.

11 – Toda vez que o
senhor vem a Brasília, vem de carro.
Qual a emoção que o senhor tem
quando começa a ver lá de longe
esta cidade que o senhor ajudou a construir
e que, com apenas 37 anos, já conta
com dois milhões de habitantes?


Quando eu penso que Brasília foi construída
em quatro anos apenas, e a vejo de longe,
surgindo, parece-me que um milagre qualquer
aconteceu.

12 – A Catedral de Brasília
é símbolo de beleza, de leveza,
uma manifestação do espírito,
da imaginação, da poesia e da
fé. Tantas características são
bases para uma boa arquitetura?


Quando não há invenção,
criatividade, poesia não há
arquitetura.

13 – Dizem que quando
o Papa João Paulo II veio pela 1a vez
a Brasília ele ficou encantado com
a Catedral. Aí ele cochichou com o
D. Ávila: – “O arquiteto da Catedral
deve ser de uma sensibilidade religiosa muito
grande!” Os Céus lhe inspirou
neste projeto?


Realmente a idéia de que os que tivessem
na nave pudessem ver os espaços infinitos,
foi uma solução que me ocorreu
e me agradou muito.

14 – Um conselho para
que o mundo seja um pouquinho melhor.


Quando a sociedade se degrada, a miséria
se multiplica e a esperança foge do
coração dos homens, a solução
é a revolução.

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