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QUANDO OS NOSSOS PAIS TAMBÉM ERAM CRIANÇAS

Da mesma forma que nossos filhos acham que nós nunca fomos crianças, nós também achamos que nossos pais nunca foram crianças.

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E, para falar a verdade, a primeira vez que senti que meu pai um dia também tinha sido criança ele já estava com 83 anos.
Foi em 29 de novembro de 1999, quando meus pais vieram passar o aniversário de meu filho Rodrigo, em Brasília. No café da manhã, peguei a câmera e filmei um papo com papai. Entre tantas descobertas, fiz uma interessante ao perguntar:
– Me fale sobre seu pai. Meu avô, que eu não conheci.
– Era um artista. O papai [João Gorgulho, mais conhecido por João do Morro] era músico, consertava qualquer aparelho, era criativo, uma pessoa fantástica.
– E o que o senhor guarda de recordação sobre ele?
– Muita coisa, mas a melhor é até engraçada. Eu devia ter 7 anos. Aí a mamãe [Maria Imaculada Gorgulho Capistrano Negreiros) chamou as duas filhas mais velhas, a Glória e a Carmem, e contou que nunca tinha sido comemorado o aniversário de meu pai.
(Explicando: meu avô não tinha certidão de nascimento e ninguém sabia o dia que ele nasceu. Então a vovó resolveu criar uma data para festejar o seu aniversário.)
Como já era primeira semana de dezembro de 1921, minha avó, sempre autoritária, foi logo batendo o martelo:
– O aniversário do João do Morro daqui prá frente será dia 25 de dezembro.
E chamou as duas filhas mais velhas, irmãs de meu pai, e ordenou:
– Carmem e Glória, peguem o Miguel, arrumem uma poesia para ele decorar que vamos fazer uma bela festa para o João do Morro, aqui na Casa Grande.
Escolhida a poesia, toca as duas irmãs a fazer o “seo” Miguel decorar.
Pior da história, conta o meu pai:
– Chegou o dia 25 e eu não decorei a poesia. O que fazer? Mamãe chamou as meninas e foi logo dizendo.
– Vamos mudar a data do aniversário. A festa do João do Morro agora vai ser daqui a seis dias: sexta-feira, dia 31 de dezembro.
Chegou o dia. Almoço na Casa Grande, sanfoneiros no terreiro, leitoa assada, discurso do tio Sebastião Negreiros e o grand-finalle: a poesia do garotinho Miguel Gorgulho.
O resto, é o próprio “seo” Miguel quem conta. Vale a pena ver e ouvir.
A POESIA
Diga papai e sejas comigo franco:
Há quanto tempo tu não te olhas no espelho?
Ah, se tu soubesses como um cabelinho branco…
Não… Não, não quero que vás ficando velho!
Os velhos vão para a cova
E nunca voltam mais
E tu, meu papaizinho,
Não morrerás jamais.
Agora, todos os dias, pela manhã cedinho
Assim terminarei as minhas orações:
– Conserva, oh Deus do Céu,
O bom do papaizinho…
E a vontade a mim fazes
lhe permitindo que viva eternamente…
Pois Tu milagres fazes,
Senhor, tão facilmente.

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