Artigos

JEAN DE LÉRY – PARTE 5

A HISTÓRIA DO AVATI OU CAUIM

 

Jean de Léry (1536-1613) aquele que entrou de gaiato no navio, para nossa sorte, continua suas histórias sobre o Brasil de 1550. Léry – só para relembrar – acreditou na balela do poderoso Nicolas Durand de Villegaignon e embarcou em um dos navios franceses que vieram colonizar a porção Antártica da França. O relato que o artesão e futuro pastor calvinista deixou aos brasileiros é precioso. Nesta Parte 5, Jean de Léry explica como nos primeiros anos do século XVI, os Tupinambás faziam e apreciavam o avati ou cauim. As cauinagens estavam presentes como um dos mais tradicionais festejos dos Tupinambás. Era uma espécie de “combustível” para comemorações sobre vitórias frente aos inimigos. Esses inimigos, quando derrotados, eram capturados e tidos como principal ingrediente da antropofagia indígena.

Jean de Léry conta em seus escritos como os índios fazem o avati, a bebida do milho. “São as mulheres, como já disse, que tudo fazem nessa preparação, tendo os homens a firme opinião de que se eles mastigarem as raízes ou o milho a bebida não sairá boa. (…) Os selvagens chamam essa bebida cauim; é turva e espessa como borra e tem como o gosto de leite azedo. Há cauim branco e tinto tal qual o vinho. (…) Quando querem divertir-se e principalmente quando matam com solenidade um prisioneiro de guerra para comer, é seu costume beber o cauim amornado e a primeira coisa que fazem as mulheres é um pequeno fogo em torno dos potes de barro para aquecer a bebida”.

(…) O curioso é que os Tupinambás nada comem durante as bebedeiras do mesmo modo porque não bebem às refeições muito estranhando ver-nos entremear uma e outra coisa à nossa moda”.

 

SÓBRIOS NO COMER E EXCESSIVOS NO BEBER

“Cumpre notar que embora não observem horas de jantar, merendar ou cear, como o fazemos, nem trepidem em comer à meia-noite ou ao meio-dia, só o fazem quando têm fome e pode-se dizer que são tão sóbrios no comer quanto excessivos no beber. Alguns têm o bom hábito de lavar as mãos e a boca antes e depois da comida; quanto à boca, creio que o fazem porque do contrário a teriam sempre viscosa em razão das farinhas de raízes e de milho que consomem em lugar de pão. Quando comem observam admirável silêncio e se têm alguma coisa para dizer, esperam até acabar a comida. E quando nos ouviam tagarelar alegremente às refeições, como entre franceses é costume, punham-se a motejar”.

“Mas é principalmente quando emplumados e enfeitados que matam e comem um prisioneiro de guerra em bacanais à moda pagã, de que são sacerdotes ébrios, que se faz interessante vê-los rolar os olhos nas órbitas. Mas também acontece sentarem-se em redes de algodão e uns em frente dos outros beberem modestamente; mas como o seu costume é de se reunirem todos, de uma aldeia ou de muitas, para beber (o eu nunca fazem para comer), esses beberetes especiais são muito raros.

 

UMA HISTÓRIA TRAGICÔMICA

Bebam pouco ou muito porém, como não sofrem de melancolia, congregam-se todos os dias para dançar e folgar em sua aldeia. (…) vou contar uma história tragicômica que em sua aldeia me contou um ‘mussacá’, isto é, um bom e hospitaleiro pai de família: ‘Surpreendemos uma vez’, disse ele na sua rude linguagem, ‘uma caravela de pêros (isto é, portugueses, que são inimigos mortais dos nossos tupinambás) ma qual, de mortos e comidos todos os homens e recolhida a mercadoria existente, encontramos grandes ‘caramemos’ (tonéis e outras vasilhas de madeira) cheias de bebida que logo tratamos de provar. Não sei que qualidade de cauim era, nem se o tendes no vosso país; só sei dizer que depois de bebermos ficamos por três dias de tal forma prostrados e adormecidos que não podíamos despertar’. É verossímil que fossem tonéis de bom vinho da Espanha, com os quais os selvagens, sem o saber, festejaram a Baco”.

 

A MASTIGAÇÃO DO MILHO

“No que me diz respeito, ao chegarmos a esse país procuramos evitar a mastigação no preparo do cauim e fazê-lo de modo mais limpo. Por isso pilamos raízes de aipim e mandioca com milho, mas, para dizer a verdade, a experiência não provou bem. (…) às pessoas que, em vista do que disse acima acerca da mastigação das raízes e do milho no preparo da bebida, enjoem e engulhem, lembro o modo pelo qual entre nós se fabrica o vinho. Pois se tivermos em vista que nos lugares onde crescem os bons vinhedos os vinhateiros, no tempo da vindima, metem-se de sapatões, machucam as uvas e ainda as enxovalham na lagariça, veremos que nesse mister se passam muitas coisas talvez menos aprazíveis do que a mastigação das mulheres americanas”.

 

A HISTÓRIA DO PAPAGAIO DA ÍNDIA

Descreve os animais e as aves que encontra: “Maior maravilha ainda me pareceu, porém, um papagaio dessa espécie pertencente a certa índia de uma aldeia distante duas léguas de nossa ilha. Dir-se-ia que essa ave entendia o que lhe falava a sua dona. Quando por ali passávamos esta nos interpelava: ‘dai-me um pende ou um espelho e eu farei com que o meu papagaio cante e dance em vossa presença’. Se dávamos o que pedia, bastava-lhe uma palavra para que a ave começasse a saltar na vara em que pousava, a conversar, assobiar e arremedar os selvagens de partida para a guerra, de um modo incrível. E quando a dona dizia para cantar, ele cantava; e também dançava quando ela lho ordenava. Se, porém, não lhe dávamos nada, ela se limitava a dizer asperamente ao papagaio: ‘auge’, isto é ‘pára’ e ele se aquietava sem proferir palavra e por mais que lhe disséssemos não movia nem o pé nem a língua. (…) A índia chamava-o ‘cherimbabo’ o que quer dizer ‘coisa muito amada’. E o apreciava tanto, em verdade, que se lhe perguntávamos quanto queria por ele, para vender, respondia: ‘mocauaçu’, isto é ‘canhão grande’, de modo que nunca o pudemos obter”.

 

 

‘GUANAMBI’ OU BEIJA-FLOR

“Como não me seria possível especificar minuciosamente todas as aves existentes no Brasil, tão diversas das nossas nas cores que lhes são peculiares, isto é, encarnado, branco, roxo, cinzento, púrpura, etc., finalizarei pela descrição de uma, entre as demais, que os selvagens têm em grande estima. Muito se penalizariam se alguém lhe fizesse mal e ai de quem a matasse! É cinzenta e maior do que o pombo e tem a voz mais aguda e plangente ainda do que a coruja.

 

‘Guanambi’, que os portugueses batizariam de ‘beija-flor’.

 

Os nossos tupinambás imaginam, entretanto ao ouvirem-na cantar à noite, principalmente, serem seus parentes e amigos mortos que a enviam em sinal de boa fortuna, para animá-los na guerra”.

Assim Léry descreve o ‘guanambi’, que os portugueses batizariam de ‘beija-flor’.

 

 

PRÓXIMA EDIÇÃO 365 – Agosto 2024 – JEAN DE LÉRY – Parte 6 

Jean de Léry conta que “as abelhas da América não se parecem com as nossas (europeias); antes se assemelham às pequenas moscas pretas que temos no estio e, principalmente, no tempo das uvas. Fazem seu mel e sua cera, produtos que os selvagens sabem aproveitar, em paus das florestas. Às colmeias, chamam os selvagens ‘ira-ictic’, de ‘ira’, mel e ‘ietic’, cera. (…) Acrescentarei ainda que sob as pedras encontram-se no Brasil escorpiões, os quais menores que o da Provença, são venenosos e mesmo mortais, como verifiquei.

 

 

Artigos

Motoclubes e similares são reconhecidos por relevante interesse social e cultural

Lei originada na Câmara Legislativa prevê promoção de eventos, proteção dos direitos dos motociclistas e criação de programas de educação, entre outros

Publicado

em

Por

 

Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília

Justificativa da proposta aponta que os motoclubes oferecem benefícios sociais e culturais como a promoção da amizade, segurança no trânsito e outros

A Lei do Distrito Federal nº 7.910, sancionada em 16 de junho de 2026, reconhece as atividades de motoclubes, moto grupos, moto car clube e similares como forma de expressão cultural, lazer e convívio social. Para o autor da norma, deputado Martins Machado (Republicanos), os grupos não apenas reúnem pessoas com interesses comuns, mas também contribuem para a construção de uma identidade cultural específica, que deve ser valorizada e respeitada.

O projeto de lei justifica que os motoclubes e moto grupos oferecem uma série de benefícios sociais e culturais significativos, como a promoção da amizade, apoio mútuo, segurança no trânsito e ações beneficentes entre os motociclistas. Além disso, preservam a história, celebram a liberdade e influenciam a sociedade por meio de sua cultura e estilo de vida.

A legislação prevê a promoção de eventos relacionados ao motociclismo e ao automobilismo; a proteção dos direitos dos motociclistas, incluindo a liberdade de expressão e associação; a criação de programas de educação e conscientização sobre as atividades; a ampliação da quantidade de espaços adequados para a realização de eventos; e o fortalecimento, a promoção e a difusão das práticas.

Beatriz Negreiros (sob a supervisão de Ivan Iunes)

Continue Lendo

Artigos

ENQUANTO HOUVER BRASIL

HAVERÁ PELÉ

Publicado

em

Por

Não há como não falar da COPA do Mundo de 2026. Foram 48 seleções e 1.100 atletas disputando o torneio de esporte mais importante do Planeta.
Espetáculo de emoções, de mídia, de BETs, de patriotadas, de fanatismo, de alegrias, de teatro e de marketing. Tudo isso, junto misturado, dá o chamamos, hoje, de paixão pelo Futebol.
Vi e li todos os jornais desta segunda-fera. Em fotos, estilos e críticas, mais ou menos o óbvio. Tostão, magistral no campo da bola e no campo das letras, deixou sua opinião: “Os grandes problemas do País se estendem ao futebol… Nas últimas décadas e em variados governos, o Brasil tem sido incompetente… O mesmo acontece no futebol”.
Vi, também, pelas crônicas e reportagens que os atuais deuses do futebol (Messi, Mbapé, Cristiano Ronaldo) vão deixando seus pódiuns. Novos deuses virão… E, como sempre, chegarão as novas comparações. Ele ou Pelé?
Vi também, e gostei, da crônica de Gustavo Poli, em O Globo: “Perdoa, Rei Edson Arantes do Nascimento”-
Pois é, ano que vem – outubro de 2027 – serão 50 anos que Pelé se aposentou no campo… Sim, há quase meio século Pelé deixou de jogar. E hoje, Pelé está há mais de três anos em outro patamar. Mesmo assim, tenho certeza, continuará sendo alvo de comparações: – QUEM FOI MAIOR?
Penso comigo: enquanto houver Brasil, haverá Pelé.
Continue Lendo

Artigos

Nova lei estabelece projeção de informações sobre pontos turísticos em Brasília nas salas de cinema

As exibições de informações devem ter duração de 30 segundos e serem projetadas antes do início de filmes nos cinemas e em casas de show

Publicado

em

Por

 

Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília

 

Legislação visa explorar o potencial turístico e cultural do Distrito Federal

A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) promulgou a Lei nº 7.868, de 6 de maio de 2026, de autoria da deputada Jaqueline Silva (MDB), após o veto ao projeto de lei original pelo ex-governador Ibaneis Rocha. A nova lei institui a obrigatoriedade da exibição de informações sobre pontos turísticos de Brasília nas telas de cinema no DF.

Originalmente PL nº 2.279/2021, a justificativa do projeto é a promoção do turismo como fonte inesgotável de renda, emprego, desenvolvimento econômico e cultural. O cinema deverá ser utilizado como meio ímpar de divulgação de atrações pela sua abrangência e diversidade de público.

Segundo Jaqueline Silva, o fomento ao turismo traz um cenário benéfico de geração de empregos e o surgimento de profissionais capacitados em diversas áreas, abrindo espaço para bacharéis em turismo e hotelaria, profissionais da gastronomia, transporte turístico, idiomas, comércios diversos e artesanatos.

As exibições de informações devem ter duração de 30 segundos e ser projetadas antes do início de filmes nos cinemas e em casas de show.  A Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec) fornecerá todas as informações que serão projetadas.

Beatriz Negreiros (sob a supervisão de Ivan Iunes)

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010